Deixa disso, rapaz

Nicolas Behr

 

O poeta Nicolas Behr na mesa Maus Hábitos, na Flip 2013

*por Vinicius Jatobá

Maravilha é isso: esbarrar com um escritor do qual a gente nunca ouvir falar, e imediatamente se tornar amigo dele. Nicolas Behr é meu mais novo amigo: sua poesia atingiu primeiro meu emocional, meu sentimental, e ficou um tempo por isso mesmo. Provocou, depois do sorriso, reflexão: convidou em buscar referências, em criar parâmetros, em esboçar um argumento. Mas logo na releitura é como se Behr me dissesse deixe disso rapaz, e há muito para rir e se espantar em sua poesia, um tom que vai desarmando qualquer pretensão e ideia pré-concebida, e é assim que eu e Nicolas Behr nos tornamos amigos de toda vida. Tenho certeza que há algo muito importante a se dizer sobre qualquer um de seus livros, e que em suas métricas e paródias e enfrentamentos com Brasília e toda sua mitologia de burocratas e de fantasmas de JK e de Asas Norte e Sul e de Planos Pilotos, Behr explora algum sentido ético e estético que me escapa nesse exato momento, não porque Behr não mereça uma reflexão sobre sua obra poética, claramente poderosa e original, mas porque sempre que comecei a escrever uma resenha sobre Nicolas Behr desde que me comprometi com o blog da FLIP em escrever uma resenha sobre Nicolas Behr, e fui em algum de seus livros para me fundamentar, era como se Behr me dissesse deixa disso rapaz, não nos levemos tão a sério. Behr, como todo artista consciente, sabe dos efeitos que provoca. “Eu finjo que sou um poeta fácil / você finge que faz força para me entender”, dois versos que estão em um de seus poemas, e o crítico fica logo desarmado porque há engenho e controle na estranha locução vernacular sobre o qual Berh constrói sua poesia, e o crítico sabe de partida que o entendimento desses versos não está no esforço, mesmo que seja evidente que Behr se esforça muito para soar assim sem esforço, um “poeta fácil”, e o entendimento para esses poemas está em algo mais singelo e simples, algo mais relaxado e simples e essencial. Aqui e ali Behr desvela sofrimento, há um ocre de ansiedade, um cheiro de ditadura, uma lembrança infeliz tão embaçada na geografia da cidade que ele arma e desarma, namorando a própria geometria de seus versos com a Brasília arquitetada e construída, com suas superquadras e suas avenidas e seus endereços de siglas, sem nomes e sobrenomes, mas logo Behr convida ao baile o Eros e a Lua e os cheiros do Cerrado, e até seu querido fantasmal JK, e um rumor mais jocoso e desencontrado retorna, assume o coro, e convida mais uma vez ao sorriso, aos jogos de palavras e corpos, ao inesperado lirismo do concreto e das linhas retas. E aí Berh diz deixa disso rapaz, salve o arquivo e feche o texto com o que você já tem, e envia logo pro blog da FLIP. E faço isso, porque Nicolas Behr é meu amigo, e confio nos amigos.

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