Construindo a nova literatura brasileira

José Luiz Passos e Paulo Scott

João Gabriel de Lima (mediador), José Luiz Passos e Paulo Scott na mesa Formas da derrota

*por Vinicius Jatobá

Esse ano Paraty encontra-se privilegiada: há uma exuberância de excepcionais novos talentos da narrativa nacional. Estarão em suas ruas coloniais quatro escritores jovens em pleno controle de suas criatividades: Daniel Galera, Paulo Scott, José Luiz Passos (na programação principal) e Michel Laub (na programação paralela). É inegável que está chegando o momento em que não é mais necessário, nem pela crítica e muito menos pelas próprias editora, superestimar os livros: agora eles existem, provocativos e maduros, enfrentando diferentes regiões do imaginário nacional, expandindo seu léxico (Laub, Scott), ou reformulando-o (Galera, Passos), e assertivos enquanto realizações estéticas. Nenhum desses escritores escreveu ainda sua obra-prima, estão no começo de suas trajetórias, e isso entusiasma. E seus melhores livros possuem fissuras e problemas e questões que sugerem mentes em movimento, inquietas. Esse é um bom momento da literatura brasileira. Ao contrário do lugar-comum, não procede sugerir que apenas o tempo dirá o que realmente é bom na literatura de determinado momento. Não há nada de ameaçador em celebrar a excelência atingida no momento presente, e a bengala da passagem do tempo é muitas vezes escudo ansioso, um álibi para economizar na admiração, sonegar admiração. Se existem contextos que tornam alguns livros mais visíveis que outros, a prova a olho nu é sempre fatal: Habitante Irreal, Barba ensopada de sangue, O sonâmbulo amador e Diário da Queda possuem autoridade emocional e estética, e são momentos pilares e seminais na construção de uma nova literatura brasileira.

O mais velho de todos, Paulo Scott, escreveu o livro mais selvagem da literatura brasileira recente, Habitante Irreal.De certa forma, o livro acontece apenas em dois momentos: as longuíssimas notas de rodapé que iniciam e terminam o romance, e contextualizam o enredo. O resto é vômito, desconforto, frustração; mas também mitologia, e meta-literatura. Paulo, protagonista do romance, é um advogado recém-formado descrente com os caminhos políticos do PT. Estamos em 1989. Em uma viagem de carro cruza com uma índia na beira da estrada; ele retorna para oferecer uma carona, e se apaixona; depois tem um filho, que desconhece, com essa índia. Parte para Londres, onde se entrega a uma vida desregrada em que deseja apagar seu desconforto com o que acontece com o Brasil, que é o Brasil do Collor, das privatizações, da esquerda subtraída pela mídia. Paulo retorna ao Brasil. Há encontros, desencontros.

A grande fortaleza do livro é sua linguagem. O livro é um torrente de palavras cuspidas, uma prosa veloz e agregadora que mistura tudo, diálogo, descrições, passagens de tempo, reproduzindo na forma a degradação ideológica do mundo ao redor de Paulo.É uma leitura-transe onde não importa o que acontece, e sim comoacontece. Para aumentar a confusão, Scott ainda deflagra um passeio pela nossa tradição indigenista: um dos elementos-chaves poéticos e intelectuais do Romantismo na construção de uma identidade nacional foi o “índio”, a manipulação dessa personagem no imaginário, e Scott, com Donato, o filho mestiço de Paulo, acaba por revolcar um espaço fundacional de nossa tradição literária, trazendo-o para o campo duro da luta ideológica. Nem Policarpo Quaresma, e muito menos Macunaíma,Habitante Irrealainda não deixa de compartilhar com esses clássicos uma energia amalucada, tornando-se assim uma dolorida sátira mal-humorada, uma vomitada carta de amor contemporâneaao hospício que o Brasil se tornou.

Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera é um momento de inflexão na obra de seu autor. Seus romances Mãos de Cavalo e Cordilheira, e também a brilhante novela Até o dia que o cão morreu, são precisos exercícios de autocontrole e de economia, narrativas de rédeas em constante refreamento. Isso porque as personagens de Galera são falidas emocionalmente: o médico de Mãos de Cavalo, a escritora de Cordilheira, e o tradutor de Cão encontram-se entravados, conspirando impasses, e as suas nos romances sempre começam com uma ação – escalar uma montanha, cuidar de um cachorro, engravidar – que entendem como um compromisso capaz de retirá-los de seus próprios impasses: seja voltar a escrever após anos de silêncio, ou corrigir a frustração com um emprego opressivo, ou até mesmo construir uma vida adulta realmente madura.

Apesar da pouca idade, Galera tem uma poética já definida: os entraves emocionais, as zonas de silêncio entre homens e mulheres, o conforto encontrado na solidão, os limites físicos do corpo.O romance Barba possui todos esses elementos. O protagonista, após o suicídio de seu pai, decide partir para Garopaba, cidade catarinense litorânea onde seu avô foi vítima de um misterioso assassinato. Leva consigo a cadela Beta. Mas essa não é sua única bagagem: seu próprio rosto e gestos e voz lembram seu avô Galdério, e a pequena cidade começa a se tornar algo desconfiada de sua presença conforme ele junta os pontos em redor do mistério desse assassinato. A inflexão de Barbaestá na forma algo descuidada e prolixa com que a narrativa avança: a prosa suja, encardida, repleta de redundâncias, informações algo supérfluas, mesmo que esse excesso de detalhes esteja em sintonia com a doença do protagonista (ele esquece o rosto das pessoas mesmo momentos antes de encontrá-las), é uma novidade no trabalho de Galera. Barba é o primeiro embate de Galera com um prosa realista, uma prosa que não foge nem da superfície dos objetos, de uma relação descritiva com o mundo. É um livro de ajuste em sua trajetória: tanto a prosa arrisca, quanto o personagem é diferente: ágil, proativo, curioso, aventuroso, representa uma nova atitude narrativa de Daniel Galera. Esse romance coloca Galera em posição para se tornar um escritor algo incomum na literatura brasileira: um retratista cuja obra, por conta dessa prosa que alia a observação psicológica anterior com esse novo interesse pela exterioridade do mundo, pode envelhecer refletindo os dilemas do Brasil contemporâneo, exatamente como escritores estadunidenses como Roth e DeLillo que claramente influenciaram seu trabalho.

O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos, é um romance brilhante. A FLIP que celebra o legado de Graciliano Ramos pode estar justamente abrigando seu filho esporão mais engenhoso: sonâmbulo, como o melhor de Ramos – S. Bernardo, Memórias do Cárcere e Angústia –, estabelece uma geografia narrativa prenha, misto de deambulação subjetiva e de crítica social. Exatamente como em Angústia, a narrativa tem o sabor de um sonho ruim: indo e voltando no tempo, com uma qualidade ruminante, zonza, o título é perfeito: sem discernir o que é realidade e o que é fantasia, ou o que é memória ou rastilho de sonho, o relato de Jurandir provoca mais dúvidas do que certezas, e investe na instabilidade constante da narrativa. Jurandir tem uma dor profunda, que ao final do livro se revela com a força de um recalque cujo “livro”, um conjunto de quatro cadernos, é a tentativa de aplacar; e seu afeto pela esposa e sua amantes, o conforto distinto que encontra em cada uma delas, são apenas duas faces de uma mesma moeda: seu desejo de sempre querer aquilo que não está ao seu alcance.

Sua vida é organizada em redor de mentiras, e numa viagem a capital, por conta de um processo de um funcionário da empresa têxtil em que trabalha, e sufocado pelo seu asfixiante desejo de correção, simplesmente toca fogo em seu carro. É internado em uma clínica; e a narrativa, os quatro cadernos que mantém durante sua internação, é a tentativa de encontrar novamente sua saúde. Há no livro o mesmo cenário de Ramos – a pobreza e exploração e faltas de oportunidades, e a transmissão intocada de uma cruel lógica fundiária para a indústria, que em Ramos, principalmente em Vidas Secas, parece imemorial –, mas a deambulação avança em termos mais contemporâneos: sonhos, contra-relatos, fragmentos. Passos se alimenta de boa parte da tradição literária do Nordeste: além de Ramos e Rego, é possível rastrear também a sombra dos primeiros romances de Osman Lins, tanto O Visitante quanto O Fiel e a Pedra, no esforço em criar um realismo social com uma linguagem onírica, subjetiva, que avança por metáfora e arquétipos de nossa subjetividade.

Michel Laub é um talento peculiar: publica tão regularmente, e com uma qualidade tão alta, que não sugere sua pouca idade. Michel Laub mal completou 40 anos. Sua invisibilidade se deve a uma peculiaridade de seu talento, ao qual se manteve sempre fiel: Laubé o único escritor brasileiro contemporâneo que se dedica exclusivamente ao gênero mais difícil de todos: a novela. Foram cinco até o momento, todas igualmente brilhantes e tramadas. Bem temperadas, e escritas no equilíbrio exato entre contar e esconder, revelar e sugerir, cada cobre uma experiência emocional completamente diferente da outra.

Desde o juiz enfrentando um dilema moral em Música Anterior, em que problemas pessoais acabam por influenciá-lo negativamente em um processo em que trabalha, passando por Longe da Água, relato de culpa e expiação que é algo geminada do deslumbrante Diário da Queda, em que seus narradores repensam a formação intelectual e afetiva de suas vidas a sombra de erros cometidos na juventude, a primeira revisitando um verão mágico e o último revolcando lembranças do Nazismo e Auschwitz, até o subestimado O Segundo Tempo, um livro que parte da experiência de dois irmãos como espectadores de um grande clássico do futebol gaúcho para explorar os impactos de emocionais do divórcio de seus pais, e finalmente pousando na divertida comédia intelectual O Gato Diz Adeus, em que toda parcimônia emocional de um casal é colocada em cheque quando surge na vida deles um terceiro elemento, um sedutor professor universitário. Impressiona a pletora de interesses e personagens, a sua sensibilidade para dramas de classe média, pequenos, focados e intensos. Os livros de Laub não ultrapassam as 150 páginas, o que diz imensamente acerca de seu talento: existe sempre a sensação de que acontece muita coisa em seus livros porque Laub faz os elementos emocionais paralelos de suas narrativas convergirem com extrema economia. Como Laub opera o mesmo efeito de forma diferente em cada narrativa é um toque admirável de engenho e controle técnico e expressivo que nem mesmo em releituras fica evidente.

Paraty, dessa forma, se dá o luxo de abrigar, em sua 11 FLIP, uma quantidade exuberante de talento nacional esse ano. Não se pode encarar esse privilégio de forma gratuita: escritores com essa potencia e qualidade são raríssimos, e que quatro deles se reúnam no mesmo lugar, na mesma semana, é uma oportunidade rara de celebração e de leitura. Cada um, de seu modo, está colaborando na escrita de um novo capítulo de nossa história cultural. E um capítulo que deixou de ser promissor, abandonou a qualidade de rascunho, e agora passa a ser escrito em caligrafia firme e de letras fortes. O mais instigante, e interessante, é que os melhores livros de cada um desses autores ainda está por vir. É esperar, apertar os cintos, e reler o que já publicaram enquanto suas novas pérolas não chegam.

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