Suspirar por Paraty

Por Isabel Coutinho *

Muito antes de eu pisado pela primeira vez o chão de Paraty durante a FLIP – Festa Literária Internacional de Literatura, em 2009, já os meus pés se preparavam para aquelas pedras. Tinha sido avisada pelo escritor francês Olivier Rolin, durante uma entrevista que lhe fiz em Lisboa, para a falta de equilíbrio provocada pelas pedras no caminho depois de mais uma rodada de cachaça. Também tinha ouvido o holandês Cees Nooteboom, a escocesa Ali Smith e o britânico Julian Barnes falarem da singularidade deste festival literário numa Paraty tão paradisíaca que, como argumentava Barnes, parecia o “Brazil for the English to see”.

José Eduardo Agualusa lembra sempre com emoção a primeira vez que esteve em Paraty ao lado de Caetano Veloso que acabara de conhecer. Também Ondjaki, Inês Pedrosa, Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto sabem que terem sido convidados da FLIP, em Paraty, foi importantíssimo para a sua projecção no Brasil.

Mas foram as descrições e entusiasmo do escritor português Miguel Sousa Tavares, que participou na mítica FLIP de 2004 e teve, em tempos, a ideia de fazer uma FLIP em Portugal, que me fizeram de uma vez por todas meter os pés ao caminho. Com as dicas do autor de “Equador” no bolso e os conselhos sábios do escritor Francisco José Viegas – actual Secretário de Estado da Cultura de Portugal, autor de “Longe de Manaus” que viveu no Brasil -,  lá fui para viver a festa naquela “cidade do século XVIII quase congelada no tempo”, como a descreveu Robert Dartnon.

Depois de quase duas décadas a cobrir feiras literárias internacionais, que vão da frieza de Frankfurt à ode aos bibliotecários que é a Book Expo America, encontrei na FLIP aquilo que nunca vi em outros lugares. Na Festa Literária Internacional de Paraty, acontecem coisas que não poderiam acontecer em nenhum outro lugar do mundo. Eu não sabia que havia quem se pendurasse em estruturas metálicas e subisse até à copa de árvores para ouvir falar de literatura. Vi isso na sessão de Chico Buarque e Milton Hatoum, em 2009. Eu não acreditava que houvesse um moderador capaz de amansar António Lobo Antunes em cima de um palco. Aconteceu na FLIP em 2010, com Humberto Werneck. Nunca imaginei que um escritor quase desconhecido podia transformar-se, de uma hora para a outra, numa ‘pop star’: vi isso acontecer, em 2011, com Valter Hugo Mãe.

Na FLIP em Paraty, e talvez seja da pinga mas eu não bebo, tudo lembra o paraíso. Chegamos lá e não queremos nem saber das fortes picadas dos mosquitos, dos preços exorbitantes cobrados por esses dias, das longas filas de espera nos restaurantes, da música infernal ao vivo, bar sim, bar não, e dos gritos dos bêbados que se prolongam noite fora quando tropeçam no centro histórico de Paraty. É tanto o entusiasmo pelo livro e pela literatura que até nos esquecemos do que foi preciso fazer para chegarmos até ali. Não basta querer ir à FLIP. É preciso gastar algum dinheiro e ter força de vontade para ultrapassar todas as etapas. Marcar uma pousada é uma saga: estão sempre cheias e, em média, os preços cobrados rondam mais de mil euros pela estadia nos dias do evento. Depois é preciso reservar os ingressos para as mesas. É um desespero até para quem os compra no Brasil. As sessões mais disputadas esgotam nas primeiras horas. Mas quando chega finalmente o dia e se desce no centro histórico daquela cidade brasileira que faz parte do passado de Portugal, depois de percorrer dentro de uma carrinha, e numa estrada cheia de curvas, os quilómetros que vão do Rio de Janeiro até Paraty, respira-se fundo. Sabemos que a partir dali, por alguns dias, vamos viver a literatura de uma forma inesquecível. E no fim vamos regressar a casa, do outro lado do Atlântico, e passar a ser mais um a suspirar pela FLIP em Paraty.

 

* Isabel Coutinho é jornalista do diário português PÚBLICO e assina a coluna de “Diário de Lisboa” na Ilustríssima. Foi pela primeira vez à FLIP em 2009 e tem regressado todos os anos.

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Uma resposta to “Suspirar por Paraty”

  1. Daysa Says:

    Com todo respeito aos outros escritores que comentaram fatos sobre a FLIP aqui no blog, Isabel Coutinho foi quem melhor descreveu as impressões causadas por essa festa… Hummm!

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