Os bastidores da Flip

por Christina Baum

Em 2002 um amigo me perguntou se eu poderia traduzir um texto. “É para um projeto da minha mãe”, disse ele. O projeto era a Flip, e a mãe do meu amigo era Liz Calder.

Naquela época eu trabalhava como tradutora técnica – plataformas de perfuração, barreiras de contenção de óleo e o escambau – e o projeto Flip era tudo o que eu queria fazer. Empolgada, tomei coragem e escrevi à Liz perguntando se eu poderia ajudar na organização da festa literária. Liz, gentilmente, disse que seria ótimo, mas – como eles ainda não tinham um patrocinador – não podiam me prometer um salário. Eu teria que, no início, trabalhar como voluntária. Topei na hora e me juntei à primeira equipe da Flip: Liz Calder, Louis Baum (não somos parentes, mas viramos “primos flipeiros”), Luiz Schwarcz, Flávio Pinheiro, Mauro Munhoz, Belita Cermelli e Nina Gama.  Uma equipe de 8 integrantes, que, independente dos títulos atribuídos aos créditos do primeiro programa, faziam de tudo um pouco. Na primeira Flip vi Mauro Munhoz colar tapete, Luiz Schwarcz carregar cadeiras e fui com a Liz comprar envelopes numa lojinha de Paraty.

Antes da primeira Flip se materializar, convidamos os paratienses para uma reunião na igreja Santa Rita e apresentamos o projeto da festa literária à comunidade. Distribuímos filipetas e solicitamos parcerias. Fomos uniformizados: camiseta branca com o logo genial do Jeff Fisher estampado no peito, uma edição limitadíssima de uma dúzia de camisetas. Alguém tem uma foto desse encontro memorável?

Trabalhei em cinco edições da Flip, de 2003 a 2007, e me lembro de todas com muito carinho, mas a primeira edição é inegavelmente o meu xodó. Quem foi, com certeza, se lembra com saudades dos eventos lotados na casa da Cultura, que comportava, no máximo, se não me engano, 186 pessoas no primeiro andar da casa. Nós nos desdobrávamos em várias tarefas para tapar os buracos deixados por uma equipe tão minimalista. Cada um de nós, mais ou menos, decidiu o que iria fazer e como iria fazer. Eu fiquei responsável pela tradução dos textos para o inglês (revisados pelo meu “primo” Louis Baum), edição do website em inglês, produção de palco, treinamento das recepcionistas e sei lá mais o que. Posteriormente, passei a coordenar o setor de RP autores.

Na primeira Flip, lembro de escutar com o ouvido direito o Eric Hobsbawn ponderando sobre os grandes problemas da Civilização Ocidental enquanto o ouvido esquerdo, ligado ao fone de ouvido, recebia a mensagem: “não tem mais papel higiênico no banheiro das mulheres”. Lembro do Ferreira Gullar aflito porque tinha planejado apresentar as imagens do seu belo livro “Relâmpagos” e ninguém sabia onde estava o laptop com os slides. Marcamos as páginas e paguei o mico de sentar numa cadeira, ao lado do palco, segurando o livro do Gullar enquanto ele me dava à deixa para virar as páginas e o cameraman filmava, ao vivo e a cores, as imagens do livro que eram projetadas na tela, com os meus dedinhos estáticos contornando as fotos. Lembro das quatro horas que passei no carro com Julian Barnes e sua esposa, ensinando-lhes algumas palavras em português, inclusive “paralelepípedo”, que Barnes ficou admirado em saber que Chico Buarque incluiu na letra de um de seus sambas.

Cada uma das edições da Flip teve os seus momentos particulares – aquela mesa literária especial, aquele show de abertura que entrou para história, as instalações da Flipinha na Praça da Matriz – mas nos bastidores da Flip, várias imagens me vêm à cabeça e partilho, agora, com vocês:

A grande feijoada com caipirinha na casa da Liz. (2003)

No barquinho com Bernardo Carvalho: “Já sei da onde a gente se conhece…nós fomos colegas de primário!” (2003)

O ilustre time de futebol da Flip 2004 (e mais feijoada, mais caipirinha). (2004)

A feiticeira, Margaret Atwood, experimentando e comprando meia dúzia de colares de sementes pouco antes da sua apresentação. Homenagem à Carmen Miranda? (2004)

Colm Tóibín jogando sabonetes de Dublin para platéia. (2004)

Salman Rushdie e Anthony Bourdain entrando de “penetras” na festa da equipe da Flip. (2005)

O elegante Ariano Suassuna autografando os seus livros por mais de duas horas. (2005)

Lilian Ross, encantada com a beleza de Paraty, exclamando: “Ah se o meu amigo John Huston estivesse aqui iria querer filmar essa maravilha!” (2006)

O susto de Maria Valéria Resende, sempre espirituosa e generosa, enfartando no último dia da Flip….mas, graças a Deus, deu tudo certo!  (2006)

Aula de Kung Fu com Benjamin Zephanaiah. (2006)

Tony Morrison cismando em ir do hotel à tenda dos autores de charrete. (2006)

Christopher Hitchens declarando que caipirinha era bebida de meninas. (2006)

A revelação da Barbara Heliodora: “é claro que você é minha prima”. (2007)

As reuniões de equipe, que varavam a noite, regadas pelo vinho Santa Julia (que se tornou a padroeira da Flip) e pizza.

O entusiasmo da equipe de RP Autores que foi batizada pela Anna Paula Barreto de “a equipe tudo de BAUM”. (2007)

Ai que saudades da Flip, que saudades de Paraty…mas dia 4 de julho, estarei aí com vocês para comemorar os 10 anos da Flip. Viva a Santa Julia! Viva os queridos flipeiros! Viva a Flip!

Christina Baum trabalhou na Flip até 2007, mora atualmente em Londres e é tradutora.

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6 Respostas to “Os bastidores da Flip”

  1. vera maria whately Says:

    que maravilha, Tin, s mesmo voc ia conseguir tudo isso.Muitos empreendimentos, muitos sucessos. Deus te abenoe.
    Beijo
    vera whately

  2. Cida de Assis Says:

    Tina, voce viu a Flip, nascer, engatinhar e andar com suas proprias pernas. Ou melhor, voce nao so viu como ajudou no nascimento da Flip. Lembro-me bem de um artigo do Guardian que li aqui em Londres, sobre a 1a.Flip em Parati, fiquei encantada com o evento literario e seus admiraveis convidados. Que proeza a sua e da Liz Calder! Parabens pelos 10 Anos!!!

  3. Anônimo Says:

    Que lindo texto, Chris. Um privilgio fazer parte dessa histria. Vou divulgar no meu FB. beijos!

  4. Mariana C.O.Fontes Says:

    Tina, seu texto delicioso, a Flip vira um poema encarnado. Graas Helena pude ter o prazer de l-lo. E guardo na memria, com carinho, suas aulas de ingls!
    Bjs saudosos, Mariana Fontes

  5. Alessandra Barros Says:

    Ol,

    Tiro o chpeu pela escrita deste site! Muito descontrado!
    visite meu site: http://www.queromaisvisitas.com.br

  6. Cristina Becker Says:

    Chris, tudo de bom, well done!! I was there myself as the British Council offered the initial support in developing and building this amazing initiative that was just about to start, a little baby that is now a handsome and mature event. I took part and collabotated from 2003-2006 and I can assure it was one of the most remarkable experiences I ever had! Much more to come, lond life to FLIP!!
    Cristina Becker, TRANSFORM Artistic Coordinator, BRITISH COUNCIL

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