Archive for the ‘Programação Principal’ Category

Teatro britânico no palco da Flip

04-07-2015
Dos palcos da Inglaterra para os palcos da Flip, David Hare contextualizou seu teatro político e mostrou sua força ficcional (foto de Walter Craveiro)

O britânico David Hare contextualizou seu teatro político e mostrou sua força ficcional (foto de Walter Craveiro)

A herança de Margaret Thatcher na política britânica, a TV americana na produção ficcional e as particularidades de se fazer dramaturgia na Inglaterra foram alguns dos eixos da mesa “Encontro com David Hare”, temperada com o sagaz british humour.

Um dos maiores nomes do teatro do Reino Unido, David Hare — responsável pelo roteiro cinematográfico de “As Horas” e “ O Leitor” —  apontou a necessidade de ser ter “inimigos à altura” e contou das recepções, boas e ruins, que suas peças tiveram em noite de estreia.

“Eu sou muito polêmico. Digo que seria ótimo que o teatro no Reino Unido amadurecesse, que pudéssemos escrever não sobre as mães, nossos casamentos e nossos amantes, mas sim sobre a Revolução Chinesa, sobre privatização das ferrovias , sobre o Terceiro Mundo… Isso arejaria, mas as pessoas acham que estou tentando impor um certo tipo de teatro.”

Autor de peças feitas “com espírito de documentarista”, Hare frequenta reuniões de estratégia política e investiga temas como o processo diplomático antes da invasão do Iraque. “As pessoas desabafam com um dramaturgo como nunca fariam com um jornalista. Eu nunca vou citar as fontes, indicar os nomes ou nada parecido. É quase como ser um padre recebendo uma confissão.”

Falando ainda de política, citou o fracasso do modelo neoliberal após a crise financeira de 2007-2008, mas afirmou que “os políticos continuam tentando impor esse mesmo modelo”, mencionando a atual crise na Grécia.

Versões do passado em livro

04-07-2015
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Ana Luisa Escorel e Ayelet Waldman falaram sobre memórias afetivas como matéria-prima literária (foto de Walter Craveiro)

O uso de memórias pessoais e afetivas na literatura foi central na mesa “Amar, verbo transitivo”, que reuniu nesta noite a brasileira Ana Luisa Escorel e a americano-israelense Ayelet Waldman, mediadas pela jornalista Paula Scarpin.

“É preciso gostar e apreciar nossas próprias memórias para reproduzi-las num livro. Mas é perigoso, porque o ato de escrever muda a nossa própria memória”, disse Ayelet Waldman. Autora de Amor e Memória, a autora divertiu a plateia ao contar que ela e o marido, o ganhador do Pulitzer Michael Chabon, vivem disputando os mesmos incidentes familiares. “Brigamos para ver quem de fato fez aquilo que cada um escreveu. Mas acho que precisão, neste caso, é irrelevante. A disputa é para saber qual versão do passado é a mais interessante.”

Em outro momento, Ayelet falou sobre como, depois de um incidente com o filho, tornou-se mais cuidadosa com o compartilhamento de memórias privadas. Ela revelou, em Bad Mother, que o rapaz havia sido amamentado até quase três anos de idade. “Ficou conhecido como o menino do peitinho na escola. Isso acabou com ele. Estou escrevendo outro livro de memórias e tomando muito mais cuidado com eles”, disse.

Igualmente franca, Ana Luisa Escorel emocionou-se ao falar sobre a relação que sempre teve com seus pais, o crítico literário Antonio Candido e a filósofa e ensaísta Gilda de Mello e Souza. Fez questão de salientar que as qualidades humanas de ambos pesaram mais em sua educação do que a formação intelectual.

“Na casa onde existe um sol [um autor ou intelectual renomado], não há mulher nem filho que resista. Na minha casa, não tinha sol. Tinha um pai e uma mãe. Apesar de sermos filhas de pessoas raras, eu e minha irmã não fomos destruídas nem enlouquecemos”, ponderou.

O opressor na literatura

03-07-2015
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Ngũgĩ wa Thiong’o e Richard Flanagan falaram sobre a figura do opressor — na literatura e em suas próprias histórias (foto de Walter Craveiro)

Pela primeira vez na América do Sul, o romancista queniano Ngũgĩ wa Thiong’o arrebatou a plateia da mesa “Escrever ao sul” ao pronunciar palavras em kikuyu, sua língua nativa, e pedir que o público as repetisse. A seu lado estava o autor australiano Richard Flanagan, premiado com o Man Booker Prize por O caminho estreito para os confins do norte, recém-lançado no Brasil.

Preso pelo governo queniano nos anos 1970 por ter escrito uma peça em seu dialeto local, Thiong’o parou de usar o inglês em seus livros, retornando à língua nativa desde então. O autor leu trechos de Um grão de trigo, seu terceiro romance, de 1967, e também da obra Sonhos em tempo de guerra, primeira parte de uma trilogia de memórias que permanece em construção.

Questionado sobre o esforço de colocar o leitor na mente do opressor, característica comum também à obra mais recente do australiano, Thiong’o afirmou que, como escritor, seu interesse é pela contradição. “Estamos agora em Paraty e é preciso ter consciência da história de sangue que criou esta cidade. O povo africano foi escravizado aqui. E os opressores, em casa, deveriam ser pais santíssimos. Iam à Igreja e pediam perdão. Não consideravam a escravidão um pecado.”

Richard Flanagan — a quem o homem sobrevive graças à capacidade de esquecer — também leu um trecho de seu premiado romance sobre o uso de trabalho forçado de prisioneiros de guerra na construção de uma ferrovia encomendada pelo Japão na Segunda Guerra Mundial, onde inclusive trabalhou seu pai. “É preciso voltar às vezes para a escuridão, para transcender o horror e reencontrar a luz”, disse. “Acho que a obscenidade da guerra não é só o sofrimento, mas é exigir de pessoas boas que elas causem sofrimento nos outros”, disse.

Ele próprio enfrentou, de certa forma, a escuridão para encontrar a luz. Foi ao Japão visitar um dos guardas da prisão em que seu pai, prisioneiro do exército japonês, ficou. “Eu pedi que ele me desse um tapa, porque esta era a primeira forma de punição do exército japonês. Ele achou que era um pedido bizarro, mas ficou de pé, tenso, fechou as mãos, e o corpo dele naquele momento se lembrou do que a mente preferia não recordar.”

O Brasil como personagem

03-07-2015
Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling deram uma aula vigorosa sobre o Brasil (foto de Walter Carvalho)

Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling deram uma aula vigorosa sobre o Brasil (foto de Walter Carvalho)

Percorrendo os meandros da história do Brasil, a mesa bônus com as historiadoras Heloisa M. Starling e Lilia M. Schwarcz transcorreu como uma aula sobre os grandes temas que repercutem na identidade nacional.

Autoras do recém-lançado Brasil: uma biografia, a dupla estruturou uma conferência em torno de dois tópicos que atravessam os séculos: a escravidão como um sistema estruturante da sociedade brasileira e os vários significados assumidos pelo conceito de liberdade ao longo do tempo.

Em falas corridas, Lili dedicou-se ao primeiro tema, enquanto Heloisa explanou sobre o segundo, numa reflexão que se traduziu em episódios históricos, dados numéricos, citações e imagens.

“História é prática de lembrar, mas também é prática de esquecer. Nossa narrativa é feita de muitos esquecimentos”, ponderou Schwarcz, logo no início de sua fala, entrando depois em detalhes sobre tráfico negreiro, comércio de escravos, movimentos de resistência e resquícios desse sistema na contemporaneidade. “A escravidão foi mais que um sistema de econômico. Criou um mundo de disfarces e negociações para lidar com a própria violência.”

Heloisa frisou que “a república tem dois grandes inimigos: um é o patrimonialismo, o outro é a corrupção”. Abordou momentos como o Estado Novo ou o processo de redemocratização, citando lutas por direitos e conquistas que culminaram na Constituição de 1988. “Mário de Andrade tinha razão: o Brasil arromba mesmo qualquer concepção que a gente faça dele”, emendou, elencando dualidades e paradoxos que são parte do dia a dia do país.

Pauliceia desvairada e o modernismo

03-07-2015
Roberto Pompeu de Toledo e Carlos Augusto Calil se reúnem para falar da São Paulo de Mário (foto de Walter Craveiro)

Roberto Pompeu de Toledo e Carlos Augusto Calil se reúnem para falar da São Paulo de Mário (foto de Walter Craveiro)

Da origem do termo “pauliceia desvairada” à proclamação do modernismo, a mesa sobre a São Paulo de Mário de Andrade formulou um apanhado sobre a cidade que jamais teria sido a mesma sem a participação daquele que, como disse o cineasta e ensaísta Carlos Augusto Calil, foi o primeiro secretário de Cultura do Brasil. Além de Calil, o jornalista e colunista Roberto Pompeu de Toledo fez parte de “São Paulo! comoção de minha vida…”.

Carlos Augusto Calil relembrou o que teria sido o “elemento cristalizador do modernismo paulista” ao mencionar o artigo escrito por Monteiro Lobato sobre a exposição de Anita Malfati em São Paulo, no ano de 1917, criticando a obra da artista severamente. À época, o polêmico artigo “Paranoia ou mistificação” repercutiu entre o grupo modernista, que apoiou Anita. “Eles todos se reúnem em defesa dela para proclamar o modernismo”, diz Calil, ex-secretário de cultura da capital paulista. “Numa cidade muito provinciana e num ambiente muito medíocre, Mário e Oswald se destacaram. Eram complementares.”

O jornalista Roberto Pompeu de Toledo contou à plateia a origem da expressão “pauliceia desvairada”. “Mário comprou uma vez uma obra do Brecheret, que era um cristo com tranças. A família, ao ver aquilo, ficou escandalizada. Eram muito religiosos, acharam de muito mau gosto. Isso provocou uma briga familiar, e o Mário, muito irritado, recolheu-se ao seu quarto e escreveu: ‘Pauliceia desvairada’.”

A pedido do mediador João Gabriel de Lima, Calil leu um trecho do livro A capital da vertigem, em que transcreve parte de um programa do Teatro Municipal escrito por Mário, quando responsável pelo departamento de cultura. No material, Mário faz uma analogia entre música e futebol e conclama o povo paulista a aprender a escutar música polifônica da mesma maneira em que apreciava um jogo de futebol.

Encerramento | Um apelo a defender a floresta

03-08-2014

Após a mesa de encerramento da Flip, líder Yanomami Davi Kopenawa discursa a respeito das ameaças de morte que ele e seu povo vêm recebendo na Amazônia

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O apelo de um defensor da floresta ameaçado de morte encerrou a 12a. edição da Flip neste domingo. O líder Yanomami Davi Kopenawa, que havia pedido a palavra à organização da Flip nesta tarde, subiu ao palco da Tenda dos Autores logo após a mesa “Livro de Cabeceira”, roda de leitura que tradicionalmente fecha o evento, e discursou sobre a invasão das terras indígenas da Amazônia, demarcadas segundo a Constituição Federal, por fazendeiros e garimpeiros, com a anuência do poder público.

Kopenawa deixou claro que ameaças dessa ordem, na Amazônia, não raro são cumpridas. “Eu não quero repetir o que já aconteceu. Estou lembrando de meu amigo Chico Mendes. Meu amigo já morreu”, disse. “Os fazendeiros já mataram ele. Os garimpeiros, políticos, já mataram meu amigo, que lutava e defendia a floresta.”

O líder e pajé prosseguiu com seu discurso mencionando a discriminação usual contra os povos indígenas. “Eu sou Yanomami, então não sou bicho. Eu sou gente, sei falar, sei lutar, sei reclamar, sei defender o nosso país, sei proteger nossa montanha, nossa floresta, nossa saúde. Eu sou assim”, declarou.

“Aqui tem pessoas de todo o Brasil e do mundo inteiro. Nunca vi tantas pessoas reunidas e isso me emociona”, afirmou o pajé Yanomami. “Se vocês não ajudarem o povo indígena, o mundo não vai funcionar bem. E a floresta é o que nos protege, para não ficar quente demais, para que nós e nossos filhos possamos continuar vivendo”, concluiu.

(Diego Viana)

Mesa 20 | Citações de estima

03-08-2014

Leituras que compuseram a mesa “Livro de Cabeceira” envolveram desde homenagens a Paraty e a Millôr Fernandes até declarações com teor político

Autores leem trechos de seus autores preferidos na mesa que encerrou a 12a. Flip neste domingo (3) / Foto: Walter Craveiro

Autores leem trechos de seus autores preferidos na mesa que encerrou a 12a. Flip neste domingo (3) / Foto: Walter Craveiro

Na tradicional mesa que encerra a Flip, alguns autores que passaram pela Tenda dos Autores nos últimos dias leram trechos de seus autores preferidos. Andrew Solomon leu “At The Fishhouses”, poema de Elizabeth Bishop, que viveu muitos anos no Brasil e esteve em Paraty. Fernanda Torres escolheu uma crônica em que Millôr Fernandes homenageia Rubem Braga, seu amigo e vizinho.

Eduardo Viveiros de Castro leu um trecho de “Sermão do Espírito Santo”, do padre Antonio Vieira, em que ele descreve a dificuldade de catequizar os indígenas do Brasil. A inconstância do indígena, que “mesmo depois de crer, continua não crendo”, é uma constante do estereótipo brasileiro, disse o antropólogo. Etgar Keret, israelense, leu um trecho de Matadouro Número 5, de Kurt Vonnegut, para reafirmar seu desejo de ser contra a guerra mesmo quando tanto de seus compatriotas a apoiam efusivamente.

A jornalista argentina Graciela Mochkofsky leu um trecho de A Condição Humana, de André Malraux, em que um condenado à morte oferece cianureto a companheiros amedrontados. “O fato de que eu reconheci que não faria algo parecido me perseguiu a vida toda”, afirmou. O suíço Joël Dicker leu de John Steinbeck um trecho de De Ratos e de Homens e o mexicano Juan Villoro escolheu Lolita, de Vladimir Nabokov, um livro que tem diversas referências ao México.

Marcelo Rubens Paiva encerrou a série de leituras com O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, um livro que descreve a ambição de uma sociedade consumista e fundada sobre aparências que o escritor brasileiro reconhece muito, também, no Brasil.

(Diego Viana)

Mesa 19 | Os mil nomes da paixão

03-08-2014

O chileno Jorge Edwards e o português Almeida Faria falam de paixão e política em suas obras

O escritor chileno Jorge Edwards na mesa "Os sentidos da paixão" neste domingo (3) / Foto: Walter Craveiro

O escritor chileno Jorge Edwards na mesa “Os sentidos da paixão” neste domingo (3) / Foto: Walter Craveiro

Política, literária e erótica são diferentes dimensões da paixão que se entrecruzam constantemente na obra de grandes escritores. “São infinitas as possibilidades de manifestação das paixões”, resume o mediador da mesa Os sentidos da paixão, em que o chileno Jorge Edwards, diplomata e autor de A origem do mundo (Cosac Naify), e o português Almeida Faria, que publicou o cultuado A paixão (Cosac Naify) durante a ditadura de António de Oliveira Salazar, compartilharam suas literaturas e paixões.

O profundo desejo de escapar das entranhas da burocracia, quando era representante chileno na Unesco, foi o grande motivador de Edwards para escrever A Origem do Mundo: como os discursos protocolares começam com agradecimentos a autoridades, ele sentia que estava se tornando especialista no “estilo congratulatório”. Por isso, “quis fazer algo que fosse o exato oposto do meu trabalho”.

A relação com a política também está na origem de A Paixão, livro composto sob a longa ditadura salazarista, conta Faria. Estudante de direito, fingia anotar as aulas, mas na realidade criava os personagens de seu livro. O título joga com o fato de que a sexta-feira da Paixão também é conhecida como a sexta-feira das trevas em Portugal, o que lhe permitia “dizer minha raiva sem mencionar diretamente a política”.

Para escrever sobre o amor, Faria buscou soluções na Comédia de Dante, já que “é muito difícil falar dos prazeres do corpo sem cair na banalidade, com adjetivos kitsch, nem na pornografia”, como explicou. Dante consegue isso em dois versos do Canto V do “Inferno”, que foram lidos na mesa pelo autor português.

Edwards relatou a história de sua profunda amizade com o cronista brasileiro Rubem Braga, que foi representante comercial no Chile. A possibilidade de importar por vias diplomáticas um uísque de boa qualidade colocou o brasileiro em contato não apenas com Edwards, mas com toda a intelectualidade chilena, a começar pelo poeta Pablo Neruda. Daí por diante, as visitas para o Brasil se tornaram uma constante na vida de Edwards. “Vou escrever minhas memórias em breve e acho que nelas vai ter muita coisa brasileira”, adiantou.

(Diego Viana)

Mesa 18 | Para além do teatro

03-08-2014

Tom cômico marcou encontro de Fernanda Torres e Daniel Alarcón 

Fernanda Torres e Daniel Alarcón em mesa neste domingo (3) / Foto: Walter Craveiro

Fernanda Torres e Daniel Alarcón em mesa neste domingo (3) / Foto: Walter Craveiro

Atriz antes de mais nada, Fernanda Torres dominou o palco da mesa que dividiu com Daniel Alarcón. O eixo do debate era o segundo romance dele, À noite andamos em círculos (Objetiva), sobre um ator e dramaturgo que sai em turnê pelo Peru, e o primeiro romance dela, Fim (Companhia das Letras), sobre os últimos anos de vida de cinco amigos cariocas. O encontro extrapolou a literatura para tornar-se uma encenação em si. Provocativa e performática,  a atriz fez o público rir quase o tempo todo com auto-depreciações e elogios a Daniel.

“Há três dias eu estava fazendo strip-tease. O ator é um ser que não vale nada, mas um escritor vale muito, então eu espero não conspurcar a literatura”, disse, sempre oscilando entre o registro sério e a piada. “E ele [Daniel] resolveu escrever sobre um grupo de teatro revolucionário. Que coisa démodé”, ironizou, emendando críticas ao panorama atual do teatro brasileiro.

“Uma coisa que me levou à literatura foi uma crise do teatro como meio. A literatura está num momento quente, bem como a pintura. Mas o teatro e o cinema estão vivendo uma crise mundial em torno da questão do entretenimento”, sentenciou, dizendo que doses de existencialismo e hedonismo se conjugam em sua escrita. 

Daniel entrou na dança contando episódios sobre a redação de seu romance – “sete anos de tortura”, segundo ele -, com direito a várias versões, crises depressivas e angústias na madrugada. “Entreguei a primeira versão do livro a amigos e eles me disseram: esse romance é muito ruim. Depois entendi o quanto ele era chato. Faltava o motor narrativo.“

Ao final, a pedido da mãe Fernanda Montenegro, que estava na platéia, Torres contou da importância de Millôr para sua vida e formação. “Era o amigo mais inteligente dos meus pais”, afirmou, categórica, lembrando, entre outras coisas, de suas traduções de Shakespeare. 

(Gabriela Longman)

Mesa 16 | Jornalismo e poder

03-08-2014

Discussões sobre os problemas e possibilidades atuais do jornalismo encerraram a noite de sábado na Tenda dos Autores

Os jornalistas David Carr e Graciela Mochkofsky na última mesa de sábado (2) na Flip / Foto: Walter Craveiro

Os jornalistas David Carr e Graciela Mochkofsky na última mesa de sábado (2) na Flip / Foto: Walter Craveiro

Ao ir atrás de seu passado como viciado em drogas, David Carr esbarrou em novas formas de se fazer jornalismo. Consultou boletins de ocorrência e laudos médicos sobre si próprio como se estivesse em busca de um desconhecido. “Você vai conversar com uma mulher com quem se relacionou 20 anos antes. Você achava que tinha namorado com ela, mas descobre que na verdade a havia torturado.”

Pai solteiro de gêmeas, reinventou-se ao produzir o livro “A noite da Arma”, reportagem auto-investigativa, quase arqueológica. “Gay Talese nos ensinou que a gente deve sair do prédio, encontrar pessoas mais interessantes que nós. Você não pode ficar ali no twitter, na internet, contar uma historinha e chamar isso de jornalismo”, disse.

Enquanto isso, na Argentina, Graciela Mochkofsky desencantou-se com a vida que encontrou trabalhando nos veículos de mídia tradicional. “Quando comecei a ser jornalista em 1991 minha vida estava planejada. Eu seria a principal colunista política de meu país. Quando cheguei aos 30, vi que as coisas eram diferentes do que eu havia imaginado.” Aos poucos, distanciou-se dos veículos e encontrou na produção de livros-reportagem a maneira de contar histórias que lhe interessavam.  Em Pecado Original, por exemplo, aprofundou-se no embate entre o casal Kirchner e o grupo Clarín.

“O que aconteceu na Argentina nesses 10 anos foi uma polarização da mídia dividida em contra e a favor do governo, mas não havia nada no meio. O que todo mundo queria era tomar partido de um lado ou de outro”, apontou. “De modo geral, faltou honestidade, profissionalismo e rigor. Se desenvolveu um cinismo de que a verdade é inalcançável. Não é fácil encontrar gente com ambição de contar uma história completa.”

(Gabriela Longman)


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