Dupla Imoral encerra o dia na Flip

Literatura erótica e pornográfica em discussão na mesa que fechou segundo dia de Flip (foto de Walter Craveiro)

Literatura erótica e pornográfica em discussão na mesa que fechou segundo dia de Flip (foto de Walter Craveiro)

“A gente sabe que os autores, depois de mortos, já não escrevem tão bem”, gracejou Reinaldo Moraes sobre um texto “psicografado” por ele a partir de Brás Cubas — personagem machadiano –, lido pelo escritor no palco da Flip. E foi assim, em tom jocoso, o encontro sobre como “as famílias são feitas”, conforme definiu Daniel Benevides, mediador da mesa “Os Imoraes”, para apresentar atividade da Flip sobre taras literárias e eróticas. Ao lado de Moraes, estava a professora e autora de ensaios sobre erotismo na literatura Eliane Robert Moraes.

Escrito especialmente para a Flip, o texto “psicografado” pelo autor de Pornopopéia foi resultado de “uma grande coceira” que sentiu. “Fiquei pensando onde os caras trepavam, porque não tinha motel. A certa altura, Machado faz um circunlóquio ao dizer que Virgília — casada com um político — era um pouco religiosa, mas rezava em um oratório em seu quarto. Como um cara poderia saber como era na alcova conjugal da amante? Ele ficou dois anos frequentando a casa dela, apesar de não haver um traço sobre isso no livro.”

Reação, aliás, investigada pelos dois participantes, que falaram também sobre a provável etimologia de termos pornográficos, como “pica”. “A gente ri daquilo que tem dificuldade de falar e que mexe com os nossos subterrâneos”, definiu Eliane, que leu trechos de várias obras de erotismo literário, de Sade a Dalton Trevisan.

Organizadora do recém-publicado Antologia da poesia erótica brasileira, resultado de dez anos de pesquisa, a professora diz ter se lançado ao desafio incitada, em grande parte, pela obra de Hilda Hilst e também por uma constatação de Mário de Andrade: a pornografia no Brasil era desorganizada. “Cheguei a mais ou menos 300 poetas e 1.500 poemas. Mesmo assim, fica uma sensação de ser um trabalho inacabado.”

Entre os trechos lidos por Eliane estava um da obra Cheirinho de amor, compilação de crônicas eróticas escritas por Reinaldo. Nesse pedaço do texto, o autor faz uma analogia entre o peixe seco e o “cheiro de buceta saudável, o cheirinho do amor”, nas palavras dele. “Fui adquirindo várias experiências olfativas e fui entendendo onde estava a sacanagem do meu pai”, disse, entre gargalhadas e aplausos, ao contar que era encarregado de comprar lombo de bacalhau em feriado religioso.

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