Archive for the ‘FlipMais’ Category

FlipMais | História, performance e poesia na programação

05-07-2015
A Cia dos Bondrés trouxe máscaras e expressividade cênica à FlipMais na faixa da noite (foto de Nelson Toledo)

A Cia dos Bondrés trouxe máscaras e expressividade cênica à FlipMais na faixa da noite (foto de Nelson Toledo)

A inglesa Hannah Silva trouxe à Casa da Cultura um espetáculo criado para o festival de poesia de Aldeburgh, que alia feminismo, linguagem corporal e experimentações sonoras. Em “Schlock! – uma performance poética”, Silva fez do livro Cinquenta tons de cinza matéria-prima dramatúrgica, investigando a sexualidade feminina e a condição da mulher. “Todo o mundo estava lendo o livro, então tive curiosidade. E fiquei muito triste. Ela não era uma submissiva mas era castigada ainda assim”, afirmou ela na conversa que se seguiu à performance.

Autoras de Brasil: uma biografia, as historiadoras Heloisa M. Starling e Lilia M. Schwarcz fizeram ontem, na Casa da Cultura, uma síntese da aula dada na programação principal da Flip, mas agora voltada especialmente a professores. Falaram sobre como a História é um exercício de lembrar, mas também de esquecer. “O motor da História é a mudança, mas o que nos interessou foi a ideia de que existe muita continuidade na mudança”, disse Schwarcz. As linhas de permanência, segundo Starling, são a escravidão (e o racismo) e a maneira como os brasileiros construíram e nomearam a ideia de liberdade.

Enquanto as duas historiadores falavam na Casa da Cultura, a Capelinha recebeu “Caminhos de Mário: a dimensão antropológica na cultura”. Na mesa, Alexandre Pimentel, diretor da Biblioteca Parque de Manguinhos (RJ); Manoel Vieira, diretor geral do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac); e Maria Pereira, coordenadora do Projeto Turista Aprendiz. Eles falaram sobre o trabalho de pesquisa do patrimônio imaterial que o homenageado Mário de Andrade compilou ao longo de meses de viagem pelo Brasil e que estão em O turista aprendiz, de 1927. Inspiradas justamente nesta obra, oficinas homônimas de criação literária para jovens, no Rio de Janeiro, foram apresentadas por Maria Pereira. A necessidade de fomentar a cultura imaterial, sem eliminar a espontaneidade das manifestações populares, foi outro assunto central no encontro.

Tão disputada quanto a conversa com as autoras de Brasil: uma biografia foi a exibição de um episódio da série do Philos TV “Poesia em movimento”, no qual a escritora e cantora Adriana Calcanhoto entrevista o poeta e compositor Arnaldo Antunes. Na gravação, o ex-Titã conta que a canção popular foi sua porta de entrada para o universo da poesia. Comenta também a importância do professor que lhe apresentou a “Caixa Preta” — conjunto de poemas visuais e poemas-objeto manipuláveis de Augusto de Campos, criados em parceria com o artista plástico Júlio Plaza. Fala ainda sobre poetas seminais em sua formação, como Waly Salomão. Ao final da exibição, subiu ao palco e recitou um poema do livro Agora aqui ninguém precisa de si.

A Capelinha recebeu ainda “As gavetas de Mário”, em que Elisabete Marin Ribas, do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros, da USP) mencionou a importância que o acervo do escritor modernista teve na formação do órgão. Na mesa, comentou também a expressividade da coleção de Mário, composta por 30 mil documentos, 17 mil livros e uma coleção de obras de arte.

A programação da FlipMais seguiu com o “Noites de cinema”, no qual foi exibido “Vilanova Artigas: o arquiteto e a luz”. Escrito por Laura Artigas, neta do arquiteto, e dirigido por ela e Pedro Gorski, o documentário remonta a trajetória de Artigas. Retrata sua formação e ressalta projetos icônicos em sua carreira, como “A casinha”, refúgio que Artigas construiu para a futura mãe de seus filhos, Virgínia; o edifício Louveira; o Estádio do Morumbi e o prédio da FAU-USP, faculdade que ajudou a formar e da qual foi afastado durante a ditadura militar.

Coube à Cia dos Bondrés encerrar a programação deste sábado na Casa da Cultura, com “Instantâneos”. No espetáculo, o grupo recorre a expressões artísticas distintas, como dança, música e teatro, permeadas por um toque de humor. A obra trata da existência humana nas várias fases da vida, da infância ao envelhecer, em suas alegrias e agruras.

FlipMais | Poesia e teatro marcam segundo dia

04-07-2015
O ator Otávio Fantinanto, da Cia do Relativo, em cena do espetáculo

O ator Otávio Fantinanto, da Cia do Relativo, em cena do espetáculo “O descotidiano”, parte da programação da FlipMais (foto de André Conti)

Com uma programação que percorreu teatro, poesia, audiovisual e educação, a sexta-feira da FlipMais movimentou os ânimos do público no auditório da Casa da Cultura.

No primeiro debate do dia, três mulheres engajadas em práticas de mediação de leitura e suas políticas reuniram-se para uma conversa sobre formação de educadores e incentivo ao exercício de ler. “Meu filho era um grande leitor e a escola quase estragou isso. O professor deveria ser muito mais um curador, dar um leque de opções de escolha em gêneros distintos, em vez de definir uma obra que deve se lida por todo um conjunto de alunos que têm uma multiplicidade de experiências e de culturas distintas”, defendeu a especialista em políticas de comunicação, arte e cultura Marta Porto, que esteve ao lado da educadora Rona Haning e da psicóloga Vera Schroeder.

Em episódio da série “Poesia em Movimento”, o poeta Eucanaã Ferraz conversou com Adriana Calcanhoto sobre João Cabral de Melo Neto: “Eu gosto muito dessa poesia que tem uma arquitetura mais densa e sobretudo mais tensa”. Destacou a obra de Drummond — que “cria certas estruturas e, quando você já se habitou com a estrutura, ele o surpreende” — e relembrou os telefonemas que Waly Salomão lhe dava às sete da manhã. “Não só lia o poema como pedia opinião.” Depois da exibição do episódio, Eucanaã continuou as reflexões em debate mediado pelo editor Flavio Moura.

Um pintor de São Paulo começa a fazer desenhos que revelam o futuro – este foi o argumento que serviu como ponto de partida de “A vida começa…”, série dirigida por Tatiana Lohmann e exibida dentro do projeto “Noites de Cinema”.

A noite terminou com o ator Otávio Fantinato aplaudido de pé sob os gritos de “bravo!”. Conjugando técnicas de dança e circo, especialmente malabarismo, o espetáculo “O Descotidiano“ deixou crianças e adultos atônitos com a mistura de lirismo e humor. Após a apresentação, os integrantes da Cia do Relativo ainda conversaram com o público sobre processo de criação. “Eu quis trazer alguns dilemas pessoais: cada cena, cada número tem a representação de um dilema pessoal meu, uma questão que eu quero trabalhar. Eu costumo dizer que o espetáculo é meu analista”, contou Fantinato.

FlipMais | Um palco para os poemas

02-08-2014

A performance da palavra poética envolve música e expressão corporal, como no encontro entre o londrino Charlie Dark e o pernambucano Siba

O pernambucano Siba e o  britânico Charlie Dark em performance na FlipMais neste sábado (2) / Foto: Walter Craveiro

O pernambucano Siba e o britânico Charlie Dark em performance na FlipMais neste sábado (2) / Foto: André Conti

Conversando com melodias, com poesia e com prosa: na mesa “Spoken Word – a poesia em performance”, o encontro de um músico pernambucano com um poeta londrino teve diversos caminhos para se concretizar. Siba, na guitarra, apresentou suas canções, seguido por Charlie Dark, que fez uma performance envolvendo o público e, em seguida, declamou poemas de sua autoria. Ao final, os dois músicos se apresentaram juntos.

As performances foram seguidas por uma conversa entre os dois, mediada pela poeta carioca Alice Sant’anna. Os artistas abordaram o papel da música e da palavra em seus trabalhos. A relação entre suas particularidades locais, como sotaques e origens, também foi tema, assim como a universalidade da arte.

“Adoro o sotaque inglês e quis fazer rap exatamente porque tenho esse sotaque”, afirmou Charlie, que é professor em escolas e quer que seus alunos aprendam a apreciar sua própria maneira de falar. “Venho de uma região em que a festa e a música são muito variadas e estão muito ligadas”, comentou Siba.

O britânico Charlie é poeta, escritor, produtor e DJ. Em Londres, onde vive, é um dos principais nomes da cena de saraus e batalhas poéticas. É também membro do trio Attica Blues e fundador do Blacktronica. O pernambucano Siba, também poeta e compositor, foi um dos fundadores do grupo Mestre Ambrósio e hoje segue carreira solo. Ele é mestre da poesia rimada e da nova geração do maracatu e dos cirandeiros.

(Diego Viana)

FlipMais | No centro, as bibliotecas

02-08-2014

Mesa sobre leitura nas escolas debateu como as escolas de Paraty e do Brasil podem estimular a intimidade com os livros

Cristina Maseda, Secretária municipal de Cultura de Paraty, em mesa da FlipMais neste sábado (2) / Foto: André Conti

Cristina Maseda, Secretária municipal de Cultura de Paraty, em mesa da FlipMais neste sábado (2) / Foto: André Conti

Até 2020, todas as escolas públicas do Brasil deverão dispor, por lei, de uma biblioteca, com pelo menos um livro para cada aluno matriculado. O desafio de cumprir essa determinação (lei 12244/2010), as escolhas em cada município e o caso específico de Paraty são os temas que unem as participantes da mesa “Biblioteca na escola: leitura e letramento”, da FlipMais. A mesa contou com a participação das secretárias municipais de Cultura e de Educação de Paraty (respectivamente Cristina Maseda e Eliane Tomé), a diretora da Fundação SM, Pilar Lacerda, e a bibliotecária Graça Castro.

A mediadora Patrícia Lacerda ressaltou que “quando se discute o planejamento e as campanhas pela leitura, o que está em jogo é um projeto de Brasil muito diferente do que a gente construiu até aqui”. Pilar Lacerda ilustrou o argumento: segundo pesquisas, quase todas as crianças que, aos oito anos, conseguem cumprir as tarefas educacionais esperadas da idade, em matemática como em português ou outras matérias, nasceram de pais letrados. “O país está melhor, mas enquanto tivermos de compensar os séculos de desigualdade, a escola e a biblioteca têm que receber uma atenção especial”, completou.

Para Eliane Tomé, as características geográficas do município de Paraty amplificam o papel da leitura no desafio de alfabetizar no tempo certo e educar adequadamente. Município diversificado, com ilhas e montanhas, quilombos e aldeias indígenas, Paraty tem 47 escolas, 34 das quais são municipais. “É uma diversidade muito grande. Não vejo outra maneira senão o trabalho a partir da leitura.”

Cristina Maseda assinalou que as bibliotecas comunitárias são um caminho importante para avançar a leitura nas diferentes regiões de Paraty. “Essas bibliotecas são uma luzinha que se acende no território”. Ela respondeu a perguntas sobre as bibliotecas municipais, que considera não estarem nas condições adequadas e precisarem de reforma. “A cidade não tinha feito a decisão política pelas bibliotecas, mas agora temos essa política e podemos seguir em frente”, afirmou.

O papel da leitura na emancipação das populações, quando se tornam capazes de participar da decodificação e da produção do conhecimento social, foi sublinhado por Graça Castro. “A biblioteca é o centro de formação, o centro de possibilidade de acesso às estruturas textuais de uma sociedade”, afirmou. Ela ressaltou que, hoje, no Brasil, o programa estatal de distribuição de livros tem funcionado, mas o acesso a esses livros na escola ainda é muito deficiente.

(Diego Viana)

FlipMais | Um escritor sem estilo

02-08-2014

Chico Caruso e Reinaldo falaram sobre o estilo livre do homenageado da Flip

 

Reinaldo e Chico Caruso abrem a FlipMais deste sábado (2) / Foto: Nelson Toledo

Reinaldo e Chico Caruso abrem a FlipMais deste sábado (2) / Foto: Nelson Toledo

“Eu acho que o Millôr ficaria puto da vida com o título dessa mesa, ele sempre dizia que não tinha estilo”, disse, de modo bem humorado, o cartunista Chico Caruso sobre o nome da mesa que abriu a FlipMais nesta manhã, “O estilo Millôr”. Acompanhado do humorista Reinaldo, comentaram o estilo – ou falta de – do Guru do Méier.

“Comecei lendo Millôr na idade em que os garotos hoje lêem Harry Potter, ele era onipresente. Tinha O Cruzeiro em qualquer sala de espera, e eu já tinha aprendido que naquela revista tinha duas páginas de Millôr, que eu sempre procurava”, lembrou Reinaldo, que mais tarde viria a trabalhar junto com ele no Pasquim.

“Ele tinha essa coisa da liberdade total tanto no texto quanto no desenho. Ele não ligava de criar uma marca, uma identidade própria. Cada dia tinha um sabor diferente. Então o que eu sempre achei bacana é essa liberdade que ele se dava de arriscar… e geralmente acertava em tudo”, disse. “E para ele, não tinha a menor importância definir se era um desenhista que escrevia ou escritor que desenhava.”

Junto com Caruso, relembrou uma exposição marcante de Millôr, que consistia em 25 telas totalmente em branco, de tamanhos variados “Nunca esqueci disso. Cada uma tinha um título. Piscina de Cleópatra. Camaleão vermelho sobre flocos de algodão”, disse Reinaldo, arrancando risos da platéia. “Eu tenho a ‘Lavadeira estendendo roupa na corda’”, completou Caruso.

“Se eu pudesse falar do estilo de Millôr, diria ‘moderno’. Mas moderno já é uma palavra antiga, né. Acho que o que fazia o estilo Millôr era a inteligência dele. E ele era inimitável”, disse Caruso. “Ele dizia que a importância na genética era ser feliz. Ele conseguiu tudo o que queria na revista rindo. Eu coloquei isso numa peça que fiz e, quando mandei pra ele, ele ficou puto. Disse que nunca riu pra chefe nenhum, e não foi na minha peça”, contou, aos risos.

(Marília Kodic)

FlipMais | A importância da poesia

02-08-2014

Leitura de poemas norteou discussão sobre a importância da leitura desde cedo

Luís Dill, Volnei Canônica, Ninfa Parreiras, Simone Monteiro de Araújo e Flávio Araújo em mesa da FlipMais nesta sexta-feira (1) / Foto: Walter Craveiro

Luís Dill, Volnei Canônica, Ninfa Parreiras, Simone Monteiro de Araújo e Flávio Araújo em mesa da FlipMais nesta sexta-feira (1) / Foto: Nelson Toledo

Lançado na Flip em 2009, o Movimento por um Brasil Literário trabalha com o direito a uma literatura de qualidade. Responsável pela primeira mesa da FlipMais desta sexta-feira, a entidade reuniu poetas, professores, bibliotecários e outros interessados para um encontro em torno da importância da poesia e um debate sobre os futuros leitores que se quer formar. 

Um por vez, os cinco participantes da mesa –  Flávio Araújo, Luís Dill, Ninfa Parreiras, Simone Monteiro de Araújo e Volnei Canônica – leram poemas que lhes foram importantes na infância e formação, com uma predominância bastante notável de Cecília Meireles. Para além da leitura, surgiram histórias pessoais de relações literárias com pais, professores e educadores. 

Paratiense e filho de pescador, o poeta Flavio Araújo leu “Infância”, de Carlos Drummond de Andrade, e lembrou dos gibis e livros que roubava da biblioteca da escola. Mais adiante, entregava marmitas, lamentando não assistir às mesas da Flip em sua cidade. “A poesia serve para nos tornar infratores daquilo que nos delimita”, disse, emocionando a platéia. 

Os versos de “Pardalzinho” de Manuel Bandeira e de “Biblioteca Verde” de Drummond também soaram na Casa da Cultura, frisando a importância do acesso amplo aos livros desde cedo. “Ser ou não ser um leitor tem que ser uma escolha”, lembrou Volnei, que leu “Ou Isto ou Aquilo”, de Cecília Meireles. 

(Gabriela Longman)

FlipMais | Em nome do pai

02-08-2014

Encontro relembra vítimas dos anos de chumbo da ditadura e questões mal resolvidas do presente

Marcelo Rubens Paiva participou de conversa com Ivo Herzog mediada por Zuenir Ventura nesta sexta-feira (1) / Foto: André Conti

Marcelo Rubens Paiva participou de conversa com Ivo Herzog mediada por Zuenir Ventura nesta sexta-feira (1) / Foto: André Conti

Por que é importante recontar sempre a história sombria da ditadura?  De que maneira o passado ainda ecoa no presente? Qual o impacto dos anos de chumbo na esfera pessoal da família Herzog e da família Rubens Paiva?

Filhos de pais famosos, Ivo Herzog e Marcelo Rubens Paiva preferiam ter pais anônimos. Enquanto Vladimir foi torturado até a morte e dado como suicida pela versão oficial, o corpo do deputado Rubens Paiva desapareceu sem vestígios. Por anos a família se perguntava se estaria morto ou vivo.

A mobilização da imprensa em torno do assassinato de Herzog, os militares que prometiam o aparecimento de Rubens Paiva em troca de dinheiro e a coragem das duas esposas – Clarice e Eunice – para lidar com a vida que seguia foram alguns dos temas que surgiram no debate. 

“Fui me alistar pro exército e é preciso preencher uma ficha dizendo se o pai está vivo ou morto. Deixei em branco. Quando vieram tirar satisfação, fui bem provocativo: pergunta para o seu comandante que ele deve saber melhor que eu”, lembrou Rubens Paiva. “Nossos pais foram vítimas. Os mártires, os heróis foram as mulheres”, disse Ivo, evocando o processo que sua mãe moveu contra a União e que venceu em 1978, ainda durante a ditadura. 

Mediada por Zuenir Ventura, a conversa concentrou-se nas lembranças, mas também nas similaridades e diferenças entre o passado e o presente. “Desde que acabou a ditadura a polícia já torturou e matou mais de 10 mil pessoas”, frisou Rubens Paiva, com o reforço de Hezog de que o Brasil é quarto país com mais jornalistas assassinados só neste ano. O caso Amarildo não deixa de guardar semelhanças com as histórias nesta noite relatadas.

(Gabriela Longman)

FlipMais | O labirinto da poesia

01-08-2014

Encontro na Casa da Cultura celebra legado de Octavio Paz

O editor mexicano Alberto Ruy-Sánchez em mesa da FlipMais nesta sexta-feira (1)

O editor mexicano Alberto Ruy-Sánchez em mesa da FlipMais nesta sexta-feira (1) / Foto: Nelson Toledo

Admiração e desconhecimento mútuos perpassam as relações literárias entre Brasil e México. Apresentando a trajetória multifacetada e algo encantada de Octavio Paz, cujo centenário de nascimento é celebrado neste ano, o encontro entre o poeta, tradutor e ensaísta Horácio Costa e o editor mexicano Alberto Ruy-Sánchez repassou boa parte da história intelectual do século 20.

Paz esteve na Espanha durante a Guerra Civil espanhola em 1936. Viveu em Paris como funcionário na embaixada e na Índia, onde repensou sua noção de erotismo. Viveu intensamente, mas sobretudo leu e escreveu, deixando uma obra de poesia, crítica literária, crítica de arte e ensaio. 

“Ele lia tudo em todas as línguas que podia. Queria saber o que faziam os jovens, trabalhava sem parar”, lembrou Ruy-Sánchez, que trabalhou com Paz na revista literária Vuelta, criada pelo Nobel de Literatura, editando nomes como Claude Lévi-Strauss e Milan Kundera. 

O surrealismo, é sabido, teria um impacto particular em sua trajetória. “Até então eu havia feito uma poesia com os olhos abertos. Em contato com o surrealismo me dei conta de que precisava fechar os olhos, entrar a mim mesmo e depois abri-los de novo”, explicava o poeta. Mas como Ruy-Sánchez apontou, a influência foi de mão dupla, pois Paz levou a Breton e aos surrealistas franceses o muito que já conhecia da poesia norte-americana. 

Repassando obras emblemáticas como o O Arco e a Lira, o debate estendeu-se até o início da noite e terminou com o lançamento de Una introduccíon a Octavio Paz (FCE), escrito pelo editor mexicano. 

(Gabriela Longman)

FlipMais | Muito além do contrato

01-08-2014

Mesa na Casa da Cultura discute dores e delicias de ser agente literário

Mariana Teixeira Soares, Nicole Witt e Lucia Riff com o mediador Henrique Rodrigues em mesa da FlipMais nesta sexta-feira (1) / Foto: Walter Craveiro

Mariana Teixeira Soares, Nicole Witt e Lucia Riff com o mediador Henrique Rodrigues em mesa da FlipMais nesta sexta-feira (1) / Foto: Nelson Toledo

Figura rodeada de mistérios, o agente literário vem ganhando importância no Brasil com o crescimento e a internacionalização do mercado editorial do país. Atuando no meio campo entre o autor e a editora, é ele quem muitas vezes acompanha um escritor ao longo de todo seu percurso, procurando defender seus interesses e apontando caminhos para a difusão de sua obra.

“O agente entra desde o início. O autor tem a ideia de um projeto, tem uma crise no meio da escrita… Você está ali acompanhando uma carreira”, definiu Lucia Riff, mais antiga e uma das mais influentes agentes no Brasil. “É um trabalho de um envolvimento muito grande e por isso não é raro que você se torne uma amiga muito próxima do autor.”

O desejo de tornar-se mais próxima dos escritores foi um dos motivos que levaram Mariana Teixeira Soares a deixar a carreira como editora para abir sua própria agência, especializada em nomes novos.

“Comecei a olhar para esses autores porque eram os que eu via alguma chance de trazer para a agência. Precisava pensar em algo que fosse complementar ao que já existia. E eis que de repente um autor indicou outro e assim por diante.”

Considerada uma espécie de embaixadora informal da língua portuguesa no mundo, a agente alemã Nicole Witt mencionou a importância da última edição da feira de Frankfurt para a difusão da literatura brasileira, com mais de 330 traduções contratadas, 115 delas de ficção.   

“A literatura brasileira andava desaparecida do mapa. O Brasil havia sido homenageado em Frankfurt anos antes, mas havia feito uma participação calcada em certos clichés. Já 2013 serviu como incentivo amplo para o mundo ver o que está sendo produzido”, frisou. 

Questionadas sobre os critérios que as levam a trabalhar com determinado autor, as três mencionaram a qualidade literária, mas também a afinidade pessoal com o projeto e, no caso de Witt, a possibilidade que a obra do autor tem de encontrar eco internacional. 

(Gabriela Longman)

FlipMais | As infinitas dimensões de um pastiche

01-08-2014

Tradutores e escritores que participaram de oficina de tradução discutem o desafio “fascinante e cruel” de transitar entre línguas

Daniel Hahn, José Luiz Passos, Sam Byers e Paulo Henriques Britto discutem os desafios da tradução em mesa da FlipMais nesta quinta-feira (31)

Daniel Hahn, José Luiz Passos, Sam Byers e Paulo Henriques Britto discutem os desafios da tradução em mesa da FlipMais nesta quinta-feira (31) / Foto: André Conti

Antes da Flip, Paraty foi palco de um exercício intensivo de tradução entre o inglês e o português. Na FlipMais, os dois autores traduzidos – o brasileiro José Luiz Passos e o inglês Sam Byers – contaram como foi a experiência de ver seus textos transformados bem à sua frente, em debate com o tradutor inglês Daniel Hahn e o brasileiro Paulo Henriques Britto. Segundo Passos, esse foi um momento “fascinante e cruel”.

A definição de tradução foi dada por Henriques Britto: “é produzir um pastiche tão bom de uma obra que o leitor possa dizer que, de fato, leu uma obra que, na realidade, ele não leu, porque foi escrita em língua que ele não conhece”. O tradutor e poeta ilustra sua definição com seu gosto pessoal pelo autor austríaco Franz Kafka, seu favorito. “Discuto Kafka com diversos especialistas, muito embora nunca tenha lido Kafka, porque não sei alemão”, conclui.

Resta a questão da relação que um autor deve manter com seu tradutor: deixá-lo trabalhar livremente ou revisar o tempo todo as traduções? À parte os idiomas tão diferentes que o autor não tem como controlar o que ocorre, diz Byers, é preciso deixar liberdade para o tradutor trabalhar. “Como o texto tem uma vida própria, uma vez que ele está pronto, você pode achar que sabe o que ele quer dizer, mas não é bem assim”, explica.

Hahn comenta que o tradutor vive incógnito por trás dos autores, tanto no Brasil quanto no Reino Unido. “Estou certo que a maioria das pessoas nesta sala já leu muitos livros de Paulo Henriques Britto, mesmo sem saber”, afirma. Apesar disso, diz Passos, ganhador do prêmio Portugal Telecom em 2013 pelo livro O Sonâmbulo Amador (Alfaguara), “a leitura que um tradutor faz é a que mais honra o escritor. Ele busca algo que está no original e ainda não existe, mas, ao existir, faz com que a obra exista em mais de um texto, como numa multiplicação dos pães”.

(Diego Viana)


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