O dia em que fui Saramago

Por Zuenir Ventura

Para quem, como eu, já tinha participado de algumas feiras internacionais de livros, a 1ª Flip foi surpreendente e ficou resumida num artigo que escrevi no Globo e que começava assim: “Que Feira de Frankfurt que nada. Nem a de Barcelona, nem Salão do Livro de Paris, Bienal de São Paulo ou Bienal do Rio. Nada, nenhum desses eventos se compara à 1ª Festa Literária Internacional de Paraty (…), reunindo umas duas dúzias de escritores daqui e de fora”. Em seguida, eu descrevia o ambiente da linda cidade que, sem carros no centro para atrapalhar, permitia que as pessoas se encontrassem a toda hora, “num caloroso espetáculo de congraçamento entre autores e leitores, um simpático corpo a corpo entre os que escrevem e os que lêem”.

A estrela do ano foi o historiador inglês Eric Hobsbawn, cuja concorridíssima palestra foi emocionante. Ouvir de perto aquele senhor de 86 anos falar sobre o século recém-terminado, do qual sabia tudo, foi um privilégio que fez a platéia aplaudi-lo de pé. O assédio foi de pop-star. Na noite da palestra, assisti a uma cena que me deixou encantado e a ele, perplexo. Depois da sessão de autógrafos, que precisou de hora marcada para terminar, Hobsbawn caminhava a caminho do hotel, quando percebeu que atrás vinha um séquito de crianças e adolescentes numa alegre procissão. Naquele instante olhei bem o seu rosto e posso garantir que ele achou que era Chico Buarque.

Nas ruas, o que mais se via eram jovens e até velhos com caderninho na mão, celulares e câmeras a tiracolo cercando escritores para pedir autógrafo ou uma foto, em geral as duas coisas. Cada fã saiu de Paraty com uma coleção de lembranças de seu autor preferido. Comigo aconteceu talvez o episódio mais engraçado da 1ª Flip.

Cheguei de manhã e, mal desembarcara da van que me levara do Rio, fui cercado por um grupo de moças ávidas por um autógrafo ou foto. Uma dizia: “tenho todos os seus livros”. A outra interrompia para me declarar sua admiração”. Chegavam a se empurrar para ficarem mais próximas de mim. Eu nem conseguia falar. Com o sucesso me subindo à cabeça não podia deixar de me dizer: “E ainda nem cheguei!”. Realmente uma consagração, até que uma delas gritou para a colega que passava do outro lado: “Fulana, vem cá, vem ver o Saramago!”.

Zuenir Ventura (à esq.), confundido com José Saramago durante a 2² Flip

Com a crista baixa, fui para o almoço e encontrei o Dráuzio Varella numa roda, onde contei o que me sucedera pela manhã. Em meio aos risos, o famoso médico confessou: “mas sabe que você é parecidíssimo com meu pai?”. Inconformado, pois me achava coetâneo do filho, pedi que quando fizesse a comparação, acrescentasse que a semelhança era com seu pai, mas quando jovem.

Mais tarde, ao participar da mesa sobre crônica com Adriana Falcão e Joaquim Ferreira dos Santos, me apresentei advertindo: “Estão me confundindo com José Saramago. Quero esclarecer que não sou o Saramago. Sou o pai do Dráuzio Varella. Quando jovem”. Acho que a 1ª Flip não teve mico maior.

* Zuenir Ventura é jornalista e escritor; publicou, entre outros, 1968: O Ano que Não Terminou. Em 1995, ganhou o prêmio Jabuti – categoria reportagem com  Cidade Partida

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2 Respostas to “O dia em que fui Saramago”

  1. Giovana Damaceno Says:

    Penso que uma das maiores delcias da Flip mesmo esta oportunidade de passear pelas ruas do Centro Histrico e esbarrar casualmente com nossos dolos.
    Minha primeira Flip foi em 2006, como jornalista fazendo cobertura.
    Depois voltei em 2007, como participante da Oficina Literria de Crnica.
    Passei apenas o sbado da Flip de 2008 e em 2010 e 2011 fui convidada a palestrar na Casa do Clube de Autores.
    Embora more perto e seja para mim relativamente fcil estar em Paraty, sempre novidade participar da Flip.
    Abrao a todos.
    ‘Nos vemos’ em julho.

  2. raviercosta@gmail.com Says:

    Quero ter a oportunidade de poder passar por esse tipo de sensao, maravilhosa, de estar envolto cultura, ver os escritores, assistir as palestras, respirar o ar dessa bela cidade e compartilhar conhecimento e vivncias com as pessoas.

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