A Flip antes da Flip

por Paulo Roberto Pires

Minha primeira Flip aconteceu em 2002 e bem longe de Paraty. Em junho daquele ano, Liz Calder e Louis Baum receberam calorosamente em sua casa de Londres a equipe que cuidaria da primeira edição da festa.  Nos conhecemos num almoço e dias depois embarcamos para Hay-on-Wye, cidade no País de Gales onde acontece o festival que desde o início foi o modelo para Liz e Luiz Schwarcz.

Na caravana que se formou, eu viajava como co-responsável pela programação, entregue ao Flávio Pinheiro. A turma, animadíssima, era formada por Belita Cermelli e Mauro Muñoz, que seriam diretores da Flip; pela hoje editora da Companhia das Letras Julia Moritz Schwarcz e Luiz Henrique, seu então namorado e hoje marido; havia ainda os autores da Bloomsbury, editora da Liz, que lançavam livros por lá: o inglês-carioca Alex Bellos, Patricia Melo e Milton Hatoum, que viajava com sua mulher, Ruth Lanna, editora e futura curadora da terceira e quarta edições da Flip.

Não era difícil imaginar o espírito de Hay em Paraty. Havia ali uma novidade decisiva: não se tratava de uma feira de livros, de uma conferência ou de um programa de palestras. O que acontecia era, de fato, um festival, com lugar para Margareth Atwood, show de Macy Gray, Christopher Hitchens e até para um improvável circo – que, aliás, assistimos entre uma coisa e outra. De volta a Londres, uma bateria de reuniões que se prolongou no Rio, em São Paulo e em Paraty.

Um ano depois, a primeira Flip se tornou uma realidade palpável para mim quando, da porta da Pousada da Marquesa, vi descerem de uma van Ana Maria Machado, Don DeLillo e Eric Hobsbwam, que cumprimentou a todos com apertos de mão e uma singela saudação: “I’m Eric”.

Naquela altura, eu participava da Flip de outra forma: deixei a programação porque virei editor e lançava Paraty para mim, resultado do projeto docemente irresponsável de trancar três jovens escritores na cidade – Chico Mattoso, João Paulo Cuenca e Santiago Nazarian – para que escrevessem contos ali ambientados. Para mim e, acredito, para eles, foi um inesquecível começo de carreira.

De lá para cá, minha vida profissional – e não apenas ela – jamais se separou da Flip, que serviu até de cenário para um romance que escrevi. Foram momentos hilários e emocionantes com autores que editei e pelo menos uma tarde épica na tarefa de conciliar, como mediador, a fina ironia de Humberto Werneck e a desembestada força da natureza chamada Xico Sá.

Pensando nesta data redonda e, é claro, advogando em causa própria, sugeri ao Mauro Muñoz que entregue esse ano a Pedra de Ouro, prêmio que aludiria à irregularidade do calçamento da cidade para contemplar a regularidade de seus frequentadores. A cerimônia, não se preocupem, será rápida, pois somos poucos os que não furaram uma Flip. E que esperam, em 2022, ganhar a Pedra de Platina.

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