Memórias do quarto naufragado

por Joca Reiners Terron *

O quarto em que me hospedei em Paraty na edição de 2004 não existe mais. Ficava em um anexo da Pousada do Ouro e para entrar nele os hóspedes carregavam uma chave enorme e enferrujada que parecia resgatada de um navio pirata naufragado.

Carregar uma chave tão grande no bolso da frente das calças tinha implicações negativas e positivas. Primeiro, era um pouco incômodo. Segundo, podia atrair olhares e despertar vãs esperanças.

Não sei o que foi feito do quarto, cujo espaço estava à altura do tamanho da chave. Promovi algumas festinhas nele. Espero não ter contribuído para seu fechamento. Para se chegar ao anexo onde o quarto ficava, o hóspede era obrigado a atravessar uma parede, quer dizer, a entrar pelo portão de madeira que ficava (talvez ainda esteja lá) no muro em frente à praça da matriz. Desaparecer no meio da multidão que infesta a praça através do muro dava uma sensação meio fantasmagórica.

Participei como autor convidado em duas mesas da 2ª edição da Flip. A primeira foi inesquecível, ao lado dos amigos Daniel Galera e Marcelino Freire. A edição de 2004 foi a primeira a acontecer na Tenda do Autor como ela é hoje (na de 2003 os debates aconteciam na Casa Azul), e nossa mesa foi a primeira a acontecer nela. Portanto não exagero em dizer que eu, o Galera e o Marcelino inauguramos aquela tenda.

Também participei da última mesa, aquela em que convidados comentam e lêem trechos de seus livros preferidos. A daquele ano foi composta por Milton Hatoum, Margaret Atwood, Paul Auster, Martin Amis, Pierre Michon — e eu. Parece piada, e até deve ser. A platéia era tão estrelada quanto o palco.

Depois da leitura, na qual homenageei José Agrippino de Paula, mantive um diálogo curioso com José Miguel Wisnik em uma pizzaria. Ele disse “José Agrippino de Paula?”, ao que eu falei “É, José Agrippino de Paula…”. Ele então disse “José Agrippino de Paula!” e eu falei “José Agrippino de Paula!” e acabou. Foi uma honra conversar com o Wisnik.

Antes da mesa, porém, eu estava muito nervoso. Quando cheguei ao camarim, fiquei nervosíssimo, pois lá estavam Paul Auster e Martin Amis e ninguém além de nós. Eu havia levado um livro do Auster chamado “The Story of my Typewiter” para ele autografar. Mas quem disse que consegui falar uma palavra que fosse? Ele chegou a retirar delicadamente o livro de minha mão — já que eu não emitia nem sim nem não em resposta ao seu pedido — para mostrá-lo ao Amis. Era um livro de baixa tiragem cheio de ilustrações da máquina de escrever do Auster feitas por Sam Messer, amigo dele. A edição continua aqui em casa, sem o autógrafo.

Fiquei sem o autógrafo pois fui obrigado a sair do camarim às pressas, enquanto Auster mostrava o livro ao Amis. Quando fico muito nervoso como naquela ocasião, costuma me dar uma vontade tremenda e inadiável de ir ao banheiro. Era uma vontade daquelas, compreendem?

De modo que me enfiei naquele horroroso banheiro químico verde dos convidados — não sei se a cor era mesmo esta; talvez eu que estivesse verde — e fiz o que precisava fazer. Aliviou a tensão um bocado. O problema é que a descarga não funcionou. Pressionei e pressionei o botão (ou puxei a cordinha) e nada. Acabei desistindo. Fazer o quê?

Cheio de culpa, porém um pouco mais leve, abri a porta do banheiro químico. E me deparei com a beleza loura e diáfana e perfumada de Siri Hudsvedt, a mulher do Paul Auster. Estava sozinha na fila. Era a próxima. Siri Hudsvedt então sorriu simpaticamente seu sorriso de vikinga para mim, e entrou no banheiro.

Por diversos motivos, a Flip é mesmo inesquecível.

* Joca Reiners Terron, 29 de junho de 2012

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: