Mesa 7 | Antes que o céu desabe

Fotógrafa Claudia Andujar e xamã Davi Kopenawa Yanomami usam mito indígena para denunciar a exploração predatória da Amazônia

Xamã Davi Kopenawa em mesa indígena desta sexta-feira (1) / Foto: Walter Craveiro

Xamã Davi Kopenawa em mesa indígena desta sexta-feira (1) / Foto: Walter Craveiro

O mito Yanomami do fim do mundo deu o tom da mesa “Marcados”, que reuniu o pajé e presidente da Hutukara Associação Yanomami, Davi Kopenawa Yanomami, a fotógrafa Claudia Andujar e a jornalista Eliane Brum, que mediou o encontro. Rompida a harmonia da vida no universo, o céu – que no idioma Yanomami, segundo Kopenawa, se diz “aquilo que está acima de nós” – desaba sobre todos que estão abaixo.

Na narrativa do pajé, esse evento apocalíptico já ocorreu uma vez, com o povo que habitou a floresta antes dos Yanomami. Segundo Claudia Andujar – cujo trabalho fotográfico na década de 1970 permitiu a demarcação do território indígena Yanomami na Amazônia após um período de extermínio trazido na esteira da construção de estradas rasgando a floresta – a ruptura da harmonia da vida sobre a Terra, com a ganância por minério, implicará o desabamento do céu sobre todos: “nós, vocês, os Yanomami, os japoneses, os africanos”.

A Queda do Céu é o título do livro escrito por Kopenawa com o antropólogo Bruce Albert, que sairá em 2015 no Brasil pela Companhia das Letras. Inspirada na leitura da obra, Andujar realizou o vídeo O Desabamento do Céu, que reproduz a experiência de um pajé Yanomami quando faz pedidos aos espíritos para garantir a saúde e a harmonia em torno de seu povo. O vídeo foi reproduzido na Tenda dos Autores durante o encontro Marcados – o nome remete ao título de um livro de Andujar sobre os Yanomami, lançado em 2009 pela Cosac Naify.

A mediadora Eliane Brum ressaltou o fato de que o encontro ocorre sob a marca de um risco de retrocesso na proteção aos povos indígenas da Amazônia. O próprio David Kopenawa, pouco antes de partir de sua terra para chegar em Paraty, recebeu ameaças de morte, em que lhe foi dito que ele não chegará ao fim de 2014. Somente neste ano foram retirados os últimos fazendeiros do território demarcado para o povo Yanomami, apontou a mediadora.

Kopenawa, entretanto, afirma que precisa continuar seu trabalho como pajé: “O não-índio diz: mudança climática. A poluição está lá em cima, muda o tempo, faz muito quente e muito frio. Falta água, falta chuva. O trabalho do pajé é entrar em contato com o trovão e o espírito da terra para reequilibrar o mundo, mas não só para o índio: também para branco, negro, tudo”.

(Diego Viana)

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