Mesa 12 | Dos porões da memória

Mesa literária recupera histórias de desaparição e tortura durante o período militar

Persio Arida e Marcelo Rubens Paiva dividiram mesa com Bernardo Kucinski neste sábado (2) / Foto: Walter Craveiro

Persio Arida e Marcelo Rubens Paiva dividiram mesa com Bernardo Kucinski neste sábado (2) / Foto: Walter Craveiro

Com choro contido, a voz engasgada e a plateia atônita, Marcelo Rubens Paiva leu a crônica “Trabalhando o sal” em que lembra da atuação de sua mãe nos anos que se seguiram ao desaparecimento de seu pai, o deputado Rubens Paiva, nos porões do Doi-Codi:

“Por anos, fotógrafos nos queriam tristes. Deflagramos uma batalha contra o pieguismo da imprensa. Sim, éramos a família modelo vítima da ditadura, mas não faríamos o papelão de sairmos tristes nas fotos. Nosso inimigo não iria nos derrubar. Guerra é guerra. Minha mãe deu o tom: a família Rubens Paiva não chora em frente às câmeras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima.”

Assim começou a mesa “Memórias do Cárcere: 50 anos do golpe”, que recuperou os anos de chumbo por meio das histórias de Marcelo, filho de desaparecido, Bernardo Kucinski, irmão de desaparecida, e Persio Arida, ele próprio preso e torturado aos 18 anos.

Entre experiências e visões diferentes, surge em comum entre os três o uso da escrita para revisitar o período. Pérsio, amplamente conhecido em sua atuação como economista, recentemente se aventurou a contar alguns episódios do período de militância e prisão num texto à revista Piauí, recuperando a garçoniere do pai onde ficou escondido – a revelação da própria existência do apartamento causaria um tormento conjugal.

Hoje, no entanto, questiona boa parte dos ideais revolucionários que guiaram sua atuação naquele momento: “A história é complexa, nunca é linear. Não existe o bem contra o mal pura e simples. Se você pegar a década de 1970, os ideais da militância também eram complicados, equivocados”, sugeriu.

Autor de K (Ed. Expressão Popular), relato de ficção baseado em suas memórias, Kucinski insistiu na permanência dos grupos dominantes do período da ditadura na atualidade. “Não tenho a menor esperança na comissão da verdade. […] Conseguiram substituir a ditadura militar por uma ditadura midiática.  Acho que a estratégia da transição lenta, gradual e segura foi extremamente bem-sucedida”, disse a uma plateia que o aplaudiu de pé.

(Gabriela Longman)

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