Um grande título

por Marçal Aquino

Quando fui convidado a participar da primeira edição da Flip, em 2003, decidi ler para o público um capítulo do romance Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, que eu vinha escrevendo desde o inverno do ano anterior. Como sempre acontece comigo, eu ainda não sabia tudo sobre a trama e os personagens, mas tinha uma certeza: estava lidando com um título provisório, o chamado “título de trabalho”, e teria de pensar num outro nome para o livro depois que finalizasse sua escrita. É que a maioria das pessoas torcia o nariz quando eu mencionava meu quilométrico título, e aquilo estava começando a me incomodar. Anticomercial e extravagante, opinavam; como é que o leitor vai se lembrar na hora da compra?, questionavam. (Não me escapa a ironia de que, mais tarde, muita gente me contou que o interesse pelo livro nasceu a partir do nome.)

Em Paraty, ao me apresentar, o jornalista Flávio Pinheiro marotamente espicaçou a curiosidade da plateia, dizendo que eu preferia manter em segredo o título do livro, do qual ele, em particular, havia gostado muito. Resultado: pressionado pelo público, tive de abrir o jogo e revelar aquele nome que, para um amigo, parecia “um verso de bolero”. Porém, em tom de ressalva, acrescentei ter plena consciência de que nenhum editor publicaria um romance com um título daqueles. O editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, que estava sentado na primeira fileira, ergueu o dedo e respondeu, de bate-pronto: “Eu publico”.

A partir daí, arrumei editora para o livro e tornou-se definitivo seu título, do qual sempre gostei muito, desde a noite em que me ocorreu, do nada, dois anos antes de começar a escrever a história.

Ah, houve ainda um último questionamento. Um pouco antes do lançamento do livro, recebi uma ligação de um escritor amigo, que muito admiro e respeito, e que, de forma generosa, tinha pedido para ler o manuscrito. Ele elogiou o texto, afirmou que era um grande romance, mas ressalvou que existia um problema – o título, em sua opinião longo e inadequado. Para ele, o romance só poderia se chamar “Lavínia”. Pedi desculpas ao meu querido amigo e mantive minha decisão, por acreditar que um título pode ser grande, só não pode ser maior que o livro.

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Uma resposta to “Um grande título”

  1. Anônimo Says:

    Oi, Maral! Eu li seu livro muito por acaso! Estou com um desafio mega grande que entrar nas livrarias e bibliotecas e pegar o primeiro livro que me prender a ateno. (no vale s chamar, tem que prender). Eu receberia as piores notcias dos seus lindos lbios fisgou-me o olhar, mordeu-me as pupilas, engoliu-me a ateno. E eu o li. Li-o e agora me preparo para resenh-lo no meu site http://www.primeirasimpressoes.net . Aguarde para ver o que achei da histria.
    Grande abrao.

    Letcia Martins

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