Conversa de Botequim

por Xico Sá *

O Google é o novo Proust. O Proust sem cheiro, mas com boas pegadas, rastros. O em busca do tempo perdido dos bons bebedores que esquecem até os momentos mais solenes. Só lembro que o ano era 2008 e no quarto da pousada colonial me aguardava um tonel de Maria Izabel.

Bebo bem e escrevo socialmente, tirei o chiste do bolso e tomei mais uma. Só pensava em outra desengarrafada Maria, que chegaria depois, peste, como eu amava essa desalmadinha, que glória literária que nada, eu queria era passear de barco como estranhos no paraíso, como um desses escritores ingleses da Companhia das Letras que capricham nos panamás e nas camisas havaianas.

No meio da crônica de futebol que escrevo para a Folha, uma verdadeira missão jesuística composta de mocinhas gostosas me conduz ao evento. Você se sente importante, cara. Lá me esperavam os generosos amigos Humberto Werneck e Paulo Roberto Pires, com quem dividiria a mesa “conversa de botequim”, um papo espírita com Jaime Ovalle. Acabara de sair “O santo sujo” (Cosac), escrito pelo Werneck, sobre este senhor que era genial sem precisar escrever puerra nenhuma. O cara que disse que as mulheres às quatro da tarde estão bem melhores. O poeta Manuel Bandeira pegou esse verso dele e botou naquele poema das moças do sabonete Araxá. Taí uma coisa que sabia antes do Google.

Daí eu não lembro mais nada. Só da primeira tiazinha que pegou o beco. Não aguentou as pornografias molhadas com Maria Izabel que soltei durante a conversa. Só lembro que falei portunhol selvagem –acabara de lançar um livro nesta novilíngua chamado “Caballeros Solitários em busca do sol poente”- e recriei, sampleei ao vivo, para o azar das mocinhas tradutoras, um poema do francês Pierre Louys, obra que eu diluíra no meu livrinho “Catecismo de Devoções & Pornografias” (editora do Bispo, 2007).

Só lembro de recorrer ao Werneck para definir aquela indecifrável lição de anatomia que separa “o cu da buceta”. No momento era literatura pura. Fazia sentido. E haja gente família-Flip vazando pelos corredores. No que o educado Werneck salva: períneo. E ainda me deixa sem graça, tamanha era a minha ingenuidade pornógrafa.

Tudo que importava só chegou depois. Que mané gloria ou sucesso, falo de Maria, Lutterbach, não a Izabel, a mineira que viria de ônibus ao encontro do seu bêbado Dirceu sem noção e sem arcadismo. Aí sim, me senti um nobelável. A Flip pode ser também um amor que vem depois, sinuoso como as curvas da Rio-Santos.

Maria chegou e brincamos de “Stranger than Paradise “, como no filme de Jim Jarmusch, lesados, no barco de um louco de olhos calmos,  pelas ilhazinhas aos derredores. Que toda glória supostamente literária seja revertida em lua de mel selvagem.

* Xico Sá é escritor, jornalista e faz parte da história dos 10 anos da Flip.

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3 Respostas to “Conversa de Botequim”

  1. Guto lima Says:

    flipar e preciso!

  2. ninfa sampronha barreiros Says:

    Criei um filme no descampado da minha mente com essa histria. O que a “marvada” faz. Cenas hilrias so criadas, paulatinamente.

  3. mateus Says:

    rsrs xico,
    ja te vi zigue zagueando aki pela rua do comercio..rs..

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