O mediador: dores e delícias

Por Cristiane Costa

Dizem que todo torcedor é um técnico de futebol em potencial. Já na Flip, todo o público, seja na tenda principal ou no telão, é um crítico de debate.  Se a mesa é boa, os elogios vão para os convidados, no mínimo brilhantes. Natural. Mas se alguma coisa dá errado o culpado número um é sempre o mediador. Basta ficar parado ali no café, na saída de alguma mesa. Conhecidos (ou mesmo desconhecidos, dependendo da revolta), se esbarram e logo começam as críticas.

Fugiu do tema, se prendeu demais ao tema; foi apagado, quis aparecer mais do que os convidados; foi acadêmico, foi superficial … a lista de defeitos de um mediador pode ser ilimitada. Assim como o repertório de perguntas que ele deveria ter feito e não fez, pelo menos uma para cada sujeito na plateia. Falar é fácil. Mas vai encarar aquele palco e vê se não dá um friozinho na barriga?

O que poucos destes críticos sabem é como são escolhidos os mediadores da Flip. O curador da programação (este outro eterno culpado) indica não só os integrantes de uma mesa como também o mediador. Para isso, ele leva em conta fatores como desenvoltura e performance, assim como conhecimento prévio sobre um assunto ou autor. Intelectuais e especialistas com viés mais acadêmico levam vantagem no segundo item. Mas têm a desvantagem de estarem mais acostumados a discorrer sobre um tema do que entrevistar alguém. Jornalistas certamente têm mais prática neste ponto. Mas fazer perguntas sem ninguém olhando, que depois podem ser editadas (apagando todas as hesitações e perguntas bobas),é bem diferente de entrevistar em público.

Fã ou profissional. Este é outro dilema na hora de escolher um mediador. Se ele for um fã daqueles que conhecem toda vida, obra e podres do entrevistado, a conversa pode ficar tão esotérica que só seria compreendida por outros especialistas. E a Flip é tudo menos um congresso acadêmico. Alguns mediadores são pau para toda obra, como o onipresente Angel Gurría. Flip após Flip ele está lá, dividindo o palco com os autores mais diferentes, com a segurança de quem segura qualquer parada. Outros, como o também onipresente Humberto Werneck, são tão talentosos que variam. Uma hora estão no papel de mediador e na outra, de autor.

Assim como os autores, o mediador não ganha cachê para participar da Flip, mas existem algumas mordomias, como transporte até Paraty, refeições e pousada gratuitos, convites para as palestras e as festas.

Tudo isso oferece a oportunidade de uma convivência mais próxima com os autores, que eventualmente se tornam grandes amigos. Cerca de uma hora antes de cada mesa, mediadores e autores são levados a uma pequena sala, com sanduíches, frutas, sucos e até uma cachacinha para os mais tímidos se soltarem. A ideia é se conhecerem mais profundamente, trocarem ideias, dúvidas, ganharem uma intimidade que se refletirá no palco.

Aí chega a Hora H. O mediador sai do biombo e dá de cara com centenas de pessoas, um ângulo bem diferente de quem está confortavelmente sentado na plateia. Pior é ver as primeiras filas ocupadas pelos convidados da própria Flip: editores, escritores, críticos literários, intelectuais renomados, jornalistas culturais. Todo mundo de olho nele. Sem falar naqueles que estão lá fora, no telão, ou nas telas do computador, acompanhando tudo por streaming. Melhor nem pensar, se não trava.

Quase sempre o mediador leva uma cola, com o texto ou informações para a apresentação da mesa, além de uma lista enorme de perguntas. Ler ou improvisar? Este é sempre um dilema. Morro de inveja daqueles que, como Arthur Dapieve, têm uma memória prodigiosa e decoram os dois, três parágrafos em que apresentam a vida e obra do(s) autor(es). Para mim, a chance de dar branco na hora é de 100%. Então, por mais que eu tenha lido e relido meu texto, não abro mão da folhinha rabiscada. Nem da caneta para ir riscando as perguntas já feitas. No mais, é torcer para que role química entre os convidados, que todos estejam de bom humor, que falem bastante (mas não demais para não ficarem maçantes) e que as perguntas não acabem antes do fim. Quando dá tudo certo, o mediador se sente como um maestro, que deu um andamento perfeito à coisa. Quando dá errado, melhor nem olhar o Twitter, para não se aborrecer.

Os 10 mandamentos do mediador

1 – A estrela é o entrevistado, não entrevistador.

2 – É preciso fazer o dever de casa. Leia os livros dos autores. Leia o que já foi dito sobre eles. Cheque e recheque os dados, para não dar informações erradas.

3 – Seja breve. Boas perguntas são simples e curtas.

4 – Pergunte e não afirme. Boas perguntas são questionamentos e não perorações, discursos, achismos. Elas devem terminar com um ponto de interrogação de verdade. E não com um vago “o que o senhor acha disso” ou, pior ainda, com um imperativo “comente”.

5 – Preste atenção nas respostas para encaixar perguntas pertinentes. Improvise. Não se atenha burocraticamente às questões previamente levantadas.

6 – Provoque. O mediador deve evitar a síndrome do bom moço. Se o entrevistado é polêmico, não tem a menor graça transformá-lo em um sujeito politicamente correto. O público gosta de sangue. Mas tudo com jeitinho e empatia, para não levar um fora na frente de todo mundo.

7 – Não deixe sua opinião transparecer. O mediador não é um crítico. Ele não deve fazer juízo de valores ou demonstrar suas preferências pessoais durante a mesa.

8 – Preste atenção no timing. Cabe ao mediador organizar o tempo de forma que todos os integrantes da mesa tenham espaço para falar, do mais tímido ao maior show man. É importante também dar o mínimo de coesão à mesa, buscar o que os convidados têm em comum.

9 – Não se leve muito a sério. Perfeccionismo é meio caminho andado para o nervosismo.Ter cara-de-pau é fundamental para um mediador. Ele deve parecer à vontade, improvisar, brincar. É melhor falhar de vez em quando do que se fingir de robô ou dar pinta de que está em pânico.

10 – Todo cuidado com os loucos de palestra. Nada aborrece mais a plateia e os palestrantes do que aquela mala que pega o microfone para fazer uma pergunta e faz um discurso. É para evitá-los que muitos organizadores, como os da Flip, optam por só aceitar perguntas por escrito, que serão selecionadas e lidas pelo mediador nos minutos finais da mesa.

* Cristane Costa é jornalista e mediou debates históricos em diversas ediçoes da Flip
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