Archive for maio \31\UTC 2012

Sorteio de livros da Zoé Valdés

31-05-2012

Regulamento sorteio Zoé Valdés

A Flip está sorteando, entre seus seguidores do Twitter, 4 kits com dois livros da escritora cubana Zoé Valdés: A Eternidade do Instante (ed. Benvirá) e O Todo Cotidiano (ed. Benvirá). Ela é convidada para a Flip 2012 e participa da Mesa 13, O avesso da pátria, com Dany Laferrière no sábado, dia 7 de julho.

O sorteio será realizado com uso da ferramenta eletrônica sorteie.me entre todos aquele que houverem retwitado a frase “Eu quero ler os livros da Zoé Valdés #Flip2012”

O sorteio será realizado na sexta-feira, 1 de junho de 2012, às 18h, e os vencedores devem mandar seu endereço até terça-feira, 5 de junho de 2012. Os livros serão enviados via correio para qualquer endereço no território nacional.

 

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“Detalhes tão pequenos”

30-05-2012

por Flávio Moura *

Já sem ter como justificar o atraso deste post para a sempre diligente Renata Megale, responsável por este blog, resolvi fazer um apanhado de frases, diálogos, gestos e momentos sem importância que, por um motivo ou outro, foram sendo registrados sem querer ao longo desses dez anos de Flip.

A vantagem do formato é que dá pra ampliar à exaustão, numa espécie de “post in progress”, à medida que a memória for funcionando. E também permite alguma interatividade, já que todos que estiveram ao menos por uma vez em Paraty devem ter registrado coisas parecidas.

Abaixo uma lista dos primeiros que lembrei, alguns deles envolvendo emails trocados durante o trabalho como curador, que exerci entre 2008 e 2010.

Espectadora, Flip de 2003: “Hanif, todo mundo tá dizendo que você é chato, mal-humorado: de que forma esse mau-humor interfere em sua literatura?”
Hanif Kureishi: “Você andou conversando com a minha mulher?”

Arnaldo Jabor, Flip 2005, apontando o dedo em direção a uma professora da platéia: “Stalinista, stalinista!”

J. M. Coetzee, 2007. Passa uma ambulância do lado de fora da tenda. O barulho da sirene se faz ouvir. Ele silencia. Passam-se cinco, seis, dez segundos, um minuto. Então o barulho vai embora e ele retoma a leitura de Diário de um ano ruim.

Chico Buarque e Paul Auster, Flip de 2004. Professoras de psicologia da PUC tiram a sandália e correm sobre as pedras de Paraty para não perder lugar na tenda.

“Luiz, estou cansado dessa vida de Mick Jagger”: Eric Hobsbawm para o editor Luiz Schwarcz, em 2003.

“Já estou muito velho para ser chamado de etcétera”. João Ubaldo Ribeiro, alegando o motivo por que desistiu de comparecer em 2004.

“É preciso que haja no quarto uma tesoura, esteira para exercícios, nenhuma bebida alcoólica e tônica diet”. Assessoria de Lou Reed, que cancelou participação poucas semanas antes do evento, em 2010.

“Sim, nossa autora concorda em comparecer, mas ela cobra 60 mil por palestra e só viaja de primeira classe”. Agente de uma autora americana que acabou, naturalmente, excluída da lista de convidados de 2009.

“Boa noitch, Pératee”: Liz Calder e seu tradicional cumprimento de boas-vindas no show de abertura.

“Olha a marcação, Chico, olha a marcação!” Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras e técnico do time de futebol em que jogou Chico Buarque, em jogo organizado contra equipe local em 2004.

“Períneo”: Jornalista Humberto Werneck em 2008, em resposta a dúvida de seu companheiro de mesa, Xico Sá, sobre o nome do espaço entre as partes de homens e mulheres.

“A especialidade de Machado é passar Alencar a limpo, mostrar como Alencar é bocó.” Roberto Schwarz em palestra de abertura sobre Machado de Assis, em 2008.

“Simon…Simon”: A antropóloga Lilia Schwarcz tenta alertar o historiador Simon Schama para um grilo que acaba de atravessar o palco durante sua palestra, em 2009.

“Not enough evidence, God, not enough evidence”. Richard Dawkins, em 2009, em resposta à pergunta do jornalista Sílio Boccanera sobre o que diria a Deus para justificar seu ateísmo caso o encontrasse após a morte.

“Na nossa era de devoração universal, a problemática não é ontológica, é odontológica”. Antonio Candido cita Oswald de Andrade na abertura da Flip 2011.

“Sinto, mas estou prestes a completar 80 anos e o Brasil está, infelizmente, fora de questão”. Do crítico George Steiner, em fax enviado à curadoria em que justificava sua recusa para participar da Flip de 2009.

* Flávio Moura é jornalista, foi curador da Flip em 2008, 2009, 2010 e é também curador, em 2012, dos projetos especiais dos 10 anos da Flip. 

Entrevista de Liz Calder para BBC Brasil

28-05-2012
Liz Calder, mentora da Flip
 
Júlia Dias Carneiro

Da BBC Brasil em Londres

 
BBC Brasil – Como você descreveria hoje a primeira edição da Flip, em 2003?
Calder – A primeira Flip foi uma surpresa completa para nós. Até o mês anterior ao festival, esperávamos não mais que algumas centenas de visitantes. Tínhamos uma sala na Casa da Cultura com espaço para cerca de 200 pessoas, e isso era tudo. Mas estávamos trazendo nomes muito bons, como Eric Hobsbawm, Julian Barnes e Hanif Kureishi. Quando esses nomes foram anunciados, despertaram um interesse enorme, foi um alvoroço. Logo percebemos que não seriam centenas, e sim milhares de pessoas. No fim das contas, 6 mil pessoas vieram.Então foi assim, caótica, empolgante, absolutamente mágica, porque de repente todo mundo percebeu o que estava acontecendo. O público ficou muito entusiasmado e perseguiu alguns dos escritores pelas ruas. A cidade toda já estava infectada pela Flip-mania. Foi ao mesmo tempo emocionante e nos deixou muito ansiosos, porque mal sabíamos o que fazer com tanta gente.
 

BBC Brasil – O que te levou a participar da criação de um festival literário no Brasil?

Calder – Eu sempre gostei muito de festivais literários internacionais, onde pessoas do mundo todo podem se encontrar e conversar sobre seus livros. Tendo conhecido Paraty, um lugar tão maravilhoso e cheio de restaurantes, bares, hotéis e pousadas, me ocorreu que seria uma cidade perfeita para um festival. Isso foi ainda no início dos anos 1990. Eu estava publicando alguns autores brasileiros na época, como Chico Buarque, Rubem Fonseca, Patrícia Melo e Milton Hatoum. Levamos um grupo deles para Hay-on-Wye (cidade inglesa onde é realizado o prestigiado Hay Festival) e foi lá que a ideia realmente nos pegou (em 1997). O Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, e o Mauro Munhoz, que hoje dirige a Casa Azul (ONG que realiza a Flip), estavam conosco e todos embarcaram na ideia. Juntos começamos a planejar.

 

BBC Brasil – Quando a Flip começou você estava na Bloomsbury, que lucrava com os livros do Harry Potter. Isso contribuiu para a Flip? 

Calder – Sim. Quando começamos a publicar os livros do Harry Potter, a sorte da Bloosmbury mudou. Deixou de ser “ok” para ser um sucesso estrondoso. E a Bloomsbury ajudou muito a Flip no início. O presidente da editora veio nas duas primeiras edições e foi um dos nossos primeiros patrocinadores. Obviamente isso também me beneficiou porque eu era uma das diretoras, então isso me permitiu ir e vir ao Brasil muito mais do que eu poderia antes. Então acho que podemos agradecer ao Harry Potter. Eu queria muito convencer a J.K. Rowling (autora dos livros do Harry Potter) a vir para o festival, mas para ela é difícil ir para esse tipo de evento, porque seria engolida.

BBC Brasil – E como você vê a Flip hoje, crescida, chegando a sua décima edição?

Calder – A festa cresceu mais do que nossas expectativas mais ousadas. No início, as pessoas me perguntavam se a Flip deveria crescer ou não, e eu sempre dizia que não, mas claro que continuou crescendo. Mas conseguiu manter algo do sentimento e do espírito originais, e espero que sempre consiga. Acho que isso tem a ver com a natureza de Paraty. A festa se expandiu o máximo que pode geograficamente, e agora não se pode ir muito além, a não ser que se entre no mar. Não pode acontecer como em Hay-on-Wye. O festival sempre era na realizado na vila, mas se tornou tão grande que já não comportava, e uns cinco anos atrás se mudou para um campo a uns 10 km da cidade. A vila pequena e charmosa era parte da atmosfera. É como se a Flip decidisse descer a estrada e sair de Paraty, não seria a mesma coisa. Acho que a festa não deve crescer além do tamanho a que chegou hoje.

 

BBC Brasil – E hoje há filhotes da Flip em várias cidades brasileiras. Como você vê essa influência?

Calder – Acho bom que esteja se espalhando. Espero que continue assim, porque há claramente um apetite (para isso). Também há que se dizer que Paraty é um atrativo especial. É como uma recompensa extra para os visitantes. Você não está apenas tendo uma experiência rica e prazerosa ouvindo os autores, mas está neste lugar estonteante. Encontrar o lugar certo é muito importante, mas certamente há muitos lugares no Brasil onde eles (outros festivais) vão surgir e prosperar. E hoje a Flip é organizada inteiramente por brasileiros. No início, nós (ela e o marido, o cofundador da Flip Louis Baum) estávamos mais envolvidos.

 

BBC Brasil – Na festa que celebra os dez anos do festival, quais serão os principais destaques?

Calder – É um aniversário significativo, e será comemorado com alguns eventos especiais. E teremos diversas pessoas que estamos querendo trazer há anos, como o Javier Cercas, um escritor espanhol maravilhoso. Eu pessoalmente estou encantada com a vinda da Jennifer Egan, porque seu livro, A visita cruel do tempo, é simplesmente ótimo. E o Jonathan Franzen (autor de Liberdade) é um ótimo nome. Também teremos escritores como Hanif Kureishi, que participou da primeira edição, e Ian McEwan, que estava na segunda. Como eles estão voltando, vai ser interessante ver a impressão que terão do festival hoje. O programa deste ano tem uma mistura muito forte, com brasileiros muito interessantes e um grupo eclético de visitantes do exterior.

 Link da notícia: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/05/120517_flip_calder_jc.shtml

Para todos, Paraty

23-05-2012

* José Luis Peixoto

Durante vários anos, foi-me dito que os meus livros eram demasiado tristes para os leitores brasileiros. Assim, em 2005, quando o meu primeiro romance foi publicado no Brasil, já tinha romances traduzidos em cerca de dez línguas. Houve tempo suficiente para convencer editores desses países e para traduzir romances inteiros em línguas como o croata, o turco ou o finlandês, antes de convencer qualquer editor brasileiro a publicar um livro meu. Nenhum ressentimento, apenas constatação.

A primeira vez que estive no Brasil com um livro publicado foi em Paraty, na terceira edição da Flip, em 2005. Eu não estava preparado para o que aconteceu. Numa conversa às 10 da manhã de quinta-feira, sem autores-estrela, quando ainda não tinham chegado à cidade a maioria dos visitantes de São Paulo e do Rio Janeiro, li três excertos do meu romance Nenhum Olhar e disse algumas palavras que me pareciam evidentes sobre o fim do romance, enquanto género literário. Ainda sou capaz de ouvir a reacção do público, ficou gravada em mim, dentro do meu peito, por onde entrou e de onde não voltou a sair. Desde então, recorro a ela quando preciso de força. Nesse dia, não almocei, fiquei a dar autógrafos durante quatro horas na tenda dos autores. Saí quando precisaram do espaço mas, ao longo desses dias na Flip, as pessoas pediam-me autógrafos na rua, ouvia-as referirem-se a mim como “aquele português” e, quando chegava à pousada, tinha uma pilha de livros na recepção à espera para serem autografados. Nesse ano, sem conhecer ou suspeitar da sua importância, conversei com Orhan Pamuk, Anthony Bourdain, entre outros. O meu romance foi o terceiro mais vendido na Flip, atrás do livro de MVBill e do romance de Salman Rushdie que tinha sido lançado mundialmente nessa ocasião, à frente do livro de Jô Soares e de todos os outros. Não se soube desse êxito em Portugal. Esse era o tempo em que a imprensa portuguesa não enviava jornalistas para a Flip.

Se esta descrição faz parecer que aquilo que aconteceu me impressionou é porque, de facto, me impressionou bastante. Visto da minha perspectiva, foi uma experiência inesquecível. Daí, nasceram convites por parte de festivais literários e, também, da imprensa brasileira. Teria sido muito oportuno se, no ano seguinte, tivesse sido publicado um novo livro (em Portugal, tinha já três romances, dois livros de poesia e dois livros de prosa), mas deixei de ter quaisquer notícias do editor brasileiro. Recebia emails de leitores a perguntarem quando seriam publicados novos livros e não sabia o que responder.

Voltei à Flip em 2008. Algumas pessoas ainda se lembravam de mim. Eu, imoderado desde sempre, fui convidado a moderar uma mesa. Não me saí muito bem, mas creio que o povo gostou. Além disso, como autor, participei na Off Flip. Esse ano foi muito mais tranquilo para mim e deu para desfrutar da festa. Deu para conversar com a multidão de amigos que sempre se junta em Paraty e deu para estar com Liz Calder, editora dos meus romances em Inglaterra e mulher única, com quem me habituei a coleccionar todos os instantes que tenho tido oportunidade de partilhar com ela nos dois lados do oceano.

Agora, em 2012, regresso à Flip pela terceira vez para fazer algo que nunca fiz e que nunca imaginei fazer. Há poucos meses, foi publicado o meu quarto romance no Brasil, chama-se Livro; mas não será esse romance o centro daquilo que farei na Flip. Na sexta-feira, 6 de julho, à noite, na Casa da Cultura, irei ler integralmente o meu primeiro livro, chama-se Morreste-me. Ainda inédito no Brasil, trata-se de um texto que, durante anos, não consegui ler em voz alta. Escrevi essas cerca de quarenta páginas, logo depois de ter perdido o meu pai, com vinte e um anos. Não gosto de quando dizem que é um livro sobre a morte. Gosto de quando dizem que é um livro sobre o amor, o amor absoluto.

Enquanto o escrevia, não tinha noção de que estava a escrever um livro. O texto não tinha as características que estava habituado a encontrar nos livros que lia. Foi apenas quatro anos mais tarde que percebi que nunca mais, em toda a minha vida, conseguiria escrever um texto como aquele. Ao mesmo tempo, percebi que não haveria outro que fosse mais significativo para começar a publicar porque, naquelas palavras, estava o retrato da minha passagem à idade adulta. Fiz uma edição de autor desse livro, a primeira, em maio de 2000. Desde então, em Portugal, esse livro já teve mais de 15 edições e chegou a muitas dezenas de milhares de leitores. Naquilo que escrevi, existe um antes e um depois desse livro. Tudo o que escrevi depois, tem as suas raízes nas páginas condensadas desse pequeno livro, como sangue. Peço desculpa se o dramatismo  desta comparação incomoda mas, efectivamente, trata-se de um livro como sangue.

Hoje, quinze anos depois de o ter escrito, releio Morreste-me e não me arrependo de uma vírgula ou de um adjectivo. Para mim, é um livro-milagre. Sinto uma felicidade profunda por tê-lo escrito porque, hoje, creio que não seria capaz de o escrever. Mudei, ganhei pudores, desaprendi algumas lições importantes. Hoje, sou apenas capaz de lê-lo. E é isso que irei fazer em Paraty, na Casa da Cultura, para todos aqueles que me quiserem acompanhar nessa hora que, para mim, tenho a certeza, será inesquecível.

Nunca nos arrependeremos de dar aquilo que temos de mais precioso àqueles que nos são mais preciosos. É por isso que irei ler Morreste-me na Flip.

Clique aqui para ler um trecho de Morreste-me. Ou aqui para ler um trecho de Livro.

* José Luis Peixoto veio à Flip em 2005 e volta a Paraty este ano para fazer na Casa da Cultura a primeira leitura pública integral de seu livro de estreia, Morreste-me.

Homenagem de Fábio Moon e Gabriel Bá!

17-05-2012

Os bastidores da Flip

16-05-2012

por Christina Baum

Em 2002 um amigo me perguntou se eu poderia traduzir um texto. “É para um projeto da minha mãe”, disse ele. O projeto era a Flip, e a mãe do meu amigo era Liz Calder.

Naquela época eu trabalhava como tradutora técnica – plataformas de perfuração, barreiras de contenção de óleo e o escambau – e o projeto Flip era tudo o que eu queria fazer. Empolgada, tomei coragem e escrevi à Liz perguntando se eu poderia ajudar na organização da festa literária. Liz, gentilmente, disse que seria ótimo, mas – como eles ainda não tinham um patrocinador – não podiam me prometer um salário. Eu teria que, no início, trabalhar como voluntária. Topei na hora e me juntei à primeira equipe da Flip: Liz Calder, Louis Baum (não somos parentes, mas viramos “primos flipeiros”), Luiz Schwarcz, Flávio Pinheiro, Mauro Munhoz, Belita Cermelli e Nina Gama.  Uma equipe de 8 integrantes, que, independente dos títulos atribuídos aos créditos do primeiro programa, faziam de tudo um pouco. Na primeira Flip vi Mauro Munhoz colar tapete, Luiz Schwarcz carregar cadeiras e fui com a Liz comprar envelopes numa lojinha de Paraty.

Antes da primeira Flip se materializar, convidamos os paratienses para uma reunião na igreja Santa Rita e apresentamos o projeto da festa literária à comunidade. Distribuímos filipetas e solicitamos parcerias. Fomos uniformizados: camiseta branca com o logo genial do Jeff Fisher estampado no peito, uma edição limitadíssima de uma dúzia de camisetas. Alguém tem uma foto desse encontro memorável?

Trabalhei em cinco edições da Flip, de 2003 a 2007, e me lembro de todas com muito carinho, mas a primeira edição é inegavelmente o meu xodó. Quem foi, com certeza, se lembra com saudades dos eventos lotados na casa da Cultura, que comportava, no máximo, se não me engano, 186 pessoas no primeiro andar da casa. Nós nos desdobrávamos em várias tarefas para tapar os buracos deixados por uma equipe tão minimalista. Cada um de nós, mais ou menos, decidiu o que iria fazer e como iria fazer. Eu fiquei responsável pela tradução dos textos para o inglês (revisados pelo meu “primo” Louis Baum), edição do website em inglês, produção de palco, treinamento das recepcionistas e sei lá mais o que. Posteriormente, passei a coordenar o setor de RP autores.

Na primeira Flip, lembro de escutar com o ouvido direito o Eric Hobsbawn ponderando sobre os grandes problemas da Civilização Ocidental enquanto o ouvido esquerdo, ligado ao fone de ouvido, recebia a mensagem: “não tem mais papel higiênico no banheiro das mulheres”. Lembro do Ferreira Gullar aflito porque tinha planejado apresentar as imagens do seu belo livro “Relâmpagos” e ninguém sabia onde estava o laptop com os slides. Marcamos as páginas e paguei o mico de sentar numa cadeira, ao lado do palco, segurando o livro do Gullar enquanto ele me dava à deixa para virar as páginas e o cameraman filmava, ao vivo e a cores, as imagens do livro que eram projetadas na tela, com os meus dedinhos estáticos contornando as fotos. Lembro das quatro horas que passei no carro com Julian Barnes e sua esposa, ensinando-lhes algumas palavras em português, inclusive “paralelepípedo”, que Barnes ficou admirado em saber que Chico Buarque incluiu na letra de um de seus sambas.

Cada uma das edições da Flip teve os seus momentos particulares – aquela mesa literária especial, aquele show de abertura que entrou para história, as instalações da Flipinha na Praça da Matriz – mas nos bastidores da Flip, várias imagens me vêm à cabeça e partilho, agora, com vocês:

A grande feijoada com caipirinha na casa da Liz. (2003)

No barquinho com Bernardo Carvalho: “Já sei da onde a gente se conhece…nós fomos colegas de primário!” (2003)

O ilustre time de futebol da Flip 2004 (e mais feijoada, mais caipirinha). (2004)

A feiticeira, Margaret Atwood, experimentando e comprando meia dúzia de colares de sementes pouco antes da sua apresentação. Homenagem à Carmen Miranda? (2004)

Colm Tóibín jogando sabonetes de Dublin para platéia. (2004)

Salman Rushdie e Anthony Bourdain entrando de “penetras” na festa da equipe da Flip. (2005)

O elegante Ariano Suassuna autografando os seus livros por mais de duas horas. (2005)

Lilian Ross, encantada com a beleza de Paraty, exclamando: “Ah se o meu amigo John Huston estivesse aqui iria querer filmar essa maravilha!” (2006)

O susto de Maria Valéria Resende, sempre espirituosa e generosa, enfartando no último dia da Flip….mas, graças a Deus, deu tudo certo!  (2006)

Aula de Kung Fu com Benjamin Zephanaiah. (2006)

Tony Morrison cismando em ir do hotel à tenda dos autores de charrete. (2006)

Christopher Hitchens declarando que caipirinha era bebida de meninas. (2006)

A revelação da Barbara Heliodora: “é claro que você é minha prima”. (2007)

As reuniões de equipe, que varavam a noite, regadas pelo vinho Santa Julia (que se tornou a padroeira da Flip) e pizza.

O entusiasmo da equipe de RP Autores que foi batizada pela Anna Paula Barreto de “a equipe tudo de BAUM”. (2007)

Ai que saudades da Flip, que saudades de Paraty…mas dia 4 de julho, estarei aí com vocês para comemorar os 10 anos da Flip. Viva a Santa Julia! Viva os queridos flipeiros! Viva a Flip!

Christina Baum trabalhou na Flip até 2007, mora atualmente em Londres e é tradutora.

Chegadas e Partidas

14-05-2012

 

Mariza Cermelli nasceu em Paraty e trabalha desde a segunda Flip, em 2004, como coordenadora logística de transporte, alimentação e hospedagem de todos envolvidos na Flip (convidados, equipe, fornecedores, etc), além de fazer a produçāo local. Sua funçāo começa com a confirmação dos primeiros convidados e só acaba quando a festa termina e todos conseguiram voltar para casa. “Vejo cada área da Flip como um parafuso de uma enorme estrutura. E me sinto a porquinha que dá o aperto final em cada um deles. Acho que esse é o papel da logística”

O problema é que seus desafios variam de acordo com as vontades dos convidados. Se algum autor resolve trocar de vôo na última hora, é ela que tem de se desdobrar para conseguir um novo trajeto para que tudo dê certo. Se outro nāo estiver contente com a pousada, também é ela que tem que “dar um jeitinho”. Ao longo desses anos já serviu até como “corda de braço humano” para separar grandes estrelas de seus fās.

Como se não bastassem todas as suas funçōes, ela ainda arruma tempo para cuidar de sua filha Maria que nasceu ano passado e é flipeira de primeira viagem.

Conversa de Botequim

09-05-2012

por Xico Sá *

O Google é o novo Proust. O Proust sem cheiro, mas com boas pegadas, rastros. O em busca do tempo perdido dos bons bebedores que esquecem até os momentos mais solenes. Só lembro que o ano era 2008 e no quarto da pousada colonial me aguardava um tonel de Maria Izabel.

Bebo bem e escrevo socialmente, tirei o chiste do bolso e tomei mais uma. Só pensava em outra desengarrafada Maria, que chegaria depois, peste, como eu amava essa desalmadinha, que glória literária que nada, eu queria era passear de barco como estranhos no paraíso, como um desses escritores ingleses da Companhia das Letras que capricham nos panamás e nas camisas havaianas.

No meio da crônica de futebol que escrevo para a Folha, uma verdadeira missão jesuística composta de mocinhas gostosas me conduz ao evento. Você se sente importante, cara. Lá me esperavam os generosos amigos Humberto Werneck e Paulo Roberto Pires, com quem dividiria a mesa “conversa de botequim”, um papo espírita com Jaime Ovalle. Acabara de sair “O santo sujo” (Cosac), escrito pelo Werneck, sobre este senhor que era genial sem precisar escrever puerra nenhuma. O cara que disse que as mulheres às quatro da tarde estão bem melhores. O poeta Manuel Bandeira pegou esse verso dele e botou naquele poema das moças do sabonete Araxá. Taí uma coisa que sabia antes do Google.

Daí eu não lembro mais nada. Só da primeira tiazinha que pegou o beco. Não aguentou as pornografias molhadas com Maria Izabel que soltei durante a conversa. Só lembro que falei portunhol selvagem –acabara de lançar um livro nesta novilíngua chamado “Caballeros Solitários em busca do sol poente”- e recriei, sampleei ao vivo, para o azar das mocinhas tradutoras, um poema do francês Pierre Louys, obra que eu diluíra no meu livrinho “Catecismo de Devoções & Pornografias” (editora do Bispo, 2007).

Só lembro de recorrer ao Werneck para definir aquela indecifrável lição de anatomia que separa “o cu da buceta”. No momento era literatura pura. Fazia sentido. E haja gente família-Flip vazando pelos corredores. No que o educado Werneck salva: períneo. E ainda me deixa sem graça, tamanha era a minha ingenuidade pornógrafa.

Tudo que importava só chegou depois. Que mané gloria ou sucesso, falo de Maria, Lutterbach, não a Izabel, a mineira que viria de ônibus ao encontro do seu bêbado Dirceu sem noção e sem arcadismo. Aí sim, me senti um nobelável. A Flip pode ser também um amor que vem depois, sinuoso como as curvas da Rio-Santos.

Maria chegou e brincamos de “Stranger than Paradise “, como no filme de Jim Jarmusch, lesados, no barco de um louco de olhos calmos,  pelas ilhazinhas aos derredores. Que toda glória supostamente literária seja revertida em lua de mel selvagem.

* Xico Sá é escritor, jornalista e faz parte da história dos 10 anos da Flip.

Jackie Kay: leitura bem-humorada em Edimburgo

07-05-2012

“And what I didn’t know, or couldn’t see then,
Was that she hadn’t really gone.
The dead don’t go till you do, loved ones.
The dead are still here holding our hands.” *

É com essa reflexão sobre a morte que a escocesa Jackie Kay encerra Darling, poema dedicado a uma grande amiga sua, a também poeta Julia Darling. O texto, que relata os últimos momentos de convívio das duas, constrói com delicadeza a imagem de uma despedida carinhosa, madura e sem melancolia.

O vídeo a seguir foi gravado na Biblioteca Central de Edimburgo, em 2010. Nele, Kay recita duas poesias de temáticas bastante distintas, mas que ela interpreta de maneira coesa, leve e bem-humorada. Além de Darling, Kay interpreta Maw Broon’s vagina monologues, que relata o processo de autoconhecimento sexual de uma personagem de quadrinhos do jornal The Guardian.

Jackie Kay é uma das atrações confirmadas para a 10ª Flip. Além de poeta, ela é autora do romance  O Trompete, sobre um músico que viveu a vida toda como homem, até a morte revelar seu verdadeiro sexo biológico. Para escrevê-lo, Kay inspirou-se na história real do jazzista Billy Tipton.

 

* “E o que eu nāo sabia, ou que nāo podia ver,
É que ela nāo tinha ido,
A morte nāo vai enquanto continuarmos aqui, amando.
A morte continua segurando as nossas māos”
(em uma traduçāo livre) 

Eu e Paraty

07-05-2012

Por José Eduardo Agualusa

Tenho sorte com Paraty. Estava no Rio de Janeiro, lendo jornais antigos, para escrever a “Nação Crioula”, quando um temporal violento provocou inundações na Biblioteca Nacional. Com a Biblioteca Nacional encerrada fui de ônibus, sozinho, até Paraty, e por ali fiquei umas duas semanas, escrevendo as primeiras páginas do romance, em bares, restaurantes, e nos bancos de jardim. Regressei a Paraty, convidado pela Flip, para um debate com Caetano Veloso. Costumo dizer que a minha relação ao Brasil, enquanto escritor, tem dois momentos: AC e DC. Antes de Caetano e Depois de Caetano. Devo a Caetano, e à Flip, muitos dos meus leitores brasileiros.

Nos últimos anos os livros levaram-me a viajar muito. Escritores transformaram-se numa espécie de caixeiros-viajantes dos seus próprios títulos. Estive em festivais literários um pouco por todo o mundo. Não conheço nenhum com o charme da Flip. Em primeiro lugar há o cenário. A pequena cidade histórica, com o seu belo casario colonial, e o mar, ao fundo, semeado de ilhas verdes. Depois a simpatia das pessoas, o clima de rave, tudo aquilo que deve ser um encontro à volta do livro – uma enorme festa.

Finalmente nota dez para a organização. Um escritor chega e não se sente perdido, como acontece em muitos dos grandes festivais que visitei.

Espero voltar ainda muitas vezes, como leitor, para viver essa festa e acompanhar conversas à volta dos livros que eu mais gosto, dentro e fora das tendas.

José Eduardo Agualusa nasceu em Angola e é autor de O Ano em que Zumbi Tomou o RioNaçāo CrioulaBarroco Tropical, entre outros.


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