Archive for julho \10\UTC 2013

Deixa disso, rapaz

10-07-2013

Nicolas Behr

 

O poeta Nicolas Behr na mesa Maus Hábitos, na Flip 2013

*por Vinicius Jatobá

Maravilha é isso: esbarrar com um escritor do qual a gente nunca ouvir falar, e imediatamente se tornar amigo dele. Nicolas Behr é meu mais novo amigo: sua poesia atingiu primeiro meu emocional, meu sentimental, e ficou um tempo por isso mesmo. Provocou, depois do sorriso, reflexão: convidou em buscar referências, em criar parâmetros, em esboçar um argumento. Mas logo na releitura é como se Behr me dissesse deixe disso rapaz, e há muito para rir e se espantar em sua poesia, um tom que vai desarmando qualquer pretensão e ideia pré-concebida, e é assim que eu e Nicolas Behr nos tornamos amigos de toda vida. Tenho certeza que há algo muito importante a se dizer sobre qualquer um de seus livros, e que em suas métricas e paródias e enfrentamentos com Brasília e toda sua mitologia de burocratas e de fantasmas de JK e de Asas Norte e Sul e de Planos Pilotos, Behr explora algum sentido ético e estético que me escapa nesse exato momento, não porque Behr não mereça uma reflexão sobre sua obra poética, claramente poderosa e original, mas porque sempre que comecei a escrever uma resenha sobre Nicolas Behr desde que me comprometi com o blog da FLIP em escrever uma resenha sobre Nicolas Behr, e fui em algum de seus livros para me fundamentar, era como se Behr me dissesse deixa disso rapaz, não nos levemos tão a sério. Behr, como todo artista consciente, sabe dos efeitos que provoca. “Eu finjo que sou um poeta fácil / você finge que faz força para me entender”, dois versos que estão em um de seus poemas, e o crítico fica logo desarmado porque há engenho e controle na estranha locução vernacular sobre o qual Berh constrói sua poesia, e o crítico sabe de partida que o entendimento desses versos não está no esforço, mesmo que seja evidente que Behr se esforça muito para soar assim sem esforço, um “poeta fácil”, e o entendimento para esses poemas está em algo mais singelo e simples, algo mais relaxado e simples e essencial. Aqui e ali Behr desvela sofrimento, há um ocre de ansiedade, um cheiro de ditadura, uma lembrança infeliz tão embaçada na geografia da cidade que ele arma e desarma, namorando a própria geometria de seus versos com a Brasília arquitetada e construída, com suas superquadras e suas avenidas e seus endereços de siglas, sem nomes e sobrenomes, mas logo Behr convida ao baile o Eros e a Lua e os cheiros do Cerrado, e até seu querido fantasmal JK, e um rumor mais jocoso e desencontrado retorna, assume o coro, e convida mais uma vez ao sorriso, aos jogos de palavras e corpos, ao inesperado lirismo do concreto e das linhas retas. E aí Berh diz deixa disso rapaz, salve o arquivo e feche o texto com o que você já tem, e envia logo pro blog da FLIP. E faço isso, porque Nicolas Behr é meu amigo, e confio nos amigos.

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Construindo a nova literatura brasileira

05-07-2013

José Luiz Passos e Paulo Scott

João Gabriel de Lima (mediador), José Luiz Passos e Paulo Scott na mesa Formas da derrota

*por Vinicius Jatobá

Esse ano Paraty encontra-se privilegiada: há uma exuberância de excepcionais novos talentos da narrativa nacional. Estarão em suas ruas coloniais quatro escritores jovens em pleno controle de suas criatividades: Daniel Galera, Paulo Scott, José Luiz Passos (na programação principal) e Michel Laub (na programação paralela). É inegável que está chegando o momento em que não é mais necessário, nem pela crítica e muito menos pelas próprias editora, superestimar os livros: agora eles existem, provocativos e maduros, enfrentando diferentes regiões do imaginário nacional, expandindo seu léxico (Laub, Scott), ou reformulando-o (Galera, Passos), e assertivos enquanto realizações estéticas. Nenhum desses escritores escreveu ainda sua obra-prima, estão no começo de suas trajetórias, e isso entusiasma. E seus melhores livros possuem fissuras e problemas e questões que sugerem mentes em movimento, inquietas. Esse é um bom momento da literatura brasileira. Ao contrário do lugar-comum, não procede sugerir que apenas o tempo dirá o que realmente é bom na literatura de determinado momento. Não há nada de ameaçador em celebrar a excelência atingida no momento presente, e a bengala da passagem do tempo é muitas vezes escudo ansioso, um álibi para economizar na admiração, sonegar admiração. Se existem contextos que tornam alguns livros mais visíveis que outros, a prova a olho nu é sempre fatal: Habitante Irreal, Barba ensopada de sangue, O sonâmbulo amador e Diário da Queda possuem autoridade emocional e estética, e são momentos pilares e seminais na construção de uma nova literatura brasileira.

O mais velho de todos, Paulo Scott, escreveu o livro mais selvagem da literatura brasileira recente, Habitante Irreal.De certa forma, o livro acontece apenas em dois momentos: as longuíssimas notas de rodapé que iniciam e terminam o romance, e contextualizam o enredo. O resto é vômito, desconforto, frustração; mas também mitologia, e meta-literatura. Paulo, protagonista do romance, é um advogado recém-formado descrente com os caminhos políticos do PT. Estamos em 1989. Em uma viagem de carro cruza com uma índia na beira da estrada; ele retorna para oferecer uma carona, e se apaixona; depois tem um filho, que desconhece, com essa índia. Parte para Londres, onde se entrega a uma vida desregrada em que deseja apagar seu desconforto com o que acontece com o Brasil, que é o Brasil do Collor, das privatizações, da esquerda subtraída pela mídia. Paulo retorna ao Brasil. Há encontros, desencontros.

A grande fortaleza do livro é sua linguagem. O livro é um torrente de palavras cuspidas, uma prosa veloz e agregadora que mistura tudo, diálogo, descrições, passagens de tempo, reproduzindo na forma a degradação ideológica do mundo ao redor de Paulo.É uma leitura-transe onde não importa o que acontece, e sim comoacontece. Para aumentar a confusão, Scott ainda deflagra um passeio pela nossa tradição indigenista: um dos elementos-chaves poéticos e intelectuais do Romantismo na construção de uma identidade nacional foi o “índio”, a manipulação dessa personagem no imaginário, e Scott, com Donato, o filho mestiço de Paulo, acaba por revolcar um espaço fundacional de nossa tradição literária, trazendo-o para o campo duro da luta ideológica. Nem Policarpo Quaresma, e muito menos Macunaíma,Habitante Irrealainda não deixa de compartilhar com esses clássicos uma energia amalucada, tornando-se assim uma dolorida sátira mal-humorada, uma vomitada carta de amor contemporâneaao hospício que o Brasil se tornou.

Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera é um momento de inflexão na obra de seu autor. Seus romances Mãos de Cavalo e Cordilheira, e também a brilhante novela Até o dia que o cão morreu, são precisos exercícios de autocontrole e de economia, narrativas de rédeas em constante refreamento. Isso porque as personagens de Galera são falidas emocionalmente: o médico de Mãos de Cavalo, a escritora de Cordilheira, e o tradutor de Cão encontram-se entravados, conspirando impasses, e as suas nos romances sempre começam com uma ação – escalar uma montanha, cuidar de um cachorro, engravidar – que entendem como um compromisso capaz de retirá-los de seus próprios impasses: seja voltar a escrever após anos de silêncio, ou corrigir a frustração com um emprego opressivo, ou até mesmo construir uma vida adulta realmente madura.

Apesar da pouca idade, Galera tem uma poética já definida: os entraves emocionais, as zonas de silêncio entre homens e mulheres, o conforto encontrado na solidão, os limites físicos do corpo.O romance Barba possui todos esses elementos. O protagonista, após o suicídio de seu pai, decide partir para Garopaba, cidade catarinense litorânea onde seu avô foi vítima de um misterioso assassinato. Leva consigo a cadela Beta. Mas essa não é sua única bagagem: seu próprio rosto e gestos e voz lembram seu avô Galdério, e a pequena cidade começa a se tornar algo desconfiada de sua presença conforme ele junta os pontos em redor do mistério desse assassinato. A inflexão de Barbaestá na forma algo descuidada e prolixa com que a narrativa avança: a prosa suja, encardida, repleta de redundâncias, informações algo supérfluas, mesmo que esse excesso de detalhes esteja em sintonia com a doença do protagonista (ele esquece o rosto das pessoas mesmo momentos antes de encontrá-las), é uma novidade no trabalho de Galera. Barba é o primeiro embate de Galera com um prosa realista, uma prosa que não foge nem da superfície dos objetos, de uma relação descritiva com o mundo. É um livro de ajuste em sua trajetória: tanto a prosa arrisca, quanto o personagem é diferente: ágil, proativo, curioso, aventuroso, representa uma nova atitude narrativa de Daniel Galera. Esse romance coloca Galera em posição para se tornar um escritor algo incomum na literatura brasileira: um retratista cuja obra, por conta dessa prosa que alia a observação psicológica anterior com esse novo interesse pela exterioridade do mundo, pode envelhecer refletindo os dilemas do Brasil contemporâneo, exatamente como escritores estadunidenses como Roth e DeLillo que claramente influenciaram seu trabalho.

O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos, é um romance brilhante. A FLIP que celebra o legado de Graciliano Ramos pode estar justamente abrigando seu filho esporão mais engenhoso: sonâmbulo, como o melhor de Ramos – S. Bernardo, Memórias do Cárcere e Angústia –, estabelece uma geografia narrativa prenha, misto de deambulação subjetiva e de crítica social. Exatamente como em Angústia, a narrativa tem o sabor de um sonho ruim: indo e voltando no tempo, com uma qualidade ruminante, zonza, o título é perfeito: sem discernir o que é realidade e o que é fantasia, ou o que é memória ou rastilho de sonho, o relato de Jurandir provoca mais dúvidas do que certezas, e investe na instabilidade constante da narrativa. Jurandir tem uma dor profunda, que ao final do livro se revela com a força de um recalque cujo “livro”, um conjunto de quatro cadernos, é a tentativa de aplacar; e seu afeto pela esposa e sua amantes, o conforto distinto que encontra em cada uma delas, são apenas duas faces de uma mesma moeda: seu desejo de sempre querer aquilo que não está ao seu alcance.

Sua vida é organizada em redor de mentiras, e numa viagem a capital, por conta de um processo de um funcionário da empresa têxtil em que trabalha, e sufocado pelo seu asfixiante desejo de correção, simplesmente toca fogo em seu carro. É internado em uma clínica; e a narrativa, os quatro cadernos que mantém durante sua internação, é a tentativa de encontrar novamente sua saúde. Há no livro o mesmo cenário de Ramos – a pobreza e exploração e faltas de oportunidades, e a transmissão intocada de uma cruel lógica fundiária para a indústria, que em Ramos, principalmente em Vidas Secas, parece imemorial –, mas a deambulação avança em termos mais contemporâneos: sonhos, contra-relatos, fragmentos. Passos se alimenta de boa parte da tradição literária do Nordeste: além de Ramos e Rego, é possível rastrear também a sombra dos primeiros romances de Osman Lins, tanto O Visitante quanto O Fiel e a Pedra, no esforço em criar um realismo social com uma linguagem onírica, subjetiva, que avança por metáfora e arquétipos de nossa subjetividade.

Michel Laub é um talento peculiar: publica tão regularmente, e com uma qualidade tão alta, que não sugere sua pouca idade. Michel Laub mal completou 40 anos. Sua invisibilidade se deve a uma peculiaridade de seu talento, ao qual se manteve sempre fiel: Laubé o único escritor brasileiro contemporâneo que se dedica exclusivamente ao gênero mais difícil de todos: a novela. Foram cinco até o momento, todas igualmente brilhantes e tramadas. Bem temperadas, e escritas no equilíbrio exato entre contar e esconder, revelar e sugerir, cada cobre uma experiência emocional completamente diferente da outra.

Desde o juiz enfrentando um dilema moral em Música Anterior, em que problemas pessoais acabam por influenciá-lo negativamente em um processo em que trabalha, passando por Longe da Água, relato de culpa e expiação que é algo geminada do deslumbrante Diário da Queda, em que seus narradores repensam a formação intelectual e afetiva de suas vidas a sombra de erros cometidos na juventude, a primeira revisitando um verão mágico e o último revolcando lembranças do Nazismo e Auschwitz, até o subestimado O Segundo Tempo, um livro que parte da experiência de dois irmãos como espectadores de um grande clássico do futebol gaúcho para explorar os impactos de emocionais do divórcio de seus pais, e finalmente pousando na divertida comédia intelectual O Gato Diz Adeus, em que toda parcimônia emocional de um casal é colocada em cheque quando surge na vida deles um terceiro elemento, um sedutor professor universitário. Impressiona a pletora de interesses e personagens, a sua sensibilidade para dramas de classe média, pequenos, focados e intensos. Os livros de Laub não ultrapassam as 150 páginas, o que diz imensamente acerca de seu talento: existe sempre a sensação de que acontece muita coisa em seus livros porque Laub faz os elementos emocionais paralelos de suas narrativas convergirem com extrema economia. Como Laub opera o mesmo efeito de forma diferente em cada narrativa é um toque admirável de engenho e controle técnico e expressivo que nem mesmo em releituras fica evidente.

Paraty, dessa forma, se dá o luxo de abrigar, em sua 11 FLIP, uma quantidade exuberante de talento nacional esse ano. Não se pode encarar esse privilégio de forma gratuita: escritores com essa potencia e qualidade são raríssimos, e que quatro deles se reúnam no mesmo lugar, na mesma semana, é uma oportunidade rara de celebração e de leitura. Cada um, de seu modo, está colaborando na escrita de um novo capítulo de nossa história cultural. E um capítulo que deixou de ser promissor, abandonou a qualidade de rascunho, e agora passa a ser escrito em caligrafia firme e de letras fortes. O mais instigante, e interessante, é que os melhores livros de cada um desses autores ainda está por vir. É esperar, apertar os cintos, e reler o que já publicaram enquanto suas novas pérolas não chegam.

Milton Hatoum: efeito duplo

03-07-2013

Milton Hatoum 2008©Adriana Vichi

por Vinicius Jatobá

O novo livro de Milton Hatoum, Um solitário à espreita, tem efeito duplo. De um lado gera felicidade uma vez que todo ano que Hatoum publica um livro é um bom ano para a literatura brasileira. Por outro, apenas aumenta a ansiedade dos leitores. Um solitário é uma reunião de crônicas e diversos textos esparsos que Hatoum publicou em revistas e jornais de grande circulação, com destaque para O Estado de S. Paulo. A obra de Hatoum é poderosa: uma belíssima estreia com Relato de um certo oriente, romance-coral que mergulha nas lembranças de uma família manauara reconstituídas por uma mulher retornando do exílio; segue com Dois Irmãos, um relato passional e enérgico acerca do esfacelamento de uma família de comerciantes por conta do amor desigual dedicado por um mãe a seus filhos gêmeos; e depois com o cerebral e cinzelado Cinzas do Norte, mais um relato de decomposição familiar agora centrado no desencontro entre dois amigos, um abastado filho de latifundiário de Juta e um rapaz filho criado pelos seus tios. Hatoum ainda publicou a novela Órfão do Eldorado, uma fanática novela de amor infeliz em que a riqueza da borracha, que prometia a toda região amazônica um futuro áureo, entra em decadência ceifando o destino de toda uma família. Para arredondar esse percurso, Hatoum publicou a coletânea de contos A Cidade Ilhada, em que retoma a temperatura de sua Manaus afetiva, mas também leva sua ficção para outros espaços, como Paris, Brasília, Califórnia, e Rio de Janeiro. Entre Relato, de 1989, e Cidade, de 2009, duas décadas se passaram. A obra de Hatoum, com cinco livros, é magra, mas poderosa.

Um solitário à espreita vem se juntar ao bojo. Como toda coletânea de crônicas, é um livro irregular. Há textos que trazem toda graça e desenho da escrita vernacular e veloz que Hatoum consegue em suas melhores ficções; e outros, como acontece em muitas crônicas, parecem engasgados pela necessidade do cronista em escrever algo para cumprir o compromisso do encargo semanal ou quinzenal. Há um conjunto de textos do livro que poderiam tranquilamente compor uma nova coletânea de contos; e há fragmentos que parecem, ainda que com nomes distintos, trechos não aproveitados em seus romances. O livro, contudo, como tudo que sai da pena do escritor manauaram é um deleite. É possível nele tanto rastrear temas e motivos e personagens (como o excepcional tio Ran) de sua ficção, revisitando com o cronista as cores e cheiros de sua Manaus infantil e juvenil, como compreender, em seu furor mais político e social, toda raiva e desejo de mudança por trás de Dois Irmãos e Cinzas do Norte: os fantasmas da ditadura militar, a Manaus destruída pela voracidade da Zona Franca, os descasos da administração pública, principalmente na área da educação, e as dores do exílio político. E também mais: parte das crônicas traçam um quadro algo pessimista do estado da cultura literária e da leitura no País e no mundo, enquanto um outro conjunto ilumina certa descrença com o momento político de distopia política e sua capacidade de engajamento – e que sofreriam uma cavalar dose de entusiasmo se espelhassem os recentes movimentos da revolta do Passe Livre. Há, no entanto, uma região em Um solitário de desencaixe e de novidade: os texto que retratam suas vivencias no estrangeiro, notadamente em Paris. Com a promessa feita por Hatoum de um romance que retrata a vida de brasileiros exilados na Europa para o próximo ano, essas crônicas algo alheias e diferentes atiçam a curiosidade (e ansiedade) de seus leitores dedicados.


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