Francisco Bosco: um atalho furtivo dentro do caos

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por Vinicius Jatobá*

Em Alta Ajuda, seu livro mais recente, o compositor e ensaísta Francisco Bosco reúne um variado e abrangente conjunto de artigos publicados originalmente no jornal O Globo. Lidos no jornal, espaço descontínuo, os textos de Bosco são caprichosos exercícios de desconforto. Aparentam crônicas, pela sua escrita agradável, fluente, e por sua brevidade; e flertam com a crônica por tomarem de sua tradição temas-chaves como a amizade, o amor, o desencontro. Seus artigos ambicionam mais, no entanto. São uma oportunidade para Bosco ir além do senso comum, que tanto o incomoda; e um convite ao leitor para frear o ritmo sôfrego com que vive, ainda que pela curta duração do texto que está lendo. Pensar, sentir, sorver um estímulo distinto da linguagem epigramática das notícias do jornal, das frases-feitas da propaganda que os circundam, e levar algo do texto para seu mundo. Um dos prazeres de ler semanalmente Francisco Bosco é perceber o quanto ele está “fora do lugar”. A linguagem trameira e molenga com que escreve seus artigos, não tanto os tema, mas o que deles apreende, e o pouco espaço com que dispõem para traçar e realizar o arco de seu pensamento, fazem de sua coluna um corpo estranho. E essa é sua graça. Há articulistas cujo prazer está em discordar com eles, e outros cujo afã está na irritação semanal que provocam. Com Bosco a relação é mais singela: ler seus artigos é acompanhá-lo por um atalho furtivo dentro do caos de palavras e de imagens do jornal. Ler Bosco é frear.

Uma vez em livro seus artigos ganham outro estatuto. A primeira metamorfose é que estão em baile uníssono e não mais brigam com os sons hegemônicos em seu redor, que os transformavam em intervalares ruídos: agora convivem, enérgicos, em espaço fraterno. Não apenas recuperam a mesma tome e voz, que o sabor da leitura longínqua da semana anterior pode apagar da memória, mas agora lado a lado constroem sentidos juntos. Tornam-se peças em um quebra-cabeças do pensamento de Bosco, e revelam regularidades de questões e de preocupações. A anterior pletora de artigos sobre relações amorosas, lidas no jornal como pequenos e isolados casos curiosos, comédias ligeiras, revelam-se em conjunto ocupadas com os limites do aprendizado do outro, os termos por meio dos quais duas subjetividades travam um idioma em comum. Os inúmeros perfis de músicos, agora aproximados no livro, tornam-se uma reflexão de como, por meio de suas letras, da forma como cantam e dançam, inventam subjetividades e comportamentos, a até ritualizam em seus corpos e cadências conflitos de recalque e de legalidade. A maneira como se debruça sobre escândalos de celebridades – Tiger Woods, Ronaldo Fenômeno, Belchior –, que isoladas no jornal adquirem certo humor, reunidas no livro fazem uma soturna radiografia dos conflitos entre privado e público, e sua exploração cínica pela mídia. Quando pensa no juiz de futebol, desvela a desconfiança nacional com a lei; quando suspeita do mural do Facebook, arranca dele sintomas de uma crescente autopromoção esvaziada; ao ler manuais de autoajuda, preconiza o poder do pensamento negativo.

No entanto, o grande personagem de Alta Ajuda é o narrador-intelectual que Bosco tão habilmente constrói. Ele pensa, desconstrói o mundo; mas antes de pensar e desconstruir precisa construir. E ao longo dos artigos reunidos Francisco Bosco vai pincelando, com clareza e propósito, o espaço desse personagem Francisco Bosco. Sua estratégia para escapar da nomeação de seus textos como crônica nasce da defesa de que seu narrador é diferente do narrador-cronista habitual. Ele ama a solidão, e prefere estar na companhia de livros; a bebida, antes da ponte para confraternização na tradição cronística, é mais o motivo pelo qual suporta a companhia das pessoas; casado, ele não está sem sono por um amor perdido e aventuroso solto pela madrugada carioca, já que sua insônia faz com que encontre a companhia de sua única amante de interesse, sua própria voz, que pensa; as diversões mundanas, rueiras, estão na infância e adolescência, e sua saúde é mantida apenas no limite para que torne seu corpo saudável o bastante para estar doente por conta de sua sensibilidade reflexiva. Apesar de ocupar o espaço da crônica no jornal, e de se aparentar muitas vezes com a crônica, o narrador-intelectual de seus artigos é um anticronista por excelência. Toda essa estratégia narrativa tem uma única finalidade: reclamar para o jornal o espaço do filósofo. Seus atalhos furtivos assim são passeios no coração da torre de seu isolamento de onde, alheado por escolha, isolado por vocação, fora do contemporâneo, flerta com graça o leitor e lhe lança uma perturbação semanal.

*Vinicius Jatobá nasceu em 1980. Formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), doutorou-se em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Como crítico literário, colabora atualmente com o jornal O Estado de S. Paulo e com as revistas Bravo! e Carta Capital. Após publicar contos em diversas antologias, foi escolhido pela revista inglesa Granta, em 2012, como um dos 20 melhores escritores jovens brasileiros. Seu primeiro livro de contos, Apenas o vento, será publicado em novembro desse ano pela Editora Bateia. Ainda atua na área de produção de eventos, recentemente assumindo a curadoria-geral do Primeiro Fim de Semana do Livro no Porto, que ocorreu em 2012, no Rio de Janeiro.

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