Noturno para Tabucchi

Por Manuel da Costa Pinto *

A notícia da morte de Antonio Tabucchi, dolorosa para todos aqueles que admiravam o grande escritor italiano, mostra como, nas duas vezes em que desistiu de vir à Flip (após confirmar participação nas edições de 2010 e 2011), o autor de Noturno Indiano foi premido por uma situação pessoal dramática. Em 2010, Tabucchi teve de cancelar sua participação por motivo de saúde – mas imaginávamos que era algo passageiro e que poderíamos contar com ele em 2011, quando poderia falar de sua extensa e admirável obra. A habitual discrição de Tabucchi, porém, guardava algo mais grave, como descobrimos agora, com pesar.

Procurei reiterar o convite a Tabucchi tão logo assumi a curadoria da Flip de 2011. Nas trocas de mensagens mantidas com ele, com sua mulher – a professora e ensaísta Maria José de Lancastre – e com Cassiano Elek Machado – editor de Tabucchi na Cosac Naify –, notamos de saída alguma hesitação, que atribuímos à agenda atribulada do escritor ou até mesmo ao receio de que tivesse de novo problema na coluna, conforme ocorrera na Flip de 2010, com curadoria de Flávio Moura.

Finalmente Tabucchi se decidiu a vir, deu mostras de grande entusiasmo, não apenas por reencontrar o amigo Ignácio de Loyola Brandão (com quem certamente faria uma das mesas mais empolgantes da Flip 2011), mas também porque Maria José de Lancastre participaria da programação na Casa da Cultura, em mesa sobre Fernando Pessoa (sobre o qual publicou uma excelente fotobiografia, obra de referência para leitores e estudiosos da obra do poeta português).

Em 13 de junho de 2011, porém, recebi dela mensagem dizendo que “a decisão do Tribunal Supremo do Brasil a favor de um terrorista italiano” colocava o marido em situação muito difícil, obrigando-o a refletir sobre sua vinda.

Lancastre se referia à decisão do governo de não extraditar Cesare Battisti – que era acusado na Itália por crimes comuns, mas que consenguiu convencer as autoridades brasileiras de que fora motivado por razões políticas (em seu país, em contrapartida, o envolvimento de Battisti com grupos de extremistas foi interpretado como cortina de fumaça para conseguir salvaguarda jurídica na condição de militante político).

Obviamente, o impasse diplomático atingia a todos, mas sobretudo um escritor italiano marcado pela militância intelectual e por não se furtar à intervenções públicas, que escrevia artigos severos contra o governo Silvio Berlusconi na imprensa francesa e via na magistratura italiana a única instituição que ainda resistia bravamente às manobras e escândalos do premiê.

A princípio, Cassiano e eu (com anuência da direção da Flip) garantimos a Tabucchi  que ele teria em Paraty um foro livre para manifestar sua revolta contra uma decisão que desqualificava a independência dos magistrados italianos. Numa série de e-mails trocados naqueles dias de junho, porém, Tabucchi nos enviou artigo publicado no jornal Le Monde sobre o “affaire Battisti” e comunicou sua decisão de não vir ao Brasil. Mais tarde, encaminhou um artigo inédito em que não apenas mencionava o episódio recente, mas também lembrava que o Brasil dá guarida a um agente da Operação Condor responsável pela morte de italianos residentes na América Latina durante a ditadura argentina. Ao final do artigo, Tabucchi dizia que desistira de vir à Flip não “em protesto” (conforme estava sendo divulgado), mas para não transformar “a controvérsia jurídica entre dois países em gossip de um evento literário”.

É difícil discordar de sua decisão, mas podemos divergir de sua avaliação da capacidade que a Flip tem de abranger assuntos nevrálgicos. O psicanalista e escritor italiano Contardo Calligaris substituiu Tabucchi na mesa com Loyola e fez questão de dizer que, se já não vivesse no Brasil, talvez adotasse a mesma atitude de Tabucchi – e expõs em minúcia os dilemas da intelectualidade italiana na últimas décadas e o papel honroso da magistratura. Loyola – cujo romance Zero foi publicado na Itália com tradução de Tabucchi, antes de ser lançado no Brasil (onde temia-se a represália da censura militar e dos órgãos de repressão a esse caleidoscópio narrativo, repleto de passagens sobre o submundo encoberto pela cultura oficial) – interveio lembrando a amizade costurada entre ambos pelo compromisso político e pela cumplicidade literária.

De certo modo, Tabucchi falou através de Calligaris e Loyola – e se hoje, diante dessa morte inesperada, podemos imaginar que a saúde estivesse entre os motivos do cancelamento de sua vinda à Flip, o próprio escritor parecia acreditar que se tratava de uma decisão estritamente ética, que não estava poupando –antes, sacrificando – seu corpo: “Renunciar fisicamente ao paraíso de Paraty, acredite, foi um sacrifício”, disse ele numa de suas últimas mensagens.

* Manuel é jornalista e foi curador da Flip em 2011

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2 Respostas to “Noturno para Tabucchi”

  1. Claudia Cavalcanti Says:

    Boa, Manuel!

  2. Fernando Oliveira Mendes Says:

    Depois de longos anos de ensaio, estive na Flip de 2011, meu grande desejo era ouvir Antonio Tabucchi e entregar-lhe uma cpia de meu artigo sobre o sonho de Freud/Dora, no seu “Sonhos de sonhos”. Fica aqui a realizao virtual: http://www.ufjf.br/revistaipotesi/files/2011/05/14-O-Sonho-antes-do-fim.pdf

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