Com as lentes sobre a Bahia

Por Ana Liz Justo

No dia  5 de Julho, a Flip recebeu a fotógrafa Iêda Marques para participar do módulo “Festas de Paraty – Cultura e Identidade“, com o lançamento de seu primeiro livro, Iêda Marques – Lembranceiras, imaginário e realidade  (Solisluna Editora)

 Iêda foi ganhadora do Prêmio Marc Ferrez de Fotografia (Funarte), e tem seu trabalho exibido no Museu de Arte de São Paulo e no Museu da Casa Brasileira. Baiana e ativista ambiental desde a década de 70, ela trabalha sua fotografia visando sempre a valorização da riqueza cultural e natural da Chapada Diamantina e do Oeste baiano, explorando a caatinga e o serrado. A artista classifica seu processo criativo como intuitivo, trabalhando prioritariamente em função da cena e da luz que estão em frente à câmera, e usando como filtro apenas o olhar. 

 No livro, a autora explora a vida no sertão, as alegrias, encantos e agruras de sua paisagem e seu povo. Através de prosa e imagens, Iêda revela um olhar poético sobre atividades cotidianas, brincadeiras infantis e paisagens pouco conhecidas da Chapada Diamantina. Contextualizando fotos com palavras, o livro narra uma vida inspirada na rota leste-oeste, que marcou a trajetória de seu pai e refletiu-se em sua própria.

A obra reúne registros fotográficos obtidos desde a década de 80 até os dias atuais, e o texto foi maturado aos poucos, encorajado por professoras da Unicamp que a ouviram em uma palestra e insistiram para que ela escrevesse tudo aquilo que dizia. Sempre preocupada em estimular sua comunidade sertaneja à  voltar o olhar para a arte, Iêda percebeu que este público veria sua mensagem com maior clareza se ela fosse transmitida também em palavras. A narrativa do livro segue em um fluxo de conversa, pontuada por explicações, sem capítulos nem amarras, quase num bate-papo que convida o leitor a mergulhar em suas imagens e senti-las  profundamente. 

 Para a autora, o livro é principalmente uma extensão de seu ativismo ambiental e de seu engajamento na luta pelas causas sociais de seu povo. “Meu interesse é que a população rural veja como somos capazes, como podemos ousar, colocar o sentimento e a criatividade a serviço da nossa causa e da nossa própria subsistência”, explica a fotógrafa. Algumas das imagens que podemos ver em seu livro são registros de cozinhas, e com elas a autora sintetiza sua reflexão sobre sustentabilidade, e finaliza com um pensamento valioso: “Se você cuida da sua casa, você tem de cuidar da casa maior, que é o planeta.” 

Após esse lançamento em Paraty e outro em Salvador, o livro de Iêda será lançado oficialmente em São Paulo no dia 7 de Agosto, às 19h30, no Museu da Casa Brasileira

 Durante sua passagem pela Flip, tivemos a oportunidade de conversar com a autora. 

Flip: Qual a temática que você aborda em suas fotografias?

Iêda Marques: Tudo no meu trabalho diz respeito ao meu cotidiano. Sou uma ativista sócio-ambiental e minha missão é revelar a identidade cultural do meu povo. Minhas imagens registram de maneira simples e digna traços da cultura do oeste baiano e da Chapada Diamantina, que normalmente são vistos através dos olhos de pessoas de fora, como cineastas e dramaturgos que usam nossa terra como pano de fundo para suas histórias. Com as minhas fotografias, consigo mostrar para o povo desses lugares a terra em que eles vivem sob o olhar de uma deles, uma nativa. 

 

Flip: Como é o processo do seu trabalho e o que você leva em conta na hora de fotografar?

Iêda: O livro Iêda Marques – Lembranceiras, imaginário é realidade é o resultado de mais de 40 anos de trabalho. As fotografias foram tiradas com câmera analógica, que era a única que existia na época em que comecei. 

Todo meu trabalho, de 1992 para cá, baseia-se nos princípios da Agenda 21, como por exemplo trabalhar olhando para o meu canto, para o lugar onde eu vivo, constatando e mostrando o que é bacana e o que precisa ser melhorado, tudo isso de forma sustentável. Venho de uma família que trabalha com abelhas nativas brasileiras (indígenas sem ferrão), e valorizo a agricultura familiar, o fato de um povo poder se sustentar com sua própria cultura. Nas fotos, prezo pela simplicidade da cena que vou retratar, aproveitando ao máximo sua beleza natural.

 Flip: O povo das comunidades que você retrata têm acesso à essas obras? durante o desenvolvimento dos projetos você utiliza mão-de-obra local?

 Iêda: Todo meu trabalho é primeiramente visto pelas comunidades, e só depois é divulgado para o restante do país. Todo o trabalho rural que é feito no processo é derivado das pessoas da zona rural. Além disso, o livro foi 100% feito na Bahia. 

 Flip: Como foi que você se interessou e teve a oportunidade de trabalhar com fotografia?

Iêda: Eu nasci em Boninal em 1953, me mudei para Barreiras, no oeste baiano, em 1960 e em 1966 meu pai falesceu. Em 1969 me mudei com minha mãe e irmã para São Paulo, e chegando lá, logo quis conhecer o rio. Quando descobri que ele era cimentado e aprendi o que era esgoto – e que ele me impossibilitava de tomar banho e beber a água do rio – fiquei tão assustada que disse para minha mãe que queria voltar para a Bahia. Foi quando ela me explicou que em São Paulo a água que bebíamos e usávamos para tomar banho vinha de outro lugar. Ainda inconformada, comecei a ir à Estação de metrô da Luz para abordar as pessoas e perguntar de onde elas vinham e como sobreviviam naquela cidade. Um tempo depois fui estudar Pedagogia na USP, pois queria trabalhar com educação e poder voltar para minha terra e dizer para as pessoas não irem para São Paulo. Não concluí o curso, voltei para a Bahia, e lá fiz um curso de fotografia. Foi aí que descobri uma maneira de mostrar ao povo do sertão as belezas e problemas de sua terra de uma forma digna e bonita, e ensiná-los a pensar as coisas de uma maneira sustentável. 

 Flip: Qual a importância de estimular o olhar do povo do sertão nordestino para trabalhos como o seu?

 Iêda: É importante por causa da estima. Hoje estamos em época de seca, e eles estão lá sabendo que eu estou aqui, que vim lutar pelo meu trabalho e pela minha causa. Eles sabem que enquanto estou aqui consigo renda para depois poder gerar renda para eles. É importante mostrar para a comunidade que eles são valiosos, que o lugar onde vivem e aquilo que fazem têm beleza e valor.

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