“Os filhos da Flip”

por Edney Silvestre *

“Ah, que pena, a Flip virou uma palhaçada e não vai durar muito mais”, eu pensei, triste, quando vi – talvez logo na segunda ou terceira edição – o ministro da cultura, como num carro alegórico, desfilando carnavalescamente e acenando para fotógrafos, cinegrafistas e turistas, a bordo de uma charrete, a sacolejar sobre as pedras das ruas de Paraty.

Não foi a única vez que me vi lamentando o desmoronamento de uma boa ideia.

Eu tinha ido à festa literária desde a primeira, aquela em que os autores ainda podiam caminhar pelas ruas, sentar-se nos botequins, tomar umas e outras, saírem trôpegos ou baterem papo com os visitantes e os nativos, sem se preocupar com as revistas de celebridades, os sites de fofocas, as câmeras dos celulares ou as digitais de nove-noventa-e-nove a registrar cada passo (muitas vezes em falso) que davam.

Testemunhei decisões altamente equivocadas, na busca do sucesso.

Numa das edições amontoaram cantores e músicos que também escreviam. Alguns, bem. Outros, lamentavelmente.

Me lembro de uma Flip em que a americana Toni Morrison, mais do que se achando, saía da Pousada da Marquesa cobrindo-se com uma capa, para evitar fotos e imagens não autorizadas.

Vi a mesma aversão a fãs e mídia com o sul-africano Coetzee, que só topava sair de barco e falar aos poucos que tinham conseguido ingresso para a tenda principal.

Pessoalmente acho que esses tipos nem deviam ser convidados, mas Coetzee e Morrison, ao menos, eram ganhadores do Nobel de Literatura, em 2003 e 1993, respectivamente.

Pior foi o britânico Hanif Kureishi.  Na época tinha alguma notoriedade por conta da adaptação de “My beautiful laundrette” para o cinema.

Primeiro Kureishi pareceu fugir dos holofotes. Depois passou a circular por trás de todo e qualquer entrevistado para o qual apontássemos as câmeras e luzes, como um desses papagaios de pirata que vez por outra perturbam transmissões ao vivo.

Enquanto essas bizarrices estelares se sucediam, gente do calibre de Eric Hobsbawn, do alto dos seus (então) oitenta e muitos anos (ou já teria chegado aos 90?), ou a igualmente ganhadora do Nobel de Literatura Nadine Gordimer, ou o dandy Gay Talese, atendia a todos os que os abordavam, estivessem ou não carregando seus livros.  Tal como Adélia Prado, Ian McEwan, João Ubaldo Ribeiro, Salman Rushdie, Neil Gaiman e a maioria dos convidados, ao longo destes anos todos.

Acompanhei cada edição da Festa Literária de Paraty como jornalista.

Tive o privilégio, também, de participar como autor, na Flip do ano passado, 2011.

Cá meu testemunho, tanto como escritor, quanto na pele do repórter: a Flip foi um dos elementos deflagradores do estupendo interesse do leitor brasileiro e auxiliar poderoso do crescimento do mercado editorial em nosso pais.

Cada vez que a Liz Calder passa perto de mim (aviso que não sou amigo dela, que ela nunca me reconhece e que sempre me apresento, recebendo dela um “prazer em conhecê-lo” a cada vez), tenho vontade de aplaudir.

Deveria.

Quando a Flip começou, por obra, graça e incansável esforço dessa inglesa, era uma das poucas celebrações públicas do livro no Brasil, junto com Passo Fundo, as Bienais e outras mínimas.

Hoje, dez anos depois, as festas literárias, no país todo, passam de uma centena.

Ano que vem devem chegar a 150.

Filhos e filhas da Flip, com certeza.

Estou pagando pela língua.

Ainda bem.

* Edney Silvestre é jornalista e escritor.

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9 Respostas to ““Os filhos da Flip””

  1. Sandra Martins da Rosa Says:

    Que bom que voce teve humildade, reconheceu e registrou seu depoimento; se todos assim o fizessem, o mundo estaria bem melhor.

  2. Vilto Reis Says:

    Um dia vou conseguir ir, por enquanto fico lendo essas prolas e sonhando.

  3. Edson Says:

    Parabns Edney Silvestre… voc um dos que engrandece a FLIP… espero v-lo mais uma vez. Sucesso.
    Edson
    Muria-MG

  4. elmooliver Says:

    Caro Edney Silvestre,assim que lí seu comentário,um pensamento me veio à mente,e o posto em primeira mão:”Antes pecar pelo zêlo do que pelo desmazelo.”byElmo Oliver/RJ-Escritor,Poeta,ainda Universitário e Eterno Aluno da Universal Escola da Vida.Meu caro,sou seu fã de carteirinha.Quando você morava em New York,ficava aguardando você aparecer na ‘Telinha da Globo’,sempre trazendo novidades.Gosto muito do seu ‘jeito verdade’ de fazer jornalismo.Nota-se sua sensibilidade ao narrar um fato,ao entrevistar uma pessoa,seja ela um ser comum ou alguém de destaque na mídia.Você faz jornalismo com a alma.Alguns o fazem com alguns caracteres…Quando crescer,quero ser igual a você…(risos)Abraços Sempre!(Obs.: O que poderia falar mais da Flip?Você já se antecipou e disse tudo o que eu queria dizer…(risos).

  5. Susan Dianne Mace Says:

    I too, went from enchantment to disappointment and on second thoughts, reversed to respect for what it has spawned as a result – interestingly, exactly because it lost much of its original cosy specialness and became a hit. Same old story, I suppose. Pity all the same.

  6. Regina Alonso Says:

    Ao final do seu depoimento, o qual lia em voz alto para meu marido com a voz embargada, agradeo a vc e a todos os artistas literatos, literatos msicos, historiadores escritores, escritores histricos ou ficcionais, jornalistas escritores, quadrinistas, que me fazem curtir cada momento da FLIP, que como vc, frequento desde a primeira edio.Foram vcs que me fizeram escolher a cidade de Paraty para morar aps minha aposentadoria. A FLIP me fez paratiense!

  7. Anônimo Says:

    S estive na Flip uma vez, acompanhando minha filha recm formada em jornalismo. Foi o ano em que o homenageado foi Manuel Bandeira. Para ns foi uma grande aventura (imagine a emoo da minha filha apertando a mo de Gay Talese e Zuenir Ventura e ter seus livros autografados (os do Zuenir ela j levou de casa). Tudo o que voc diz verdade. Aquela verdade que estava l o tempo todo mas a gente no sabia explicar. Sempre haver quem queira se aproveitar de uma boa idia. Mas tambm sempre haver quem no a deixe morrer. Obrigada por expressar em palavras o que sentimos e no sabemos explicar. Viva a Flip.

  8. celia meo Says:

    teste

  9. jane barbosa Says:

    Edney, sou sua f h milnios…mas devo te lembrar que, em Porto Alegre, acontece uma feira do livro a cu aberto h 57 anos. Autores, livros, leitores se encontrando. Viva a Flip, Passo Fundo, etc, todos que cultivam o livro, a cultura literria e a boa convivncia! Abrao!

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