Mesa Zé Kleber | A cidade mais aberta é a mais segura

Na mesa Zé Kléber, que discute políticas públicas urbanas, especialistas debatem a ligação entre infraestrutura e relações sociais, buscando modos de tornar a sociedade menos violenta

Guilherme Wisnik media mesa com Rene Uren, Jailson de Souza e Silva e Paula Miraglia nesta quinta-feira (31)

Guilherme Wisnik medeia mesa com Rene Uren, Jailson de Souza e Silva e Paula Miraglia nesta quinta-feira (31) / Foto: Walter Craveiro

Pensar em segurança pública sem levantar a pergunta da maneira como são feitas e vividas as cidades é impossível: os próprios cidadãos têm de tomar consciência de sua responsabilidade em produzir uma realidade urbana menos violenta e mais justa. “É preciso deslocar o sentido da nossa ideia de segurança. Sair do lugar tradicional, em que ela quer dizer proteção, e entendê-la como exercício de direitos”, diz Guilherme Wisnik, mediador da mesa “Da cidade à cidadania”.

Para Paula Miraglia, especialista no setor público em temas como violência, segurança pública e urbanismo, a violência ocupa, no Brasil atual, o mesmo grau de tragédia e urgência que, até algumas décadas atrás, era ocupado pela miséria e a fome. “Esses números falam também do modelo de desenvolvimento do país e da maneira como as cidades vêm sendo construídas. Cidades extremamente desiguais, apartadas, que reproduzem a exclusão”, diz. Miraglia foi diretora geral do International Centre for the Prevention of Crime, organização voltada para a prevenção do crime e a segurança comunitária, com sede em Montreal.

Ela lembra que o Brasil é um dos países que mais investem em segurança particular, embora a segurança seja um bem público. Como consequência, “a segurança passa a ser vista e desejada como um privilégio”.

O geógrafo carioca Jailson de Souza e Silva, um dos fundadores do Observatório das Favelas, afirmou que um modo de pensar que precisa ser alterado é aquele que enxerga a violência como envolvendo sempre o outro, seja o criminoso, o policial ou a vítima. Se a lógica da convivência social é violenta, todos somos responsáveis, portanto, por gerar uma sociedade mais aberta e plural. Jailson é professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).

A sul-africana Rene Uren, conselheira da Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável (Giz) na África do Sul, dedica-se à prevenção do crime e da violência em seu país. Ela sugere que revertamos a questão: o que é preciso fazer para que uma sociedade seja cada vez mais violenta? Algumas sugestões: dar armas a todos, ensinar as crianças a serem combativas, aumentar a divisão entre as casas e os bairros. “Uma vez que entendamos a fonte desses problemas, podemos pensar em como revertê-los”, conclui.

Uren chamou a atenção para uma distinção vocabular presente no inglês e ausente no português. A palavra “segurança” pode se traduzir de duas maneiras: como “security” (que envolve proteção, polícia e repressão) e como “safety” (que envolve bem-estar, dignidade e ausência de ameaças). Para Uren, se uma comunidade tem “safety”, ela não precisa se preocupar muito com “security”.

A mesa Zé Kleber, que reuniu os especialistas, foi criada em 2009 para discutir a cidade e suas políticas públicas, trazendo especialistas que discutem o papel do urbanismo na construção de uma cidade mais democráticas, acessível e menos desigual.

(Diego Viana)

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