Para todos, Paraty

* José Luis Peixoto

Durante vários anos, foi-me dito que os meus livros eram demasiado tristes para os leitores brasileiros. Assim, em 2005, quando o meu primeiro romance foi publicado no Brasil, já tinha romances traduzidos em cerca de dez línguas. Houve tempo suficiente para convencer editores desses países e para traduzir romances inteiros em línguas como o croata, o turco ou o finlandês, antes de convencer qualquer editor brasileiro a publicar um livro meu. Nenhum ressentimento, apenas constatação.

A primeira vez que estive no Brasil com um livro publicado foi em Paraty, na terceira edição da Flip, em 2005. Eu não estava preparado para o que aconteceu. Numa conversa às 10 da manhã de quinta-feira, sem autores-estrela, quando ainda não tinham chegado à cidade a maioria dos visitantes de São Paulo e do Rio Janeiro, li três excertos do meu romance Nenhum Olhar e disse algumas palavras que me pareciam evidentes sobre o fim do romance, enquanto género literário. Ainda sou capaz de ouvir a reacção do público, ficou gravada em mim, dentro do meu peito, por onde entrou e de onde não voltou a sair. Desde então, recorro a ela quando preciso de força. Nesse dia, não almocei, fiquei a dar autógrafos durante quatro horas na tenda dos autores. Saí quando precisaram do espaço mas, ao longo desses dias na Flip, as pessoas pediam-me autógrafos na rua, ouvia-as referirem-se a mim como “aquele português” e, quando chegava à pousada, tinha uma pilha de livros na recepção à espera para serem autografados. Nesse ano, sem conhecer ou suspeitar da sua importância, conversei com Orhan Pamuk, Anthony Bourdain, entre outros. O meu romance foi o terceiro mais vendido na Flip, atrás do livro de MVBill e do romance de Salman Rushdie que tinha sido lançado mundialmente nessa ocasião, à frente do livro de Jô Soares e de todos os outros. Não se soube desse êxito em Portugal. Esse era o tempo em que a imprensa portuguesa não enviava jornalistas para a Flip.

Se esta descrição faz parecer que aquilo que aconteceu me impressionou é porque, de facto, me impressionou bastante. Visto da minha perspectiva, foi uma experiência inesquecível. Daí, nasceram convites por parte de festivais literários e, também, da imprensa brasileira. Teria sido muito oportuno se, no ano seguinte, tivesse sido publicado um novo livro (em Portugal, tinha já três romances, dois livros de poesia e dois livros de prosa), mas deixei de ter quaisquer notícias do editor brasileiro. Recebia emails de leitores a perguntarem quando seriam publicados novos livros e não sabia o que responder.

Voltei à Flip em 2008. Algumas pessoas ainda se lembravam de mim. Eu, imoderado desde sempre, fui convidado a moderar uma mesa. Não me saí muito bem, mas creio que o povo gostou. Além disso, como autor, participei na Off Flip. Esse ano foi muito mais tranquilo para mim e deu para desfrutar da festa. Deu para conversar com a multidão de amigos que sempre se junta em Paraty e deu para estar com Liz Calder, editora dos meus romances em Inglaterra e mulher única, com quem me habituei a coleccionar todos os instantes que tenho tido oportunidade de partilhar com ela nos dois lados do oceano.

Agora, em 2012, regresso à Flip pela terceira vez para fazer algo que nunca fiz e que nunca imaginei fazer. Há poucos meses, foi publicado o meu quarto romance no Brasil, chama-se Livro; mas não será esse romance o centro daquilo que farei na Flip. Na sexta-feira, 6 de julho, à noite, na Casa da Cultura, irei ler integralmente o meu primeiro livro, chama-se Morreste-me. Ainda inédito no Brasil, trata-se de um texto que, durante anos, não consegui ler em voz alta. Escrevi essas cerca de quarenta páginas, logo depois de ter perdido o meu pai, com vinte e um anos. Não gosto de quando dizem que é um livro sobre a morte. Gosto de quando dizem que é um livro sobre o amor, o amor absoluto.

Enquanto o escrevia, não tinha noção de que estava a escrever um livro. O texto não tinha as características que estava habituado a encontrar nos livros que lia. Foi apenas quatro anos mais tarde que percebi que nunca mais, em toda a minha vida, conseguiria escrever um texto como aquele. Ao mesmo tempo, percebi que não haveria outro que fosse mais significativo para começar a publicar porque, naquelas palavras, estava o retrato da minha passagem à idade adulta. Fiz uma edição de autor desse livro, a primeira, em maio de 2000. Desde então, em Portugal, esse livro já teve mais de 15 edições e chegou a muitas dezenas de milhares de leitores. Naquilo que escrevi, existe um antes e um depois desse livro. Tudo o que escrevi depois, tem as suas raízes nas páginas condensadas desse pequeno livro, como sangue. Peço desculpa se o dramatismo  desta comparação incomoda mas, efectivamente, trata-se de um livro como sangue.

Hoje, quinze anos depois de o ter escrito, releio Morreste-me e não me arrependo de uma vírgula ou de um adjectivo. Para mim, é um livro-milagre. Sinto uma felicidade profunda por tê-lo escrito porque, hoje, creio que não seria capaz de o escrever. Mudei, ganhei pudores, desaprendi algumas lições importantes. Hoje, sou apenas capaz de lê-lo. E é isso que irei fazer em Paraty, na Casa da Cultura, para todos aqueles que me quiserem acompanhar nessa hora que, para mim, tenho a certeza, será inesquecível.

Nunca nos arrependeremos de dar aquilo que temos de mais precioso àqueles que nos são mais preciosos. É por isso que irei ler Morreste-me na Flip.

Clique aqui para ler um trecho de Morreste-me. Ou aqui para ler um trecho de Livro.

* José Luis Peixoto veio à Flip em 2005 e volta a Paraty este ano para fazer na Casa da Cultura a primeira leitura pública integral de seu livro de estreia, Morreste-me.

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11 Respostas to “Para todos, Paraty”

  1. Elza Costeira Says:

    Estou curiosa e já a chorar, como diz-se em Portugal. Estou a chorar pois também a mim sucedeu que perdi meu pai há pouco tempo. Morreu-me! Amei este post e não perco mais de vista este senhor.

    • eduarda pinto Says:

      absolutamente belo… a obra prima de Jos Luis Peixoto..J lho disse mitas vezes..foi assim que o conheci atravs do morreste-me um livro s ternura, s amor …

  2. Martha Lossurdo Says:

    A Flip a festa da beleza, do prazer e da genialidade… Jos Luiz Peixoto pode, enfim, redescobri-se e experimentar mais de si,
    uma vez mais…

  3. Anônimo Says:

    Demasiado bom o resultado de tudo o que escreves. Demasiado bom para ti, demasiado bom para quem te l.
    Demasiado profundo e verdadeiro e intenso e forte e sentido.
    Demasiado especial.
    Como demasiado bom viver nesta poca e poder apreciar o crescimento da tua obra.
    Demasiado….

  4. PAULA COSTA Says:

    Li o “Morreste-me” h muito pouco tempo, e garanto que fiquei apaixonada pelo livro, tanto que ,j o li mais duas vezes e nunca me canso…. Quero ainda dizer que partilho da ideia de ser “um livro sobre o amor, o amor absoluto” e aisnda de REVOLTA… porque aqueles que SE AMA VERDADEIRAMENTE, jamais sero esqueidos…

  5. Anônimo Says:

    Morreste-me dos livros mais impressionantes que li at hoje.Identifiquei-me muito com ele , porque perdi o meu pai tinha apenas 20 anos. Sou uma leitora habitual de todos os livros de Jos Luis Peixoto, e desejo-lhe as maiores felicidades, porque ele merece.
    Maria Elsa Guimares

  6. gilmarasantos29@yahoo.com.br Says:

    eu quero,muito,muito v-lo novamente! a primeira foi na Flip de 2008 e desde l li seus quatro livros publicados aqui,e agora estou ansiosa para v-lo novamente e para mim ser inesquecvel!

  7. Dirce Says:

    Como me doloroso no poder ler todos os seus livros. Li Nenhum Olhar, Uma Casa na Escurido, Cemitrios de Pianos e Livro que foram publicados aqui, no Brasil, e tambm li Morreste-me e Antdoto, graas a uma amiga que os comprou em Portugal, e teve a generosidade de me emprest-los. Seus livros comungam com a minha alma.
    Desejo-lhe sucesso crescente.

  8. Maria Sousa Says:

    Obrigada Jos Lus Peixoto, Peixoto de parte do pai.
    O Jos Lus um ser maravilhoso, feito de sentimentos, que nos tocam.
    Concerteza foi muito amado, s assim consegue atravs das palavras escritas entrar no mais profundo e mgico das pessoas que o leram,e nunca mais o abandonaram, porque precisam de si.
    Um abrao cheio.

  9. agostinho rocha Says:

    Amiga q estimo falou-me num tal de Peixoto. Fiquei com a ideia q seria um Albert Camus contemporaneo. Li parte do ” Morreste-me”. Da parte posso partir para o todo, parcialmente….e imparcialmente pensar q se trata de um bom rapaz q pe c fora muito daquilo q outros guardam…onde e conforme guardam.Mas a forma…oh, a forma. Atabalhoada sem pressa, com erros de lgica e lingustico/gramaticais, faz com que um momento do Camus (lembro-me de transpirar num funeral descrito por ele) me “livro-transporte” mais que 4 pgs de “Morreste-me”.Mas os funerais tb so demorados….at porque, ali, o tempo passa sempre devagar….Afinal, a Morte q se compara…

  10. Margareth M. F. Tamberg Says:

    Acabei de ler o primeiro trecho do livro e fiquei tomada de emoção. Quero lê-lo todo, queria poder vê-lo lendo em Paraty. Margareth M. F. T.

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