“Detalhes tão pequenos”

por Flávio Moura *

Já sem ter como justificar o atraso deste post para a sempre diligente Renata Megale, responsável por este blog, resolvi fazer um apanhado de frases, diálogos, gestos e momentos sem importância que, por um motivo ou outro, foram sendo registrados sem querer ao longo desses dez anos de Flip.

A vantagem do formato é que dá pra ampliar à exaustão, numa espécie de “post in progress”, à medida que a memória for funcionando. E também permite alguma interatividade, já que todos que estiveram ao menos por uma vez em Paraty devem ter registrado coisas parecidas.

Abaixo uma lista dos primeiros que lembrei, alguns deles envolvendo emails trocados durante o trabalho como curador, que exerci entre 2008 e 2010.

Espectadora, Flip de 2003: “Hanif, todo mundo tá dizendo que você é chato, mal-humorado: de que forma esse mau-humor interfere em sua literatura?”
Hanif Kureishi: “Você andou conversando com a minha mulher?”

Arnaldo Jabor, Flip 2005, apontando o dedo em direção a uma professora da platéia: “Stalinista, stalinista!”

J. M. Coetzee, 2007. Passa uma ambulância do lado de fora da tenda. O barulho da sirene se faz ouvir. Ele silencia. Passam-se cinco, seis, dez segundos, um minuto. Então o barulho vai embora e ele retoma a leitura de Diário de um ano ruim.

Chico Buarque e Paul Auster, Flip de 2004. Professoras de psicologia da PUC tiram a sandália e correm sobre as pedras de Paraty para não perder lugar na tenda.

“Luiz, estou cansado dessa vida de Mick Jagger”: Eric Hobsbawm para o editor Luiz Schwarcz, em 2003.

“Já estou muito velho para ser chamado de etcétera”. João Ubaldo Ribeiro, alegando o motivo por que desistiu de comparecer em 2004.

“É preciso que haja no quarto uma tesoura, esteira para exercícios, nenhuma bebida alcoólica e tônica diet”. Assessoria de Lou Reed, que cancelou participação poucas semanas antes do evento, em 2010.

“Sim, nossa autora concorda em comparecer, mas ela cobra 60 mil por palestra e só viaja de primeira classe”. Agente de uma autora americana que acabou, naturalmente, excluída da lista de convidados de 2009.

“Boa noitch, Pératee”: Liz Calder e seu tradicional cumprimento de boas-vindas no show de abertura.

“Olha a marcação, Chico, olha a marcação!” Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras e técnico do time de futebol em que jogou Chico Buarque, em jogo organizado contra equipe local em 2004.

“Períneo”: Jornalista Humberto Werneck em 2008, em resposta a dúvida de seu companheiro de mesa, Xico Sá, sobre o nome do espaço entre as partes de homens e mulheres.

“A especialidade de Machado é passar Alencar a limpo, mostrar como Alencar é bocó.” Roberto Schwarz em palestra de abertura sobre Machado de Assis, em 2008.

“Simon…Simon”: A antropóloga Lilia Schwarcz tenta alertar o historiador Simon Schama para um grilo que acaba de atravessar o palco durante sua palestra, em 2009.

“Not enough evidence, God, not enough evidence”. Richard Dawkins, em 2009, em resposta à pergunta do jornalista Sílio Boccanera sobre o que diria a Deus para justificar seu ateísmo caso o encontrasse após a morte.

“Na nossa era de devoração universal, a problemática não é ontológica, é odontológica”. Antonio Candido cita Oswald de Andrade na abertura da Flip 2011.

“Sinto, mas estou prestes a completar 80 anos e o Brasil está, infelizmente, fora de questão”. Do crítico George Steiner, em fax enviado à curadoria em que justificava sua recusa para participar da Flip de 2009.

* Flávio Moura é jornalista, foi curador da Flip em 2008, 2009, 2010 e é também curador, em 2012, dos projetos especiais dos 10 anos da Flip. 

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4 Respostas to ““Detalhes tão pequenos””

  1. marise Says:

    Muito bom!!! É o que faz da Flip realmente uma festa…

  2. Margareth Mendes Franzon Tamberg Says:

    Gostei!

  3. Marcia Teixeira Says:

    Flvio,
    A Flip sempre deixa essas lembranas formidveis …
    Tb tenho muitas: Benjamim Moser autor de Clarice, – Aps a maravilhosa apresentao de seu livro, seu profundo interesse, seu amor e tudo mais .. por Clarice Lispector – no restaurante o caf durante a Flip 2010. A Dona do caf encerra o debate informando que no dia seguinte era a vez de Altamir Tojal apresentar o livro: Osis Azul do Meier. O ttulo do livro chama ateno de Moser, a tradutora que o acompanhava tenta traduzir, ao que ele responde: “J entendi! porque era no bairro do Mier onde morava a cartomante de Clarisse Lispector..” IMPAGVEL esse Moser.

  4. Anônimo Says:

    Eric Hobsbawm se preparava para fechar sua palestra com chave de ouro quando se escuta uma voz vindo do fundo da platia… Drauzio! Drauzio! tem um senhor passando mal aqui!

    Sensacional palestra do Ariano Suassuna em 2005. divertida e emocionante… inesquecvel.

    Christopher Hitchens chamando Gabeira de terrorista durante a Flip em 2006.

    As festas da Agncia Riff — em 2007 no Che Bar, com a Casa da Palavra, e no ano passado no Margarida Caf, com a Companhia das Letras.

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