pelo designer Alexandre Benoit.
Até ano que vem!!
O quarto em que me hospedei em Paraty na edição de 2004 não existe mais. Ficava em um anexo da Pousada do Ouro e para entrar nele os hóspedes carregavam uma chave enorme e enferrujada que parecia resgatada de um navio pirata naufragado.
Carregar uma chave tão grande no bolso da frente das calças tinha implicações negativas e positivas. Primeiro, era um pouco incômodo. Segundo, podia atrair olhares e despertar vãs esperanças.
Não sei o que foi feito do quarto, cujo espaço estava à altura do tamanho da chave. Promovi algumas festinhas nele. Espero não ter contribuído para seu fechamento. Para se chegar ao anexo onde o quarto ficava, o hóspede era obrigado a atravessar uma parede, quer dizer, a entrar pelo portão de madeira que ficava (talvez ainda esteja lá) no muro em frente à praça da matriz. Desaparecer no meio da multidão que infesta a praça através do muro dava uma sensação meio fantasmagórica.
Participei como autor convidado em duas mesas da 2ª edição da Flip. A primeira foi inesquecível, ao lado dos amigos Daniel Galera e Marcelino Freire. A edição de 2004 foi a primeira a acontecer na Tenda do Autor como ela é hoje (na de 2003 os debates aconteciam na Casa Azul), e nossa mesa foi a primeira a acontecer nela. Portanto não exagero em dizer que eu, o Galera e o Marcelino inauguramos aquela tenda.
Também participei da última mesa, aquela em que convidados comentam e lêem trechos de seus livros preferidos. A daquele ano foi composta por Milton Hatoum, Margaret Atwood, Paul Auster, Martin Amis, Pierre Michon — e eu. Parece piada, e até deve ser. A platéia era tão estrelada quanto o palco.
Depois da leitura, na qual homenageei José Agrippino de Paula, mantive um diálogo curioso com José Miguel Wisnik em uma pizzaria. Ele disse “José Agrippino de Paula?”, ao que eu falei “É, José Agrippino de Paula…”. Ele então disse “José Agrippino de Paula!” e eu falei “José Agrippino de Paula!” e acabou. Foi uma honra conversar com o Wisnik.
Antes da mesa, porém, eu estava muito nervoso. Quando cheguei ao camarim, fiquei nervosíssimo, pois lá estavam Paul Auster e Martin Amis e ninguém além de nós. Eu havia levado um livro do Auster chamado “The Story of my Typewiter” para ele autografar. Mas quem disse que consegui falar uma palavra que fosse? Ele chegou a retirar delicadamente o livro de minha mão — já que eu não emitia nem sim nem não em resposta ao seu pedido — para mostrá-lo ao Amis. Era um livro de baixa tiragem cheio de ilustrações da máquina de escrever do Auster feitas por Sam Messer, amigo dele. A edição continua aqui em casa, sem o autógrafo.
Fiquei sem o autógrafo pois fui obrigado a sair do camarim às pressas, enquanto Auster mostrava o livro ao Amis. Quando fico muito nervoso como naquela ocasião, costuma me dar uma vontade tremenda e inadiável de ir ao banheiro. Era uma vontade daquelas, compreendem?
De modo que me enfiei naquele horroroso banheiro químico verde dos convidados — não sei se a cor era mesmo esta; talvez eu que estivesse verde — e fiz o que precisava fazer. Aliviou a tensão um bocado. O problema é que a descarga não funcionou. Pressionei e pressionei o botão (ou puxei a cordinha) e nada. Acabei desistindo. Fazer o quê?
Cheio de culpa, porém um pouco mais leve, abri a porta do banheiro químico. E me deparei com a beleza loura e diáfana e perfumada de Siri Hudsvedt, a mulher do Paul Auster. Estava sozinha na fila. Era a próxima. Siri Hudsvedt então sorriu simpaticamente seu sorriso de vikinga para mim, e entrou no banheiro.
Por diversos motivos, a Flip é mesmo inesquecível.
* Joca Reiners Terron, 29 de junho de 2012
A Flip também é dos pequenos. A Flipinha que cresce junto e também comemora 10 anos em 2012. Esta festa é destinada principalmente aos leitores mirins e conta com uma vasta programaçāo e um trabalho construído o ano inteiro por Cristina Maseda e Gabriela Gibrail.
A peça gráfica é do designer Alexandre Benoit.
Por Isabel Coutinho *
Muito antes de eu pisado pela primeira vez o chão de Paraty durante a FLIP – Festa Literária Internacional de Literatura, em 2009, já os meus pés se preparavam para aquelas pedras. Tinha sido avisada pelo escritor francês Olivier Rolin, durante uma entrevista que lhe fiz em Lisboa, para a falta de equilíbrio provocada pelas pedras no caminho depois de mais uma rodada de cachaça. Também tinha ouvido o holandês Cees Nooteboom, a escocesa Ali Smith e o britânico Julian Barnes falarem da singularidade deste festival literário numa Paraty tão paradisíaca que, como argumentava Barnes, parecia o “Brazil for the English to see”.
José Eduardo Agualusa lembra sempre com emoção a primeira vez que esteve em Paraty ao lado de Caetano Veloso que acabara de conhecer. Também Ondjaki, Inês Pedrosa, Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto sabem que terem sido convidados da FLIP, em Paraty, foi importantíssimo para a sua projecção no Brasil.
Mas foram as descrições e entusiasmo do escritor português Miguel Sousa Tavares, que participou na mítica FLIP de 2004 e teve, em tempos, a ideia de fazer uma FLIP em Portugal, que me fizeram de uma vez por todas meter os pés ao caminho. Com as dicas do autor de “Equador” no bolso e os conselhos sábios do escritor Francisco José Viegas – actual Secretário de Estado da Cultura de Portugal, autor de “Longe de Manaus” que viveu no Brasil -, lá fui para viver a festa naquela “cidade do século XVIII quase congelada no tempo”, como a descreveu Robert Dartnon.
Depois de quase duas décadas a cobrir feiras literárias internacionais, que vão da frieza de Frankfurt à ode aos bibliotecários que é a Book Expo America, encontrei na FLIP aquilo que nunca vi em outros lugares. Na Festa Literária Internacional de Paraty, acontecem coisas que não poderiam acontecer em nenhum outro lugar do mundo. Eu não sabia que havia quem se pendurasse em estruturas metálicas e subisse até à copa de árvores para ouvir falar de literatura. Vi isso na sessão de Chico Buarque e Milton Hatoum, em 2009. Eu não acreditava que houvesse um moderador capaz de amansar António Lobo Antunes em cima de um palco. Aconteceu na FLIP em 2010, com Humberto Werneck. Nunca imaginei que um escritor quase desconhecido podia transformar-se, de uma hora para a outra, numa ‘pop star’: vi isso acontecer, em 2011, com Valter Hugo Mãe.
Na FLIP em Paraty, e talvez seja da pinga mas eu não bebo, tudo lembra o paraíso. Chegamos lá e não queremos nem saber das fortes picadas dos mosquitos, dos preços exorbitantes cobrados por esses dias, das longas filas de espera nos restaurantes, da música infernal ao vivo, bar sim, bar não, e dos gritos dos bêbados que se prolongam noite fora quando tropeçam no centro histórico de Paraty. É tanto o entusiasmo pelo livro e pela literatura que até nos esquecemos do que foi preciso fazer para chegarmos até ali. Não basta querer ir à FLIP. É preciso gastar algum dinheiro e ter força de vontade para ultrapassar todas as etapas. Marcar uma pousada é uma saga: estão sempre cheias e, em média, os preços cobrados rondam mais de mil euros pela estadia nos dias do evento. Depois é preciso reservar os ingressos para as mesas. É um desespero até para quem os compra no Brasil. As sessões mais disputadas esgotam nas primeiras horas. Mas quando chega finalmente o dia e se desce no centro histórico daquela cidade brasileira que faz parte do passado de Portugal, depois de percorrer dentro de uma carrinha, e numa estrada cheia de curvas, os quilómetros que vão do Rio de Janeiro até Paraty, respira-se fundo. Sabemos que a partir dali, por alguns dias, vamos viver a literatura de uma forma inesquecível. E no fim vamos regressar a casa, do outro lado do Atlântico, e passar a ser mais um a suspirar pela FLIP em Paraty.
* Isabel Coutinho é jornalista do diário português PÚBLICO e assina a coluna de “Diário de Lisboa” na Ilustríssima. Foi pela primeira vez à FLIP em 2009 e tem regressado todos os anos.
por Edney Silvestre *
“Ah, que pena, a Flip virou uma palhaçada e não vai durar muito mais”, eu pensei, triste, quando vi – talvez logo na segunda ou terceira edição – o ministro da cultura, como num carro alegórico, desfilando carnavalescamente e acenando para fotógrafos, cinegrafistas e turistas, a bordo de uma charrete, a sacolejar sobre as pedras das ruas de Paraty.
Não foi a única vez que me vi lamentando o desmoronamento de uma boa ideia.
Eu tinha ido à festa literária desde a primeira, aquela em que os autores ainda podiam caminhar pelas ruas, sentar-se nos botequins, tomar umas e outras, saírem trôpegos ou baterem papo com os visitantes e os nativos, sem se preocupar com as revistas de celebridades, os sites de fofocas, as câmeras dos celulares ou as digitais de nove-noventa-e-nove a registrar cada passo (muitas vezes em falso) que davam.
Testemunhei decisões altamente equivocadas, na busca do sucesso.
Numa das edições amontoaram cantores e músicos que também escreviam. Alguns, bem. Outros, lamentavelmente.
Me lembro de uma Flip em que a americana Toni Morrison, mais do que se achando, saía da Pousada da Marquesa cobrindo-se com uma capa, para evitar fotos e imagens não autorizadas.
Vi a mesma aversão a fãs e mídia com o sul-africano Coetzee, que só topava sair de barco e falar aos poucos que tinham conseguido ingresso para a tenda principal.
Pessoalmente acho que esses tipos nem deviam ser convidados, mas Coetzee e Morrison, ao menos, eram ganhadores do Nobel de Literatura, em 2003 e 1993, respectivamente.
Pior foi o britânico Hanif Kureishi. Na época tinha alguma notoriedade por conta da adaptação de “My beautiful laundrette” para o cinema.
Primeiro Kureishi pareceu fugir dos holofotes. Depois passou a circular por trás de todo e qualquer entrevistado para o qual apontássemos as câmeras e luzes, como um desses papagaios de pirata que vez por outra perturbam transmissões ao vivo.
Enquanto essas bizarrices estelares se sucediam, gente do calibre de Eric Hobsbawn, do alto dos seus (então) oitenta e muitos anos (ou já teria chegado aos 90?), ou a igualmente ganhadora do Nobel de Literatura Nadine Gordimer, ou o dandy Gay Talese, atendia a todos os que os abordavam, estivessem ou não carregando seus livros. Tal como Adélia Prado, Ian McEwan, João Ubaldo Ribeiro, Salman Rushdie, Neil Gaiman e a maioria dos convidados, ao longo destes anos todos.
Acompanhei cada edição da Festa Literária de Paraty como jornalista.
Tive o privilégio, também, de participar como autor, na Flip do ano passado, 2011.
Cá meu testemunho, tanto como escritor, quanto na pele do repórter: a Flip foi um dos elementos deflagradores do estupendo interesse do leitor brasileiro e auxiliar poderoso do crescimento do mercado editorial em nosso pais.
Cada vez que a Liz Calder passa perto de mim (aviso que não sou amigo dela, que ela nunca me reconhece e que sempre me apresento, recebendo dela um “prazer em conhecê-lo” a cada vez), tenho vontade de aplaudir.
Deveria.
Quando a Flip começou, por obra, graça e incansável esforço dessa inglesa, era uma das poucas celebrações públicas do livro no Brasil, junto com Passo Fundo, as Bienais e outras mínimas.
Hoje, dez anos depois, as festas literárias, no país todo, passam de uma centena.
Ano que vem devem chegar a 150.
Filhos e filhas da Flip, com certeza.
Estou pagando pela língua.
Ainda bem.
* Edney Silvestre é jornalista e escritor.
por Paulo Roberto Pires
Minha primeira Flip aconteceu em 2002 e bem longe de Paraty. Em junho daquele ano, Liz Calder e Louis Baum receberam calorosamente em sua casa de Londres a equipe que cuidaria da primeira edição da festa. Nos conhecemos num almoço e dias depois embarcamos para Hay-on-Wye, cidade no País de Gales onde acontece o festival que desde o início foi o modelo para Liz e Luiz Schwarcz.
Na caravana que se formou, eu viajava como co-responsável pela programação, entregue ao Flávio Pinheiro. A turma, animadíssima, era formada por Belita Cermelli e Mauro Muñoz, que seriam diretores da Flip; pela hoje editora da Companhia das Letras Julia Moritz Schwarcz e Luiz Henrique, seu então namorado e hoje marido; havia ainda os autores da Bloomsbury, editora da Liz, que lançavam livros por lá: o inglês-carioca Alex Bellos, Patricia Melo e Milton Hatoum, que viajava com sua mulher, Ruth Lanna, editora e futura curadora da terceira e quarta edições da Flip.
Não era difícil imaginar o espírito de Hay em Paraty. Havia ali uma novidade decisiva: não se tratava de uma feira de livros, de uma conferência ou de um programa de palestras. O que acontecia era, de fato, um festival, com lugar para Margareth Atwood, show de Macy Gray, Christopher Hitchens e até para um improvável circo – que, aliás, assistimos entre uma coisa e outra. De volta a Londres, uma bateria de reuniões que se prolongou no Rio, em São Paulo e em Paraty.
Um ano depois, a primeira Flip se tornou uma realidade palpável para mim quando, da porta da Pousada da Marquesa, vi descerem de uma van Ana Maria Machado, Don DeLillo e Eric Hobsbwam, que cumprimentou a todos com apertos de mão e uma singela saudação: “I’m Eric”.
Naquela altura, eu participava da Flip de outra forma: deixei a programação porque virei editor e lançava Paraty para mim, resultado do projeto docemente irresponsável de trancar três jovens escritores na cidade – Chico Mattoso, João Paulo Cuenca e Santiago Nazarian – para que escrevessem contos ali ambientados. Para mim e, acredito, para eles, foi um inesquecível começo de carreira.
De lá para cá, minha vida profissional – e não apenas ela – jamais se separou da Flip, que serviu até de cenário para um romance que escrevi. Foram momentos hilários e emocionantes com autores que editei e pelo menos uma tarde épica na tarefa de conciliar, como mediador, a fina ironia de Humberto Werneck e a desembestada força da natureza chamada Xico Sá.
Pensando nesta data redonda e, é claro, advogando em causa própria, sugeri ao Mauro Muñoz que entregue esse ano a Pedra de Ouro, prêmio que aludiria à irregularidade do calçamento da cidade para contemplar a regularidade de seus frequentadores. A cerimônia, não se preocupem, será rápida, pois somos poucos os que não furaram uma Flip. E que esperam, em 2022, ganhar a Pedra de Platina.
Por Alan Pauls *
A Flip foi o primeiro festival literário que fui convidado na minha vida. Tive uma impressāo estranha, quase alucinatória, à la Aldous Huxley, como se me tivessem transportado a um mundo paralelo em que nāo houvesse nada mais importante do que um escritor. Todos os eventos funcionavam com lotaçāo maxima, as pessoas nos abordavam nas ruas para pedir autógrafos , as crianças apontavam para qualquer transeunte e perguntavam: “Este também é um escritor?”, toda a cidade estava lotada de banners com nome de escritores, títulos de livros, temas de debates… Até Coetzee sorria!. Nāo sei dizer quantos dias durou o festival. Parece que foram muitos, eternos. Em um momento, para me desintoxicar, aceitei passear de barco por algumas ilhas ao redor de Paraty. Com duas horas de passeio, já queria voltar. Precisava da minha dose, como se fosse um viciado. Alguém, de bom coracāo, que ama os escritores de verdade, me fez repousar em um canto e me obrigou a contemplar este “mar” durante as seis horas seguintes. Me salvou a vida. Mas desde entāo (e isso que conheço muitos festivais literários), penso na Flip e em Paraty como um paraíso alucinante, que prova que é agradável ser escritor e que ao mesmo tempo seria difícil viver em um mundo somente de escritores.
* Alan Pauls é um escritor argentino, participou da Flip em 2007 e é autor de O Passado, A história do pranto, A história do cabelo entre outros.

por Flávio Moura *
Já sem ter como justificar o atraso deste post para a sempre diligente Renata Megale, responsável por este blog, resolvi fazer um apanhado de frases, diálogos, gestos e momentos sem importância que, por um motivo ou outro, foram sendo registrados sem querer ao longo desses dez anos de Flip.
A vantagem do formato é que dá pra ampliar à exaustão, numa espécie de “post in progress”, à medida que a memória for funcionando. E também permite alguma interatividade, já que todos que estiveram ao menos por uma vez em Paraty devem ter registrado coisas parecidas.
Abaixo uma lista dos primeiros que lembrei, alguns deles envolvendo emails trocados durante o trabalho como curador, que exerci entre 2008 e 2010.
Espectadora, Flip de 2003: “Hanif, todo mundo tá dizendo que você é chato, mal-humorado: de que forma esse mau-humor interfere em sua literatura?”
Hanif Kureishi: “Você andou conversando com a minha mulher?”
Arnaldo Jabor, Flip 2005, apontando o dedo em direção a uma professora da platéia: “Stalinista, stalinista!”
J. M. Coetzee, 2007. Passa uma ambulância do lado de fora da tenda. O barulho da sirene se faz ouvir. Ele silencia. Passam-se cinco, seis, dez segundos, um minuto. Então o barulho vai embora e ele retoma a leitura de Diário de um ano ruim.
Chico Buarque e Paul Auster, Flip de 2004. Professoras de psicologia da PUC tiram a sandália e correm sobre as pedras de Paraty para não perder lugar na tenda.
“Luiz, estou cansado dessa vida de Mick Jagger”: Eric Hobsbawm para o editor Luiz Schwarcz, em 2003.
“Já estou muito velho para ser chamado de etcétera”. João Ubaldo Ribeiro, alegando o motivo por que desistiu de comparecer em 2004.
“É preciso que haja no quarto uma tesoura, esteira para exercícios, nenhuma bebida alcoólica e tônica diet”. Assessoria de Lou Reed, que cancelou participação poucas semanas antes do evento, em 2010.
“Sim, nossa autora concorda em comparecer, mas ela cobra 60 mil por palestra e só viaja de primeira classe”. Agente de uma autora americana que acabou, naturalmente, excluída da lista de convidados de 2009.
“Boa noitch, Pératee”: Liz Calder e seu tradicional cumprimento de boas-vindas no show de abertura.
“Olha a marcação, Chico, olha a marcação!” Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras e técnico do time de futebol em que jogou Chico Buarque, em jogo organizado contra equipe local em 2004.
“Períneo”: Jornalista Humberto Werneck em 2008, em resposta a dúvida de seu companheiro de mesa, Xico Sá, sobre o nome do espaço entre as partes de homens e mulheres.
“A especialidade de Machado é passar Alencar a limpo, mostrar como Alencar é bocó.” Roberto Schwarz em palestra de abertura sobre Machado de Assis, em 2008.
“Simon…Simon”: A antropóloga Lilia Schwarcz tenta alertar o historiador Simon Schama para um grilo que acaba de atravessar o palco durante sua palestra, em 2009.
“Not enough evidence, God, not enough evidence”. Richard Dawkins, em 2009, em resposta à pergunta do jornalista Sílio Boccanera sobre o que diria a Deus para justificar seu ateísmo caso o encontrasse após a morte.
“Na nossa era de devoração universal, a problemática não é ontológica, é odontológica”. Antonio Candido cita Oswald de Andrade na abertura da Flip 2011.
“Sinto, mas estou prestes a completar 80 anos e o Brasil está, infelizmente, fora de questão”. Do crítico George Steiner, em fax enviado à curadoria em que justificava sua recusa para participar da Flip de 2009.
* Flávio Moura é jornalista, foi curador da Flip em 2008, 2009, 2010 e é também curador, em 2012, dos projetos especiais dos 10 anos da Flip.
* José Luis Peixoto
Durante vários anos, foi-me dito que os meus livros eram demasiado tristes para os leitores brasileiros. Assim, em 2005, quando o meu primeiro romance foi publicado no Brasil, já tinha romances traduzidos em cerca de dez línguas. Houve tempo suficiente para convencer editores desses países e para traduzir romances inteiros em línguas como o croata, o turco ou o finlandês, antes de convencer qualquer editor brasileiro a publicar um livro meu. Nenhum ressentimento, apenas constatação.
A primeira vez que estive no Brasil com um livro publicado foi em Paraty, na terceira edição da Flip, em 2005. Eu não estava preparado para o que aconteceu. Numa conversa às 10 da manhã de quinta-feira, sem autores-estrela, quando ainda não tinham chegado à cidade a maioria dos visitantes de São Paulo e do Rio Janeiro, li três excertos do meu romance Nenhum Olhar e disse algumas palavras que me pareciam evidentes sobre o fim do romance, enquanto género literário. Ainda sou capaz de ouvir a reacção do público, ficou gravada em mim, dentro do meu peito, por onde entrou e de onde não voltou a sair. Desde então, recorro a ela quando preciso de força. Nesse dia, não almocei, fiquei a dar autógrafos durante quatro horas na tenda dos autores. Saí quando precisaram do espaço mas, ao longo desses dias na Flip, as pessoas pediam-me autógrafos na rua, ouvia-as referirem-se a mim como “aquele português” e, quando chegava à pousada, tinha uma pilha de livros na recepção à espera para serem autografados. Nesse ano, sem conhecer ou suspeitar da sua importância, conversei com Orhan Pamuk, Anthony Bourdain, entre outros. O meu romance foi o terceiro mais vendido na Flip, atrás do livro de MVBill e do romance de Salman Rushdie que tinha sido lançado mundialmente nessa ocasião, à frente do livro de Jô Soares e de todos os outros. Não se soube desse êxito em Portugal. Esse era o tempo em que a imprensa portuguesa não enviava jornalistas para a Flip.
Se esta descrição faz parecer que aquilo que aconteceu me impressionou é porque, de facto, me impressionou bastante. Visto da minha perspectiva, foi uma experiência inesquecível. Daí, nasceram convites por parte de festivais literários e, também, da imprensa brasileira. Teria sido muito oportuno se, no ano seguinte, tivesse sido publicado um novo livro (em Portugal, tinha já três romances, dois livros de poesia e dois livros de prosa), mas deixei de ter quaisquer notícias do editor brasileiro. Recebia emails de leitores a perguntarem quando seriam publicados novos livros e não sabia o que responder.
Voltei à Flip em 2008. Algumas pessoas ainda se lembravam de mim. Eu, imoderado desde sempre, fui convidado a moderar uma mesa. Não me saí muito bem, mas creio que o povo gostou. Além disso, como autor, participei na Off Flip. Esse ano foi muito mais tranquilo para mim e deu para desfrutar da festa. Deu para conversar com a multidão de amigos que sempre se junta em Paraty e deu para estar com Liz Calder, editora dos meus romances em Inglaterra e mulher única, com quem me habituei a coleccionar todos os instantes que tenho tido oportunidade de partilhar com ela nos dois lados do oceano.
Agora, em 2012, regresso à Flip pela terceira vez para fazer algo que nunca fiz e que nunca imaginei fazer. Há poucos meses, foi publicado o meu quarto romance no Brasil, chama-se Livro; mas não será esse romance o centro daquilo que farei na Flip. Na sexta-feira, 6 de julho, à noite, na Casa da Cultura, irei ler integralmente o meu primeiro livro, chama-se Morreste-me. Ainda inédito no Brasil, trata-se de um texto que, durante anos, não consegui ler em voz alta. Escrevi essas cerca de quarenta páginas, logo depois de ter perdido o meu pai, com vinte e um anos. Não gosto de quando dizem que é um livro sobre a morte. Gosto de quando dizem que é um livro sobre o amor, o amor absoluto.
Enquanto o escrevia, não tinha noção de que estava a escrever um livro. O texto não tinha as características que estava habituado a encontrar nos livros que lia. Foi apenas quatro anos mais tarde que percebi que nunca mais, em toda a minha vida, conseguiria escrever um texto como aquele. Ao mesmo tempo, percebi que não haveria outro que fosse mais significativo para começar a publicar porque, naquelas palavras, estava o retrato da minha passagem à idade adulta. Fiz uma edição de autor desse livro, a primeira, em maio de 2000. Desde então, em Portugal, esse livro já teve mais de 15 edições e chegou a muitas dezenas de milhares de leitores. Naquilo que escrevi, existe um antes e um depois desse livro. Tudo o que escrevi depois, tem as suas raízes nas páginas condensadas desse pequeno livro, como sangue. Peço desculpa se o dramatismo desta comparação incomoda mas, efectivamente, trata-se de um livro como sangue.
Hoje, quinze anos depois de o ter escrito, releio Morreste-me e não me arrependo de uma vírgula ou de um adjectivo. Para mim, é um livro-milagre. Sinto uma felicidade profunda por tê-lo escrito porque, hoje, creio que não seria capaz de o escrever. Mudei, ganhei pudores, desaprendi algumas lições importantes. Hoje, sou apenas capaz de lê-lo. E é isso que irei fazer em Paraty, na Casa da Cultura, para todos aqueles que me quiserem acompanhar nessa hora que, para mim, tenho a certeza, será inesquecível.
Nunca nos arrependeremos de dar aquilo que temos de mais precioso àqueles que nos são mais preciosos. É por isso que irei ler Morreste-me na Flip.
Clique aqui para ler um trecho de Morreste-me. Ou aqui para ler um trecho de Livro.
* José Luis Peixoto veio à Flip em 2005 e volta a Paraty este ano para fazer na Casa da Cultura a primeira leitura pública integral de seu livro de estreia, Morreste-me.