A grande estrela da Flip

por Patricia Melo *

“É isso que eu quero fazer”, disse Liz Calder, quando chegamos. Era o ano de 97 e estávamos em Hye-on-Wye, a cidade galesa onde Peter Florence montou seu lendário festival literário.  Chico Buarque, Rubem Fonseca e eu estávamos lá para promover a edição inglesa dos nossos livros. Mas nossa editora Liz Calder  já tinha “segundas intenções”. Sua paixão pelo Brasil havia começado muitos anos antes, na década de 60, quando trabalhou no país como modelo e jornalista. Desde então, ao lado de  Juju, seu papagaio amazonense, o Brasil já fazia parte de seus sonhos.

“Você não acha que Paraty é um cenário perfeito para um evento como este?” Louis Baum, seu marido e escritor de livros infantis, Luiz Schwarcz –  na época meu editor brasileiro e também de Rubem Fonseca –  e o arquiteto Mauro Munhoz, que  nos acompanhavam na viagem, imediatamente embarcaram na ideia: imaginavam tendas montadas embaixo de um céu azul, ambientes acolhedores, que pudessem estabelecer um clima de intimidade entre autor e leitores. Falava-se em clima de festa. Debates. Cultura e natureza. Passeios de barco. Tudo parecia um sonho, mágico.  E impossível de acontecer. Mas Liz é inglesa para o Brasil ver. Nos anos seguintes, ela estava sempre no Rio de Janeiro, São Paulo e Paraty,  com seu projeto embaixo do braço. Pioneira, visionária e empreendedora, dona de um magnetismo cultural admirável, Liz  – ao lado de Louis Baum,  Mauro Munhoz, Belita Cermelli, Luiz Schwarcz e de tantos outros colaboradores e amigos – finalmente conseguiu  erguer sua Festa Literária em Paraty, a Flip.

Seu engajamento ético e cultural na vida da cidade, por intermédio da Flip – mudou definitivamente o destino de Paraty. E a Flip mudou para sempre a vida literária do Brasil. No Brasil e aqui fora. Figura mítica no mercado editoral inglês e responsável pelo lançamento de escritores como Julian Barnes e Salman Rushdie, Liz é uma editora que “extrapola” totalmente suas funções e acaba se tornando amiga fiel e querida de seus autores.  Com seus escritores brasileiros, foi mais longe ainda: aprendeu nossa língua, se embrenhou na nossa cultura e divulgou nossa literatura como nenhum outro editor estrangeiro jamais foi capaz.  Se hoje nós somos traduzidos e reconhecidos no exterior, devemos muito à paixão e espírito empreendedor de Liz Calder. O que pouca gente sabe é que muito antes da Flip, Liz já havia fundado um clube literário no Brasil.

Foi em 1997, quando a Flip ainda  era sonho, e viajávamos em caravana para Hye on Wye. Liz  se divertia com a nossa pronuncia tupiniquim: “vocês falam tie-red”, ela dizia (como bons Macunaímas, Rubem, Chico e eu estávamos sempre cansados).   Assim ela fundou o “Tie Red” clube. Ganhamos uma gravata vermelha  e carteira de afiliação com a foto do Machado de Assis devidamente trajado de  “tie-red”. Mas quem pensa que nosso clube é só uma brincadeira de amigos está muito enganado. Ainda hoje,  quando Liz vai ao Brasil, Rubem, Chico e eu tiramos nossa  gravata vermelha do armário e vamos (tenho certeza que em nome de muitos autores e editores)  ao nosso jantar anual em homenagem a uma das figuras mais dinâmicas da vida literária brasileira.

* Patricia Melo é escritora e participou da primeira Flip. É autora de livros como O Matador, Inferno, Valsa Negra entre outros. 

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