Milton Hatoum: efeito duplo

Milton Hatoum 2008©Adriana Vichi

por Vinicius Jatobá

O novo livro de Milton Hatoum, Um solitário à espreita, tem efeito duplo. De um lado gera felicidade uma vez que todo ano que Hatoum publica um livro é um bom ano para a literatura brasileira. Por outro, apenas aumenta a ansiedade dos leitores. Um solitário é uma reunião de crônicas e diversos textos esparsos que Hatoum publicou em revistas e jornais de grande circulação, com destaque para O Estado de S. Paulo. A obra de Hatoum é poderosa: uma belíssima estreia com Relato de um certo oriente, romance-coral que mergulha nas lembranças de uma família manauara reconstituídas por uma mulher retornando do exílio; segue com Dois Irmãos, um relato passional e enérgico acerca do esfacelamento de uma família de comerciantes por conta do amor desigual dedicado por um mãe a seus filhos gêmeos; e depois com o cerebral e cinzelado Cinzas do Norte, mais um relato de decomposição familiar agora centrado no desencontro entre dois amigos, um abastado filho de latifundiário de Juta e um rapaz filho criado pelos seus tios. Hatoum ainda publicou a novela Órfão do Eldorado, uma fanática novela de amor infeliz em que a riqueza da borracha, que prometia a toda região amazônica um futuro áureo, entra em decadência ceifando o destino de toda uma família. Para arredondar esse percurso, Hatoum publicou a coletânea de contos A Cidade Ilhada, em que retoma a temperatura de sua Manaus afetiva, mas também leva sua ficção para outros espaços, como Paris, Brasília, Califórnia, e Rio de Janeiro. Entre Relato, de 1989, e Cidade, de 2009, duas décadas se passaram. A obra de Hatoum, com cinco livros, é magra, mas poderosa.

Um solitário à espreita vem se juntar ao bojo. Como toda coletânea de crônicas, é um livro irregular. Há textos que trazem toda graça e desenho da escrita vernacular e veloz que Hatoum consegue em suas melhores ficções; e outros, como acontece em muitas crônicas, parecem engasgados pela necessidade do cronista em escrever algo para cumprir o compromisso do encargo semanal ou quinzenal. Há um conjunto de textos do livro que poderiam tranquilamente compor uma nova coletânea de contos; e há fragmentos que parecem, ainda que com nomes distintos, trechos não aproveitados em seus romances. O livro, contudo, como tudo que sai da pena do escritor manauaram é um deleite. É possível nele tanto rastrear temas e motivos e personagens (como o excepcional tio Ran) de sua ficção, revisitando com o cronista as cores e cheiros de sua Manaus infantil e juvenil, como compreender, em seu furor mais político e social, toda raiva e desejo de mudança por trás de Dois Irmãos e Cinzas do Norte: os fantasmas da ditadura militar, a Manaus destruída pela voracidade da Zona Franca, os descasos da administração pública, principalmente na área da educação, e as dores do exílio político. E também mais: parte das crônicas traçam um quadro algo pessimista do estado da cultura literária e da leitura no País e no mundo, enquanto um outro conjunto ilumina certa descrença com o momento político de distopia política e sua capacidade de engajamento – e que sofreriam uma cavalar dose de entusiasmo se espelhassem os recentes movimentos da revolta do Passe Livre. Há, no entanto, uma região em Um solitário de desencaixe e de novidade: os texto que retratam suas vivencias no estrangeiro, notadamente em Paris. Com a promessa feita por Hatoum de um romance que retrata a vida de brasileiros exilados na Europa para o próximo ano, essas crônicas algo alheias e diferentes atiçam a curiosidade (e ansiedade) de seus leitores dedicados.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: