A vivência solar da literatura

por Manuel da Costa Pinto *

A Flip está para a literatura assim como os shows de MPB estão para a música: é seu lado mais luminoso, solar; carrega no próprio nome – “festa literária” – um jeito eufórico de falar de livros e de comemorar a presença dos autores nesse palco em que Paraty se transforma no meio de cada ano, há uma década.

E, justamente por ter esse rosto ensolarado, a Flip acaba deixando de lado as feições mais circunspectas dos escritores e de suas obras. Continuando no paralelo musical, há na literatura um lado roda de choro e um lado quarto de cordas; uma bossa tropicalista e uma bossa serialista; ora descontração e improviso, ora disciplina e rigor.

Bem se vê que esquematizo: afinal, há rigor (para não falar de excelência) tanto num samba de Paulinho da Viola quanto num soneto fescenino de Glauco Mattoso, e há extravios da imaginação num poema de Augusto de Campos ou numa composição de Stockhausen.

Se insisto no paralelo música-literatura para falar da Flip é porque, nas performances dos escritores em Paraty, há muito da presença cênica do cantor no palco. A Flip transformou escritores em artistas pop; assim como muitas vezes não conseguimos dissociar uma canção da voz que a entoa, a declamação de um poema ou trecho de romance, seguida dos comentários de seu autor, passa a fazer parte inalienável da criação literária para um público que lê ou relê um escritor com a lembrança dos encontros na Flip.

A própria concepção espacial e temporal da Flip lembra um pouco os festivais de música popular ou rock: passar cinco dias numa cidade em que se respira literatura em ruas, restaurantes e bares representa uma suspensão no tempo e um deslocamento no espaço tão intensos quanto o ato da leitura (com seus espaços imaginários e sua temporalidade particular), porém compartilhado por uma multidão. E, em minha opinião, essa sensação de estar de férias da realidade, vivendo empírica e coletivamente aquilo que a leitura proporciona de modo parcimonioso, é a grande responsável pelo sucesso dessa festa literária e de outras que a têm por modelo.

Essas breves – e possivelmente equivocadas – reflexões aconteceram depois de minha experiência como curador da Flip de 2011 e, de certa maneira, foram uma resposta às inquietações que tive quando aceitei o convite.

Nunca tive dúvida de que a experiência estética e o conhecimento pela imaginação oferecidos pela literatura acontecem no corpo a corpo com o texto. E como nenhuma obra flutua no vazio, mas se enraíza num contexto histórico e numa tradição literária, a leitura requer informações extratextuais que começam na sala de aula, se desdobram nos livros de crítica literária, nos ensaios publicados em periódicos e nos debates dentro e fora da universidade.

Nada disso acontece na Flip, cujo foco é o autor, sua história, suas idiossincrasias. Assim como o público de música popular está menos em interessado na afinação da voz ou dos instrumentos do que nos elementos catárticos do show, o público do Flip tem pouca paciência para exames minuciosos de um estilo ou para discussões sobre a crise da representação. Tanto isso é verdade que o maior escritor contemporâneo, J. M. Coetzee, decepcionou a plateia por ter se limitado a ler um texto, por ter recusado a performance.

Nesse sentido, a experiência da literatura proporcionada pela Flip certamente não é a melhor forma de conhecer o texto literário, mas seguramente é a melhor maneira de vivenciar a imaginação literária. Pois se obra não se separa de seu tempo e das obras que a precederam, tampouco o autor se separa de sua carne. O público da Flip está tão ansioso por identificar as obsessões e trejeitos que se projetam do corpo e da voz do autor para sua criação quanto o exegeta que busca com lupa os lapsos de um manuscrito, as citações ocultas nas entrelinhas e nos subentendidos de um texto.

Com sua atmosfera de cumplicidade, em que os escritores compartilham fantasmas e manias, a Flip representa esse momento ímpar, em que temos a ilusão de que a literatura pode nos reconciliar com o mundo – mesmo que tenha nascido da irreconciliação e do desacordo. Pena que a festa termina.

* Manuel é jornalista e foi curador da FLIP em 2011

 

Anúncios

2 Respostas to “A vivência solar da literatura”

  1. Adriana Pueblo Says:

    Nossa Manuel, adorei o post, principalmente quando fala a frase “essa sensao de estar de frias da realidade” como me sinto quando fao parte e consigo ir, me remeteu a essa mesma sensao, adorei!

  2. elmooliver Says:

    Caro Manuel da Costa Pinto,

    Suas palavras quando se referem ao universo literário e,em particular,acêrca do que acontece na Flip,são extremamente sábias e necessárias.Poucas vezes,em minha vida,lí um texto tão completo num artigo,em que o autor usa sua rica verbalidade para dar uma profundidade ao texto a que se propôs.Você,se permite assim chamá-lo,para mim é um MAGO DAS PALAVRAS,pois voce as faz surgirem do nada,mantendo-nos com o olhar fito,atento a cada palavra escrita.E por fim,ler tudo o que você magistralmente coloca em voga,é um prazer tão grande,que nos arremete ao êxtase da leitura…Seu texto é perfeito e suas palavras bem colocadas,tornam-se em uma espécie de sinfonia para os nossos olhos,que as remete à ‘retina do nosso pensamento’,fazendo-as se aglutinarem em nossa alma.E,numa justa homenagem ao prazer que me proporcionou ao poder ler sua retórica,termino meu comentário,usando suas últimas palavras,usadas no artigo acima entitulado A Vivencia Solar da Literatura:”PENA,QUE AO FINAL DA LEITURA,SEU TEXTO,ASSIM COMO A MAGIA DA FLIP,TAMBÉM TERMINA…”Abraços fraternos,Elmo Writter Oliver-RJ(Escritor,Poeta,Universitário e CONTUMAZ ALUNO,SEMPRE PRESENTE ÀS AULAS DA ESCOLA DA VIDA,POIS PASSAMOS POR ELA APRENDENDO O TEMPO TODO E MORREMOS SEM SABER TUDO…)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: