Arquivo da categoria ‘Palavra do curador’

Diretamente do LitCologne

22-03-2012

Por Miguel Conde, Curador Flip 2012

Rainer Osnowski conta em casas decimais o sucesso de sua ideia. Esse jornalista alemão, que aprendeu português em longas incursões como repórter pela Região Amazônica, é desde 2001 um dos diretores do maior festival literário da Alemanha. Com 10 dias de duração e mais de 170 eventos espalhados pela cidade, o LitCologne, chegou este ano à sua 12 edição reunindo em Colônia um público estimado em 80 mil pessoas e nomes como Javier Marías, Martin Amis e o ganhador do Nobel Tomas Tranströmer na lista de convidados.

Osnowski criou o festival no começo da década passada com os amigos Edmund Labonté e Werner Köhler. Queriam, ele diz, dar à literatura uma escala que o público alemão estava mais acostumado a associar a outras artes. ” Temos uma grande tradição de leituras e debates com escritores, mas o formato usual é de encontros para 30 ou 40 pessoas. Mostramos que um encontro literário pode ter o público de um show de rock.”

O festival ocupa de auditórios com 300 lugares a uma casa de shows com 4.500. No sábado, dia 17, Jeffrey Eugenides comentou seu livro The Marriage Plot num barco que subia e descia o rio Reno lotado de gente. Um debate numa edição anterior do festival entrou no Guinness, conta Osnowski, ao reunir 15 mil pessoas num estádio esportivo.

Além de autor e moderador, as mesas têm atores que se encarregam da leitura de trechos dos livros discutidos. Os mais famosos são escalados para as mesas dos escritores menos conhecidos, para chamar público. As melhores mesas de cada dia são transmitidas, em versão resumida, nas estações de rádio regionais. Apesar da comparação entre debates e espetáculos, há mesas em que metade ou mais do tempo é dedicado apenas à leitura. E, numa pequena amostra de três debates, a condução das conversas se encaminhou mais para o reflexivo do que para o anedótico.

Numa cidade que antes da crise chegou a destinar 7% do seu orçamento para investimentos em cultura (hoje a cifra está em 4%), o festival é desde o começo financiado pela venda de ingressos (entre 10 e 13 euros) e por patrocinadores privados. O preço da entrada cai para 2 euros nos debates para crianças e adolescentes, que com 70 eventos ocupam quase metade da programação total. Toda a atenção recebida pelo festival tem valor na medida em que estimula a leitura e afirma a literatura como algo importante, diz Osnowski.

*Miguel Conde viajou a convite da Secretaria de Cultura do estado da Renânia da Norte-Vestifália.

O planejamento do imponderável

28-02-2012

por Miguel Conde, curador da Flip 2012

Como parte das comemorações pela décima edição da Flip, que será realizada de 4 a 8 de julho, este blog começa a publicar nas próximas semanas uma série de depoimentos de figuras importantes na história da festa. Escritores, editores e jornalistas que acompanham a Flip desde o começo vão recordar cenas e acontecimentos que exprimem de modos variados algo do espírito dos encontros realizados desde 2003 em Paraty – dos grandes momentos registrados no palco da Tenda dos Autores aos pequenos episódios testemunhados nos bastidores ou pelas ruas da cidade. Menos uma celebração da festa, propriamente, do que das histórias que são sua razão de ser.

Sem obrigação de fazer apanhados panorâmicos ou avaliações críticas,  esse tipo de rememoração parcial lança sobre os acontecimentos um olhar mais livre, e por isso muitas vezes mais sensível àquilo que houve neles de curioso, inesperado ou comovente. Capta melhor, em resumo, aquele tipo de evento imponderável que não pode ser planejado de antemão, mas cuja ocorrência imprevista é o que acaba dando sentido à festa (e assim faz com que o planejamento tenha valido a pena). 

Nada a ver com apresentações ensaiadas a la show de talentos. O interesse da festa está menos nas grandes performances cronometradas do que nos gestos espontâneos que ela pode provocar, e que são iluminadores à sua maneira inesperada. Como as crianças de Paraty correndo atrás de Eric Hobsbawm em 2003, o lastro sentimental muito particular na voz de Domingos de Oliveira em 2009 ou a entrevista coletiva concedida por Antonio Candido no pátio de sua pousada ano passado – uma conversa rápida de menos de uma hora, mas reveladora assim mesmo daqueles traços de personalidade que fizeram dele o formador da mais importante linhagem de críticos literários do país (o momento mais memorável das cinco Flips a que assisti como jornalista).

A expectativa de quem monta a programação de um festival como a Flip é, até certo ponto, criar condições que tornem possível o acontecimento desse imponderável. Nesse sentido, é uma tarefa absurda, que deixa o mais importante por conta do acaso. O que não quer dizer, espero, que seja uma tarefa inútil. Para resumir numa frase, ela envolve fazer com que as combinações de temas e autores sejam pertinentes, para que a partir delas possa acontecer algo de memorável. Esse “possa” é ao mesmo tempo a angústia e a graça do trabalho, pois felizmente não existe uma fórmula certa para produzir aqueles acontecimentos que, terminada a festa, permanecem na cabeça de quem estava por lá.

 


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