O opressor na literatura

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Ngũgĩ wa Thiong’o e Richard Flanagan falaram sobre a figura do opressor — na literatura e em suas próprias histórias (foto de Walter Craveiro)

Pela primeira vez na América do Sul, o romancista queniano Ngũgĩ wa Thiong’o arrebatou a plateia da mesa “Escrever ao sul” ao pronunciar palavras em kikuyu, sua língua nativa, e pedir que o público as repetisse. A seu lado estava o autor australiano Richard Flanagan, premiado com o Man Booker Prize por O caminho estreito para os confins do norte, recém-lançado no Brasil.

Preso pelo governo queniano nos anos 1970 por ter escrito uma peça em seu dialeto local, Thiong’o parou de usar o inglês em seus livros, retornando à língua nativa desde então. O autor leu trechos de Um grão de trigo, seu terceiro romance, de 1967, e também da obra Sonhos em tempo de guerra, primeira parte de uma trilogia de memórias que permanece em construção.

Questionado sobre o esforço de colocar o leitor na mente do opressor, característica comum também à obra mais recente do australiano, Thiong’o afirmou que, como escritor, seu interesse é pela contradição. “Estamos agora em Paraty e é preciso ter consciência da história de sangue que criou esta cidade. O povo africano foi escravizado aqui. E os opressores, em casa, deveriam ser pais santíssimos. Iam à Igreja e pediam perdão. Não consideravam a escravidão um pecado.”

Richard Flanagan — a quem o homem sobrevive graças à capacidade de esquecer — também leu um trecho de seu premiado romance sobre o uso de trabalho forçado de prisioneiros de guerra na construção de uma ferrovia encomendada pelo Japão na Segunda Guerra Mundial, onde inclusive trabalhou seu pai. “É preciso voltar às vezes para a escuridão, para transcender o horror e reencontrar a luz”, disse. “Acho que a obscenidade da guerra não é só o sofrimento, mas é exigir de pessoas boas que elas causem sofrimento nos outros”, disse.

Ele próprio enfrentou, de certa forma, a escuridão para encontrar a luz. Foi ao Japão visitar um dos guardas da prisão em que seu pai, prisioneiro do exército japonês, ficou. “Eu pedi que ele me desse um tapa, porque esta era a primeira forma de punição do exército japonês. Ele achou que era um pedido bizarro, mas ficou de pé, tenso, fechou as mãos, e o corpo dele naquele momento se lembrou do que a mente preferia não recordar.”

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