Mesa 8 | Lahore-São Paulo, sem escalas

As semelhanças entre Paquistão e Brasil permeiam o debate entre o cronista Antonio Prata e o romancista Mohsin Hamid

Mohsin Hamid e Antonio Prata em mesa literária nesta sexta-feira (1) / Foto: Walter Craveiro

Mohsin Hamid e Antonio Prata em mesa literária nesta sexta-feira (1) / Foto: Walter Craveiro

O cronista brasileiro Antonio Prata se descobriu um pouco paquistanês lendo os livros de Mohsin Hamid; Hamid, por sua vez, descobriu uma estranha conexão entre seu Paquistão natal e o Brasil graças a Taj Mahal, canção de Jorge Ben Jor. Para o autor paquistanês, esse é um exemplo de como o mundo está mudando, enquanto as antigas periferias amadurecem e se tornam novos centros.

“Um dos muitos aspectos da colonização é ser uma experiência que infantiliza. Mas vamos acabar crescendo, e estamos começando a crescer”, afirma Hamid, que sublinha o fato de que hoje é possível aos países pós-coloniais conectar-se diretamente, sem o intermédio dos antigos impérios. “Minha presença aqui é um exemplo disso”, afirma.

Prata comenta que sentiu familiaridade com a descrição que Hamid faz da vida de classe média do Paquistão: apesar de não ser rico, tem todas as mordomias de quem é, como motorista e empregada doméstica. Esse mesmo desconforto está presente nas crônicas do brasileiro, reunidas em Meio Intelectual, Meio de Esquerda (Editora 34). “Essa sensação ‘meio de esquerda’ faz muito sentido neste mundo de tanta desigualdade”, diz Hamid.

O autor paquistanês passou metade da vida nos Estados Unidos, onde fez sua formação universitária, mas hoje vive com a família em Lahore, no Paquistão. Seu livro O Fundamentalista Relutante (Objetiva, 2007) trata de uma relação binacional semelhante. Seu livro mais recente, Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente (Companhia das Letras), é narrado em segunda pessoa e imita um livro de auto-ajuda. “Esse é um conceito que invalida a si próprio, porque somos temporários. Na verdade, precisamos é de auto-transcendência”, afirma.

Já Prata publicou, em 2013, Nu de Botas (Companhia das Letras), em que costura memórias de infância com ficção. “Eu queria escrever sobre a infância, mas só tinha fragmentos. Então, para criar um corpo, foi preciso preencher com ficção”, fiz. Mas o cronista ressalta, também, que falar de eventos reais também envolve uma enorme dose de ficção. “Na crônica, mesmo quando o autor fala de algo que aconteceu, é ficção”, resume.

(Diego Viana)

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