Um retrato nítido de Mário

José Miguel Wisnik lançou um olhar generoso e vigoroso na obra de Mário (foto de Walter Craveiro)

José Miguel Wisnik lançou um olhar generoso e vigoroso à vida e à obra de Mário (foto de Walter Craveiro)

O clamor de José Miguel Wisnik para que educação e cultura sejam de todos, por um projeto capaz de fazer o Brasil renascer de si mesmo, “em vez de fazer de tudo para jogar a juventude pobre, negra e mestiça no esgoto das prisões”, comoveu o público presente hoje na “Conferência de encerramento: Mário de corpo inteiro”.

Emocionado, o ensaísta, músico e professor de literatura brasileira foi aplaudido de pé, por minutos. Logo após criticar o projeto para a redução da maioridade penal no Brasil, Wisnik cantou “Garoa do meu São Paulo”, poema de Mário de Andrade que integra a obra Pauliceia desvairada (“O negro vem vindo, é branco / só bem perto fica negro / passa e torna a ficar branco”).

Antes de dar um tom político à conferência, Wisnik havia discorrido por um pouco mais de uma hora sobre as dualidades e ambivalências de Mário, autor homenageado deste ano. Mencionou a relevância das imagens em movimento do modernista e o impacto de ouvir a voz dele — um áudio recuperado recentemente com Mário cantando foi disponibilizado na Tenda. “A escuta tem o impacto da pessoa viva. A respiração, o ritmo, uma espécie de holograma como nunca fotos ou textos podem mostrar”, disse ele, complementando que “a voz é o momento em que a palavra se torna música”.

Ao comentar a dicção muito correta de Mário, com todos os erres e esses, Wisnik destacou uma das dualidades contidas naquele que todo o tempo pesquisou e recorreu ao “brasileiro falado, e não ao português escrito” em suas obras e que, ao mesmo tempo, era extremamente formal na maneira de falar. “A dualidade neste homem é fundamental. Num jogo agônico, está sempre às voltas com as contradições dele mesmo, que se estampam nas contradições do Brasil”, concluiu.

Wisnik discorreu um pouco sobre a vida do modernista porque, segundo ele, no caso de Mário, há um entrelaçamento muito forte entre ela e sua produção. A começar pela constituição familiar do autor, “tipicamente brasileira e anômala” — segundo ele, sociedade escravista e mestiça que se mostra a partir da combinação de classes. “O avô de Mário, Leite Moraes, culto membro da elite, casou-se com a filha da lavadeira que havia engravidado. Uma situação clássica da vida brasileira”, disse Wisnik.

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