Lydia Davis em três atos

Lydia Davis

 

por Vinicius Jatobá

 

LER LYDIA DAVIS: PRIMEIRA APROXIMAÇÃO

Tipos de perturbação está classificado como ficções. Não como contos, o que seria natural, e esperado. Mas como ficções, o que em parte incluiria contos, uma vez que contos são ficções, mas não seria tão exato com a experiência de se ler Lydia Davis quanto usar ficções, como é mais apropriado. Isso porque apesar de todas as narrativas de Tipos de perturbação serem contos, nomeá-los como ficções prepara o leitor para aquilo que irá encontrar. Isso porque, mais um motivo, e apesar, novamente, de serem contos, eles são contos a despeito do que Lydia Davis opera com seus narradores enquanto escreve suas narrativas.

Quando o leitor tem diante de si um conto ele tem uma expectativa do que vai encontrar no texto. Um arco narrativo poeticamente concentrado, um narrador focado no desvelamento emocional de uma única situação específica, e um senso de tempo e espaço elegantemente delineado. É o que se encontra em Tchekhov e Maupassant, dois contistas canônicos; e ainda que Hemingway, Joyce e Mansfield tenham expandido e recodificado esses elementos, ainda assim eles existem nos seus exóticos e distintos contos. Há um idioma, uma gramática. Davis tem plena consciência dessa gramática, desse idioma; o que ela faz é desnudar o conto tão completamente desses elementos que o que sobra, se for nomeado de conto, provocaria frustração na expectativa gerada no leitor. São, portanto, ficções. Ainda que sejam contos, uma vez que o leitor alfabetizado na gramática narrativa do conto preenche, com a memória de suas outras leituras, aquilo que Davis escolhe omitir.

LER LYDIA DAVIS: SEGUNDA APROXIMAÇÃO

A maior aposta de Lydia Davis é na inteligência do leitor em preencher o espaço em branco em redor ao texto, tão econômico e preciso, com seu conhecimento de como o gênero conto opera. Sua ficção, assim, demanda inteligência, e afina a sensibilidade. E Davis coloca todas suas cartas, sua operação narrativa sofisticada, à mesa. O contraste entre duas ficções do livro iluminam bem essa aposta de Davis. Em “Rumo ao sul, lendo Piovarante Marche”, o narrador descreve uma viagem de um personagem jamais nomeado rumo ao sul. Há frases assim: “Ônibus saindo da estrada, sol por trás, sol em volta e na janela e na página, não lê”. Em todas as ficções frases assim são usadas para avançar a narrativa. O que Davis opera nesse conto é o uso de notas de rodapé que descrevem, usando uma gramática narrativa canônica, o que a personagem sente durante a viagem, lendo o livro, e olhando através da janela.

Ela escreve no texto da ficção (mais bem fora do texto: a nota de rodapé acontece fora do texto) justamente os processos de preenchimento que o leitor realiza enquanto lê seus textos: investir sua imaginação no espaço lacunar, intervalar. Isso fica evidente em uma belíssima ficção no final do livro, “Viajando com Mamãe”. Três páginas, seis capítulos. Uma filha viaja com sua mãe. Mas logo não é sua mãe, mas as cinzas dela. Ela prefere deixá-la na mochila, “mais perto da minha cabeça”, ao invés de despachá-la na mala “de rodinhas”. Depois, em outro capítulo, a narradora afirma que sair da cidade parecia “tão definitivo” que talvez “precisaria trocar de dinheiro no lugar para onde estávamos indo”. Depois de um espaço em branco na página, afirma: “Antes, ela não conseguia sair de casa. Agora está em movimento.” E no último capítulo, afirma “Faz tanto tempo que não viajamos juntas”.

Alice Munro, a melhor contista em atividade, exploraria essa trama de doença, distância afetiva, fuga de memórias do passado e luto em mais uma de suas pérolas de 30-40 páginas. A gravidade soturna da doença que entrava a mãe, a aproximação difícil de uma filha que está distante e alheia, a culpa pela leveza que a promessa de uma nova vida gera naquele que é libertado pela morte de um ente querido debilitado. Só a frase “faz tanto tempo que não viajamos juntas” levaria Munro a uma exploração de camadas sobre camadas de silêncios, ressentimentos, e desejos sonegados. A aposta de Davis é distinta, pois ela é uma brilhante humorista. Esse é o ponto que faz com que salte de uma mera formalista, apostando em geniosas estratégias narrativas, para uma poeta da solidão contemporânea. De toda a gama de sentimentos que Munro exploraria, Davis escolheu o único sentimento que escaparia a Munro: a ironia de que somente com as cinzas da mãe em um embrulho na mochila finalmente elas podem conviver, estar juntas, e conversarem. A mãe, agora, está “perto” da cabeça. E está, após anos doente, novamente saudável, “em movimento”. A narradora termina a ficção com a luminosa frase “Há tantos lugares aonde podemos ir”. E, assim, selando essa nova relação filial com a promessa feliz de cumplicidade que jamais conquistaram em vida.

LER LYDIA DAVIS: TERCEIRA APROXIMAÇÃO

Grandes artistas não temem o humor quando o humor tempera e ilumina aquilo que veem de singular em suas apreensões do humano. O humorismo de Davis alia uma atitude com seu natural sintoma. O mascaramento, e os naturais impedimentos que essa atitude acarreta. Octavio Paz, ao refletir sobre o humorismo em Dom Quixote, encontra o elemento por meio do qual entende o comovente universalismo do Cavaleiro da Triste Figura: o mascaramento de uma figura frágil com o rosto de um herói, valoroso e inquebrável, que Alonso Quijano, por seus atributos, jamais poderá cumprir. Do desencontro entre aquilo que Alonso realmente é e a máscara de Quixote que ele usa faz com que pense que seja que nasce o triste humorismo do romance: o leitor ri desse desencontro, pois Cervantes desde o início, ao criar Sancho, abre espaço para o comentário divertido e jocoso dessa contradição. No entanto, o universalismo e a tragédia nascem quando Cervante habilmente torna o próprio Sancho em doente de ficção, e Quijano um homem pragmático e descrente. E isso porque o leitor percebe que tem suas máscaras, e vive também os sintomas desses desencontros entre seus sonhos, e a realidade de suas vidas. E isso é, segundo Paz, o coração do humorismo, e sua potencia poética.

As máscaras das personagens de Davis são os papéis que elas esperam cumprir com precisão – seja de mãe e filha, e de amiga e esposa –, e os sintomas são pensamentos, vozes, repletos de impedimentos, que em casos mais ligeiros tornam-se impasses, mas em situações mais morosas rituais metódicos de imolação. É aqui que a forma das narrativas e a visão poética de Davis casam: sua prosa esparsa, nua, serve ao tipo de experiência por meio do qual pode explorar essa sua visão de mundo uma vez que as perturbações que narra, ainda que toquem nos amplos sentidos ressonados pelos temas de isolamento, de solidão e de medo, precisam apenas de um gesto para serem concentradas poeticamente. A construção de um arco com começo, meio e fim não contribui para a intenção de Davis de explorar o instante em que aquilo que seu personagem pensa de si e aquilo que ele realmente é entram em cisão, e diálogo.

Então as ficções de Davis são repletas de gestos que carecem de sentido épico. Suas mulheres arrumam suas casas, cuidam de seus filhos, escolhem empregadas domésticas, falam ao telefone, conversam com seus maridos; ou traduzem e dirigem documentários, e cuidam de inventários. Apenas não fazem nada disso. “Em pouco tempo quase todo assunto de que querem falar lembra mais uma cena desagradável e se torna um assunto de que não podem falar”, ou “Ela não pode dirigir quando há muitas nuvens no céu. Ou melhor, se conseguir dirigir com muitas nuvens, o rádio não pode estar ligado se houver também passageiros no carro”, ou “Ninguém me liga. Não posso verificar se tem recado na secretaria eletrônica porque não saí de casa. Se eu sair, talvez alguém ligue enquanto estiver fora. Aí poderei checar se há recados quando voltar”. Assim, essas ficções, que aparentam monólogos, comportam em si algo mais espraiado: a conversa interior entre máscara e essência, em busca de uma solução para vencer os impedimentos, e suspender os rituais de imolação. O humorismo de Davis é tristonho, quando o leitor segue namorando o resíduo da leitura em sua memória; e acaba identificando nesse resíduo suas pequenas muralhas, e seus inescapáveis ritos de auto-isolamento.

Para uma grande artista, um gesto basta.

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