Archive for abril \26\UTC 2012

A vivência solar da literatura

26-04-2012

por Manuel da Costa Pinto *

A Flip está para a literatura assim como os shows de MPB estão para a música: é seu lado mais luminoso, solar; carrega no próprio nome – “festa literária” – um jeito eufórico de falar de livros e de comemorar a presença dos autores nesse palco em que Paraty se transforma no meio de cada ano, há uma década.

E, justamente por ter esse rosto ensolarado, a Flip acaba deixando de lado as feições mais circunspectas dos escritores e de suas obras. Continuando no paralelo musical, há na literatura um lado roda de choro e um lado quarto de cordas; uma bossa tropicalista e uma bossa serialista; ora descontração e improviso, ora disciplina e rigor.

Bem se vê que esquematizo: afinal, há rigor (para não falar de excelência) tanto num samba de Paulinho da Viola quanto num soneto fescenino de Glauco Mattoso, e há extravios da imaginação num poema de Augusto de Campos ou numa composição de Stockhausen.

Se insisto no paralelo música-literatura para falar da Flip é porque, nas performances dos escritores em Paraty, há muito da presença cênica do cantor no palco. A Flip transformou escritores em artistas pop; assim como muitas vezes não conseguimos dissociar uma canção da voz que a entoa, a declamação de um poema ou trecho de romance, seguida dos comentários de seu autor, passa a fazer parte inalienável da criação literária para um público que lê ou relê um escritor com a lembrança dos encontros na Flip.

A própria concepção espacial e temporal da Flip lembra um pouco os festivais de música popular ou rock: passar cinco dias numa cidade em que se respira literatura em ruas, restaurantes e bares representa uma suspensão no tempo e um deslocamento no espaço tão intensos quanto o ato da leitura (com seus espaços imaginários e sua temporalidade particular), porém compartilhado por uma multidão. E, em minha opinião, essa sensação de estar de férias da realidade, vivendo empírica e coletivamente aquilo que a leitura proporciona de modo parcimonioso, é a grande responsável pelo sucesso dessa festa literária e de outras que a têm por modelo.

Essas breves – e possivelmente equivocadas – reflexões aconteceram depois de minha experiência como curador da Flip de 2011 e, de certa maneira, foram uma resposta às inquietações que tive quando aceitei o convite.

Nunca tive dúvida de que a experiência estética e o conhecimento pela imaginação oferecidos pela literatura acontecem no corpo a corpo com o texto. E como nenhuma obra flutua no vazio, mas se enraíza num contexto histórico e numa tradição literária, a leitura requer informações extratextuais que começam na sala de aula, se desdobram nos livros de crítica literária, nos ensaios publicados em periódicos e nos debates dentro e fora da universidade.

Nada disso acontece na Flip, cujo foco é o autor, sua história, suas idiossincrasias. Assim como o público de música popular está menos em interessado na afinação da voz ou dos instrumentos do que nos elementos catárticos do show, o público do Flip tem pouca paciência para exames minuciosos de um estilo ou para discussões sobre a crise da representação. Tanto isso é verdade que o maior escritor contemporâneo, J. M. Coetzee, decepcionou a plateia por ter se limitado a ler um texto, por ter recusado a performance.

Nesse sentido, a experiência da literatura proporcionada pela Flip certamente não é a melhor forma de conhecer o texto literário, mas seguramente é a melhor maneira de vivenciar a imaginação literária. Pois se obra não se separa de seu tempo e das obras que a precederam, tampouco o autor se separa de sua carne. O público da Flip está tão ansioso por identificar as obsessões e trejeitos que se projetam do corpo e da voz do autor para sua criação quanto o exegeta que busca com lupa os lapsos de um manuscrito, as citações ocultas nas entrelinhas e nos subentendidos de um texto.

Com sua atmosfera de cumplicidade, em que os escritores compartilham fantasmas e manias, a Flip representa esse momento ímpar, em que temos a ilusão de que a literatura pode nos reconciliar com o mundo – mesmo que tenha nascido da irreconciliação e do desacordo. Pena que a festa termina.

* Manuel é jornalista e foi curador da FLIP em 2011

 

1,2,3 produçāo – conheça Roberta Val

23-04-2012

Roberta Val trabalha na Flip desde 2004 como assessora de imprensa. No começo corria para cima e para baixo atrás dos jornalistas para marcar entrevistas e conseguir matérias para deixar o evento no litoral fluminense cada vez mais conhecido. Mas em 2009, ela migrou. Já conhecia todas as ruas de Paraty, já sabia dos detalhes da festa e já tinha vivenciado muitas histórias naquela cidade colonial.

Roberta passou a ser produtora, entrou para a Casa Azul, instituiçāo que faz a Flip acontecer, e começou a dar duro para levantar literalmente as tendas e participar de todas as reuniōes de montagem do evento. Muitas vezes, os jornalistas ainda se confundem e pedem alguma informaçāo para Roberta mas definitivamente ela mudou de área e é feliz fazendo inúmeras reuniōes com os responsáveis por executar as tendas e verificar se cada parafuso está apertado corretamente. O ar-condicionado não liga? O som está baixo? A pousada prevista para hospedar a equipe fica longe demais? Chama a Rô. Em meio a toda discussão literária, ela é a especialista na vida prática e funcional da Flip.

O corre corre é intenso e “O último dia é como noite de ano novo, no dia seguinte todo mundo começa a falar como se a semana passada, fosse o ano passado. Intenso. Acredito que  esta palavra é que dá um caldo poético e isso é o gostoso de trabalhar na Flip”.

A grande estrela da Flip

18-04-2012

por Patricia Melo *

“É isso que eu quero fazer”, disse Liz Calder, quando chegamos. Era o ano de 97 e estávamos em Hye-on-Wye, a cidade galesa onde Peter Florence montou seu lendário festival literário.  Chico Buarque, Rubem Fonseca e eu estávamos lá para promover a edição inglesa dos nossos livros. Mas nossa editora Liz Calder  já tinha “segundas intenções”. Sua paixão pelo Brasil havia começado muitos anos antes, na década de 60, quando trabalhou no país como modelo e jornalista. Desde então, ao lado de  Juju, seu papagaio amazonense, o Brasil já fazia parte de seus sonhos.

“Você não acha que Paraty é um cenário perfeito para um evento como este?” Louis Baum, seu marido e escritor de livros infantis, Luiz Schwarcz –  na época meu editor brasileiro e também de Rubem Fonseca –  e o arquiteto Mauro Munhoz, que  nos acompanhavam na viagem, imediatamente embarcaram na ideia: imaginavam tendas montadas embaixo de um céu azul, ambientes acolhedores, que pudessem estabelecer um clima de intimidade entre autor e leitores. Falava-se em clima de festa. Debates. Cultura e natureza. Passeios de barco. Tudo parecia um sonho, mágico.  E impossível de acontecer. Mas Liz é inglesa para o Brasil ver. Nos anos seguintes, ela estava sempre no Rio de Janeiro, São Paulo e Paraty,  com seu projeto embaixo do braço. Pioneira, visionária e empreendedora, dona de um magnetismo cultural admirável, Liz  – ao lado de Louis Baum,  Mauro Munhoz, Belita Cermelli, Luiz Schwarcz e de tantos outros colaboradores e amigos – finalmente conseguiu  erguer sua Festa Literária em Paraty, a Flip.

Seu engajamento ético e cultural na vida da cidade, por intermédio da Flip – mudou definitivamente o destino de Paraty. E a Flip mudou para sempre a vida literária do Brasil. No Brasil e aqui fora. Figura mítica no mercado editoral inglês e responsável pelo lançamento de escritores como Julian Barnes e Salman Rushdie, Liz é uma editora que “extrapola” totalmente suas funções e acaba se tornando amiga fiel e querida de seus autores.  Com seus escritores brasileiros, foi mais longe ainda: aprendeu nossa língua, se embrenhou na nossa cultura e divulgou nossa literatura como nenhum outro editor estrangeiro jamais foi capaz.  Se hoje nós somos traduzidos e reconhecidos no exterior, devemos muito à paixão e espírito empreendedor de Liz Calder. O que pouca gente sabe é que muito antes da Flip, Liz já havia fundado um clube literário no Brasil.

Foi em 1997, quando a Flip ainda  era sonho, e viajávamos em caravana para Hye on Wye. Liz  se divertia com a nossa pronuncia tupiniquim: “vocês falam tie-red”, ela dizia (como bons Macunaímas, Rubem, Chico e eu estávamos sempre cansados).   Assim ela fundou o “Tie Red” clube. Ganhamos uma gravata vermelha  e carteira de afiliação com a foto do Machado de Assis devidamente trajado de  “tie-red”. Mas quem pensa que nosso clube é só uma brincadeira de amigos está muito enganado. Ainda hoje,  quando Liz vai ao Brasil, Rubem, Chico e eu tiramos nossa  gravata vermelha do armário e vamos (tenho certeza que em nome de muitos autores e editores)  ao nosso jantar anual em homenagem a uma das figuras mais dinâmicas da vida literária brasileira.

* Patricia Melo é escritora e participou da primeira Flip. É autora de livros como O Matador, Inferno, Valsa Negra entre outros. 

Flip procura estagiário

13-04-2012

A Flip precisa de um estagiário de comunicação para trabalhar de maio a julho em São Paulo e de 4 a 8 de julho em Paraty

Requisitos: cursando a partir do segundo ano jornalismo, editoração, relações públicas, publicidade, multimeios

Imprescindível:

  • ·         Ser agilizado e entender de internet (Gestão de sites e redes sociais. Conhecimentos em edição de vídeo, design ou programação web serão valorizados)
  • ·         Ter pique de produtor (conseguir fazer muitas tarefas ao mesmo tempo sem perder o rebolado) e gosto pela área cultural

Carga horária: 6 horas diárias no período da tarde.   Remuneração: R$ 8/hora + vale transporte.

mande seu CV para flip@flip.org.br

 

A Flip é também dos pequenos!

13-04-2012

Gabriela Gibrail é coordenadora do Núcleo de Educação e Cultura junto com a Cristina Maseda na Flip. Ou seja, ela cuida na prática de tudo o que envolve a Flipinha, a FlipZona e os diversos projetos educativos que a Casa Azul realiza em Paraty durante o ano (o projeto Mar de Leitores, vale a pena conhecê-lo aqui: http://www.mardeleitores.blog.br).

Nascida em Sao Paulo, formou-se em Letras e mudou-se para Paraty pouco depois de fazer 30 anos, em 1999. O trabalho na Flip começou em 2003, em reuniões para falar de uma festa literária que, naquele momento, começava a nascer.   “Tive a certeza de que a mudança de cidade tinha sido a melhor coisa que eu tinha feito para a minha vida”.

Hoje, dez anos depois, o desafio maior é conseguir tornar e deixar cada vez mais visível ao público o trabalho com as crianças e os jovens de Paraty e de outras cidades, que enfeitam e dão o ar da graça para a Flip com seus bonecos de papel marchê e tantos outros enfeites e atividades que são desenvolvidas.

 

Um grande título

11-04-2012

por Marçal Aquino

Quando fui convidado a participar da primeira edição da Flip, em 2003, decidi ler para o público um capítulo do romance Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, que eu vinha escrevendo desde o inverno do ano anterior. Como sempre acontece comigo, eu ainda não sabia tudo sobre a trama e os personagens, mas tinha uma certeza: estava lidando com um título provisório, o chamado “título de trabalho”, e teria de pensar num outro nome para o livro depois que finalizasse sua escrita. É que a maioria das pessoas torcia o nariz quando eu mencionava meu quilométrico título, e aquilo estava começando a me incomodar. Anticomercial e extravagante, opinavam; como é que o leitor vai se lembrar na hora da compra?, questionavam. (Não me escapa a ironia de que, mais tarde, muita gente me contou que o interesse pelo livro nasceu a partir do nome.)

Em Paraty, ao me apresentar, o jornalista Flávio Pinheiro marotamente espicaçou a curiosidade da plateia, dizendo que eu preferia manter em segredo o título do livro, do qual ele, em particular, havia gostado muito. Resultado: pressionado pelo público, tive de abrir o jogo e revelar aquele nome que, para um amigo, parecia “um verso de bolero”. Porém, em tom de ressalva, acrescentei ter plena consciência de que nenhum editor publicaria um romance com um título daqueles. O editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, que estava sentado na primeira fileira, ergueu o dedo e respondeu, de bate-pronto: “Eu publico”.

A partir daí, arrumei editora para o livro e tornou-se definitivo seu título, do qual sempre gostei muito, desde a noite em que me ocorreu, do nada, dois anos antes de começar a escrever a história.

Ah, houve ainda um último questionamento. Um pouco antes do lançamento do livro, recebi uma ligação de um escritor amigo, que muito admiro e respeito, e que, de forma generosa, tinha pedido para ler o manuscrito. Ele elogiou o texto, afirmou que era um grande romance, mas ressalvou que existia um problema – o título, em sua opinião longo e inadequado. Para ele, o romance só poderia se chamar “Lavínia”. Pedi desculpas ao meu querido amigo e mantive minha decisão, por acreditar que um título pode ser grande, só não pode ser maior que o livro.

Teju Cole na Flip!

09-04-2012

O americano Teju Cole, vencedor do Hemingway/PEN Award de melhor ficção por seu romance de estreia, Cidade Aberta, participará da 10ª edição da Flip.

Neste breve vídeo, ele fala um pouco de como começou a escrever. É uma boa introduçāo para quem nāo conhece este grande escritor. Vale a pena!

“A Flip mudou meu calendário”

05-04-2012

Por Ángel Gurría-Quintana*

“Voce fala português?“, perguntou a editora do meu jornal. Eu disse que falava um pouco. “ E já ouviu falar no Festival de Literatura do Brasil?” Na verdade eu tinha lido sobre o evento em uma crônica do Julian Barnes, um autor convidado para a primeira ediçåo da Festa. Aí foi o xeque-mate “Voce gostaria de escrever um artigo sobre isso?”

Semanas depois, eu cheguei em Paraty como repórter do jornal Britanico Financial Times. Eu tinha programado entrevistar a Liz Calder, presidente e fundadora do evento. Esperava escrever um artigo que nāo só explicasse o que era aquele evento único, mas também chamar atençāo dos leitores para a literatura brasileira e a grande vibraçåo da cultura deste país.

Eu nāo poderia imaginar que alguns dias depois eu estaria jogando futebol (muito mal) com o cantor Chico Buarque. (Isso foi em 2004, nāo muito depois da publicaçåo de Budapeste. Também nåo poderia imaginar que retornaria para todas as ediçōes da FLIP desde entåo e que se tornaria o ponto alto dos meus anos.

Nao é fácil explicar para qualquer um que nunca tenha ido para a Festa porque este evento nāo tem comparaçāo com qualquer outro existente até entāo. O efeito intoxicante da FLIP nāo é fácil de descrever – só a localizaçāo já é de tirar o folego, estar  em um cenário paradisíaco – a bahia, a Mata Atlântica e a vibrante cidade colonial.

Há outras coisas – fico sempre atonito, por exemplo, com a montagem da tenda dos autores: no lugar onde um dia tem só um espaço vazio, aparece, ao dia seguinte, um auditório, quase uma catedral, para pouco menos de mil pessoas. Fico sempre espantado pelos apetites omnívoros (“promíscuos”, como os definiu Christopher Hitchens) da platéia. A atençåo da mídia é implacável, as vezes até excessivamente, talvez pelo fato do evento nāo ter precedentes.”

E isso sem falar dos escritores, trazendo nas malas muitas palavras, ideias e provocaçōes. É o show deles, claro, mas ainda assim eu sou testemunha do espanto dos mesmos diante da recepçāo do público. Nāo por acaso, muitos ficam tāo tentados em voltar. Para um jornalista de literatura, conversar, mediar as conversas dos escritores convidados diante de um público tåo assíduo é um desafio, uma emoçåo e uma honra.

*Ángel Gurría-Quintana, jornalista de literatura em Cambridge, é um colaborador assíduo do jornal The Financial Times. Ele esteve em todas as ediçoes da Flip, desde 2004, e a partir de 2005 colabora como mediador das mesas principais.


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