O planejamento do imponderável

por Miguel Conde, curador da Flip 2012

Como parte das comemorações pela décima edição da Flip, que será realizada de 4 a 8 de julho, este blog começa a publicar nas próximas semanas uma série de depoimentos de figuras importantes na história da festa. Escritores, editores e jornalistas que acompanham a Flip desde o começo vão recordar cenas e acontecimentos que exprimem de modos variados algo do espírito dos encontros realizados desde 2003 em Paraty – dos grandes momentos registrados no palco da Tenda dos Autores aos pequenos episódios testemunhados nos bastidores ou pelas ruas da cidade. Menos uma celebração da festa, propriamente, do que das histórias que são sua razão de ser.

Sem obrigação de fazer apanhados panorâmicos ou avaliações críticas,  esse tipo de rememoração parcial lança sobre os acontecimentos um olhar mais livre, e por isso muitas vezes mais sensível àquilo que houve neles de curioso, inesperado ou comovente. Capta melhor, em resumo, aquele tipo de evento imponderável que não pode ser planejado de antemão, mas cuja ocorrência imprevista é o que acaba dando sentido à festa (e assim faz com que o planejamento tenha valido a pena). 

Nada a ver com apresentações ensaiadas a la show de talentos. O interesse da festa está menos nas grandes performances cronometradas do que nos gestos espontâneos que ela pode provocar, e que são iluminadores à sua maneira inesperada. Como as crianças de Paraty correndo atrás de Eric Hobsbawm em 2003, o lastro sentimental muito particular na voz de Domingos de Oliveira em 2009 ou a entrevista coletiva concedida por Antonio Candido no pátio de sua pousada ano passado – uma conversa rápida de menos de uma hora, mas reveladora assim mesmo daqueles traços de personalidade que fizeram dele o formador da mais importante linhagem de críticos literários do país (o momento mais memorável das cinco Flips a que assisti como jornalista).

A expectativa de quem monta a programação de um festival como a Flip é, até certo ponto, criar condições que tornem possível o acontecimento desse imponderável. Nesse sentido, é uma tarefa absurda, que deixa o mais importante por conta do acaso. O que não quer dizer, espero, que seja uma tarefa inútil. Para resumir numa frase, ela envolve fazer com que as combinações de temas e autores sejam pertinentes, para que a partir delas possa acontecer algo de memorável. Esse “possa” é ao mesmo tempo a angústia e a graça do trabalho, pois felizmente não existe uma fórmula certa para produzir aqueles acontecimentos que, terminada a festa, permanecem na cabeça de quem estava por lá.

 

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