A FLIP tornou-me escritor

Felipe Franco Munhoz recebeu, em 2010, a Bolsa Funarte de Criação Literária para escrever o romance Mentiras, inspirado na obra de Philip Roth. Em março deste ano foi convidado para participar de uma das comemorações do aniversário de 80 anos do escritor norte-americano, em Newark, EUA. Além de mediar uma mesa de debates, Munhoz leu trechos de seu romance, que assim como a obra de Roth, é constituído exclusivamente por diálogos entre personagens. Munhoz, que desde 2008 freqüenta a festa, conta como ela influenciou sua carreira literária.

Tom 2 - amarelinha

Tom Stoppard na Flip 2008

por Felipe Franco Munhoz

Recebi, em maio de 2008, um telefonema definitivo de minha prima Elisabeth. Eu cursava Comunicação Social no Paraná, havia acabado de completar dezoito anos e demonstrava crescente interesse por leituras em ficção e poesia. Desde a adolescência, fui conhecendo e descobrindo o cânone literário. Kafka, Joyce, Kundera. Aos poucos, aqueles autores reclusos, estranhos, tornavam-se meus heróis idolatrados.

Exatamente quando Beth Já ouviu falar sobre a FLIP?, em Paraty; então, você pode ficar hospedado lá na minha pousada.

“Seria fantástico.”

“Vão pessoas do mundo inteiro. Uma grande experiência.”

Chegando em Paraty, sozinho, caminhei da rodoviária à Pousada da Marquesa. Era noite, eu estava exausto da viagem, maravilhado com o centro histórico – igrejas e casas e pedras – e apaguei até a manhã seguinte. Até despertar ávido por conhecer a cidade, a livraria especial da festa e aguardar pela conferência de abertura: Roberto Schwarz discorreria sobre Machado de Assis.

No refeitório da pousada, para o café da manhã, havia um senhor – alto, solitário, elegante – escolhendo sua refeição. Ele apresentou-se, estendendo-me a mão, Hello, I’m Tom. No refeitório rústico, vazio, sentamos juntos e conversamos durante horas. “De onde você é, Tom?” “Londres.” “Primeira vez aqui no Brasil?” “É minha primeira vez na América do Sul.” Clima. Frutas tropicais.

Juntaram-se a nós mais dois casais estrangeiros. Ingo e Natalia, alemães; Cees e Simone, holandeses. Turistas do mundo inteiro, pensei; Inglaterra, Alemanha, Holanda – vieram de longe para assistir a debates entre escritores. Vieram atraídos por escritores!, magnífico! E prosseguimos o assunto matinal das menores trivialidades. Como é difícil andar nessas pedras. Viajo na segunda-feira. Caipirinha.

Em torno das onze, deixei a Marquesa a fim de comprar alguns livros – antes que se esgotassem. Alertaram-me: os livros desaparecem logo após suas respectivas mesas. Na livraria, localizada frente à Tenda do Telão, próxima à Praça da Matriz, arrematei um romance – O despenhadeiro – de Fernando Vallejo, uma peça – Rock’n’Roll – de Tom Stoppard e o jornal do dia. O Globo, se não me engano.

A capa do jornal apresentava uma fotografia do dramaturgo Tom Stoppard. Sir Tom Stoppard, tcheco de nacionalidade inglesa. Que tinha os mesmos olhos do meu novo amigo Tom, a mesma boca, o mesmo rosto de Tom, do mesmo Tom londrino do café da manhã. Eu não podia acreditar. Era o mesmo cavalheiro que nunca visitara a América do Sul e interessava-se por rodelas de abacaxi.

Além de Tom Stoppard, percebi também no Globo, eu fizera amizade com Ingo Schulze, Cees Nooteboom e suas esposas. Assumo a ignorância inicial – sem colocar a desculpa em meus dezoito anos – de não reconhecer os gênios no refeitório. De qualquer forma, seguiu-se uma semana ímpar; repleta de surpresas, descobertas, aprendizados.

Passou rápido.

Ingo Schulze avisou-me que regressaria para a Europa. Fiquei triste, abraçamo-nos e ele presenteou-me com seu livro de contos Celular: treze histórias à maneira antiga. No saguão da Marquesa, enquanto nos despedíamos, o contista alemão escreveu uma dedicatória indecifrável. Para Felipe, Con Valmti Ingo Schulze Paraty 03.07.08. Dois momentos decisivos, definitivos: o telefonema de minha prima Elisabeth; o presente de Ingo.

Eu produzia letras de música, em versos, desde que aprendi a tocar guitarra na adolescência. Consciente de que não conseguiria elaborar personagens como Gregor Samsa, Stephen Dedalus ou Capitu, personagens muito distantes de mim, jamais cogitava arriscar narrativas em prosa. Eu não presenciara a Primavera de Praga, tampouco sofrera metamorfoses. Faltava-me algo palpável.

Apenas ao ler Celular, de Ingo, percebi o quanto seus personagens eram Ingo, eram o homem que eu conhecera – ainda que travestidos com outros nomes e idiossincrasias. Apenas assim percebi o quanto Gregor Samsa está próximo de Franz Kafka. E o quanto a minha vida poderia estar próxima de um personagem ficcional, inventado. Eu poderia, sim, aproveitar minha experiência, mesmo que escassa, e arriscar a prosa.

Fiz um conto, Grão de arroz, sobre meu primeiro amor. E nunca mais parei. Passei a escrever todos os dias, sete, oito horas por dia; tenho a impressão de que será meu ofício até morrer. Diferentemente de Tom Stoppard, de quem continuo amigo, perdi o contato com Ingo Schulze. Não pude agradecê-lo pela imensa porta que Celular me abriu. Graças a qual me tornei escritor. Graças a Ingo, Tom, Cees, à minha prima Beth – mas, sobretudo, graças à FLIP.

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Uma resposta to “A FLIP tornou-me escritor”

  1. gilmara Says:

    eu e minha amiga Cecília conhecemos o Felipe na mesma Flip 2008 e sentíamos uma certa inveja quando ele nos falava desses bate-papos com os escritores. Agora estamos felizes em acompanhar o crescimento dele como escritor, fazendo parte da turma que admiramos!Parabéns! Com certeza aquela Flip foi uma das melhores!

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