Archive for the ‘Programação principal’ Category

Caldeirão cultural agita noite da Flip

03-07-2015
Jorge Mautner e Marcelino Freire num encontro memorável (foto de Walter Craveiro)

Jorge Mautner e Marcelino Freire num encontro memorável (foto de Walter Craveiro)

Duas falas contundentes sobre Brasil, neurociência, literatura como grito, numa mistura de tudo: Jorge Mautner e Marcelino Freire encerraram o segundo dia de Flip na Tenda dos Autores num encontro memorável. Arrancando aplausos da plateia, o músico de “Maracatu Atômico” e o escritor idealizador do festival Balada Literária foram “Do angu ao Kaos” — título da mesa.

De um texto inédito de Mautner homenageando Maria Bethania a um conto de Marcelino condenando a falsidade e as ditas boas intenções da paz, os dois autores transitaram por terrenos íngremes: política, religião e música — um caldeirão cultural que ecoa Mário de Andrade.

“Eu costumo dizer que escrevo para me vingar”, praguejou Marcelino. “Eu escrevo movido pelo vexame, pela não conformação.” A redução da maioridade penal, o coronelismo, a democracia, o candomblé iam e vinham numa conversa que costurou histórias dos mais variados tons. Filho de judeus que fugiram do Holocausto, Mautner encontrou Marcelino, filho de sertanejos de Pernambuco.

“É assim: quem que costurar aqui, tem que costurar ali senão explode. A harmonia é feita de dissonâncias”, disse Mautner, que aproveitou para tecer um elogio ao país: “O mundo não bebe agua, não come, não respira sem o Brasil. Nós temos nióbio, água, tudo tudo tudo. Os nossos problemas são artificiais”.

Novas rotas da lírica em português

02-07-2015
19366756621_397f5df3e1_n

Os poetas Mariano Marovatto e Matilde Campilho arrebataram o público com a leitura de seus versos (foto de Walter Craveiro)

No fim de tarde desta quinta-feira, a Tenda dos Autores foi tomada pela poesia do carioca Mariano Marovatto e da lisboeta Matilde Campilho. A pluralidade de sotaques e estilos ganhou os palcos da festa e arrebatou a plateia em Paraty.

Matilde Campilho leu versos do livro “Jóquei”, que acaba de ser lançado no Brasil. Com pausas, entonações e dissonâncias, Campilho entusiasmou os espectadores. “A poesia é uma coisa que a gente faz em casa, no restaurante. Mesmo que tenha muita gente em volta, não tem ninguém”, afirmou. “A poesia é íntima mesmo quando é malabarista”, completou.

Na sequência, Mariano Marovatto falou de sua pesquisa em cima dos arquivos do poeta Cacaso (1944–1987) na Fundação Casa de Rui Barbosa, além de seu contato com a obra da escritora Ana Cristina Cesar (1952-1983) e de sua iniciação como poeta.

“Você começa a escrever poesia porque você se apaixona. Comecei a escrever poemas horríveis. Só comecei a escrever melhor quando parei de ter medo da musa, de depender de um ser superior para escrever.” O encontro intercalou leituras de poemas de um e de outro com reflexões sobre a disciplina da escrita e as particularidades da profissão.

Deslocamentos de vida e linguagem

02-07-2015
Diego Vecchio e Saša Stanišić conversaram sobre suas convergências na vida e na literatura

Diego Vecchio e Saša Stanišić conversaram sobre suas convergências na vida e na literatura (foto de Walter Craveiro)

O que um escritor bósnio radicado na Alemanha e um argentino vivendo há mais de vinte anos na França têm em comum? Mapeando pontos de conexão entre dois universos semelhantes – a vivência de guerra na infância, os deslocamentos de vida e de linguagem –, a mesa “De Micróbios e soldados” reuniu os ficcionistas Diego Vecchio e Saša Stanišić.

Ao comentar Micróbios, livro recém-lançado no Brasil, Vecchio citou a relação que estabeleceu com o universo médico. “Não sei se posso me considerar hipocondríaco publicamente, mas sempre que escrevo um livro me mimetizo com o tema. Havia tantos personagens doentes, tantos micróbios, tantos doentes na narrativa, que comecei a ter uma sensibilidade. Tomava friagem e vivia isso de forma exagerada”, contou. “Há um grande ponto em comum entre o hipocondríaco e os escritores, que é a imaginação.”

Saša contou da dificuldade que teve em lidar – psicologicamente e literariamente – com a experiência da guerra. Mencionou também sua incapacidade de escrever romances usando a língua natal, que chamou de “a língua da guerra”, tendo adotado desde o início o alemão. “Ainda que eu estivesse lá quando as granadas caíram, não consigo compreender que isso de fato aconteceu comigo”, contou.

O escritor foi premiado na Feira de Livro de Leipzig em 2014, por seu livro Antes da Festa, que se passa numa aldeia da Alemanha em vias de desaparecer. “Existem vilarejos assim no mundo todo. Eu estava interessado nas pessoas que, ao contrário da maioria, ficam. Nas que ainda querem fazer alguma coisa, nas que lutam contra seu próprio desaparecimento.” Segundo o autor, quando os lugares já não existem, cabe à literatura, de certa maneira, mantê-los vivos, reinventá-los.

Literatura e políticas públicas dão o tom da mesa Zé Kleber

02-07-2015
A mesa Zé Kleber -- intitulada "Falando alemão" -- trouxe à Flip autores do Laboratório Setor X, do Rio de Janeiro

A mesa Zé Kleber, intitulada “Falando alemão”, trouxe à Flip autores revelados em oficinas no Complexo do Alemão (foto de Walter Craveiro)

Desde 2009, a Flip promove um evento dedicado exclusivamente a debater a cidade e suas políticas públicas, batizado de mesa Zé Kleber em homenagem ao poeta, músico e ativista paratiense. Procurando relativizar as distinções entre centro e periferia, o encontro deste ano —  intitulado  “Falando alemão” — reuniu três autores que passaram pelo Laboratório Setor X, que conta com oficinas de poesia, fotografia e edição no Complexo do Alemão, na Rocinha e em Manguinhos, no Rio de Janeiro.

Com mediação do poeta e professor do projeto Carlito Azevedo, os autores Geovani Martins, Deocleciano Moura Faião e Katjusch Hœ contaram suas experiências dentro do laboratório e leram textos que produziram recentemente. Uma revista com trabalhos feitos durante o Setor X está sendo lançada na Flip, revelando autores que percorrem temáticas e registros de linguagem variados.

“Minha cabeça é meio fora da caixinha. Eu sei que em algum momento da minha vida eu vou ter que controlar palavrões, mostrar menos minhas opções íntimas, me adaptar a padrões. Mas, por enquanto, não”, salientou Deocleciano Martins, que leu um poema de sua autoria em homenagem a Ogum.

“A gente tem a intensão de continuar no projeto enquanto ele existir”, diz Geovani Martins, que também leu seu texto – um poema sobre a vida e morte de um rojão – e contou que os três pretendem agora reunir-se para realizar um livro conjunto.

Alemã vivendo no Rio de Janeiro desde 2013, Katjusch Hœ passou a coletar frases que ouvia pelas ruas – no ônibus, no bar – e assim começou a escrever. O texto resultante dessa técnica “não fala sobre Rio de Janeiro mas faz o Rio falar”, nas palavras de Azevedo.

“O que mais me impressionou nesse projeto foi inverter a noção de periferia. Quando você chega na Rocinha, no Alemão, em Manguinhos, você chega no centro. A cultura está lá borbulhando”, completou Anna Dantas, coordenadora da iniciativa, chamada ao palco para encerrar o encontro.

A cidade ideal e a cidade possível

02-07-2015
Antonio Risério e Eucanaã Ferraz se encontram na mesa de arquitetura da Flip

Antonio Risério e Eucanaã Ferraz se encontram na mesa de arquitetura da Flip (foto de Walter Craveiro)

A ideia de ultrapassar os limites dos guetos e das clausuras nos grandes centros urbanos norteou a fala do antropólogo, poeta e ensaísta Antonio Risério, que abriu a mesa “A cidade e o território”, da qual também participou o escritor Eucanaã Ferraz. O encontro iniciou o segundo dia de Flip e colocou a arquitetura em pauta.

Ao falar sobre a maneira como a expansão urbana, a estratificação econômica e a desigualdade afastou as pessoas e cindiu as cidades, Risério defendeu a organização como única forma de não “nos encalacrarmos de vez”. Para ele, esse cenário social torna difícil a ideia de compartilhar uma identidade urbana. Na sequência, Risério arrancou aplausos ao destacar: “A cidade ideal agora é a cidade necessária, é a que tenha menos gases de efeito estufa, que lide melhor com as áreas urbanas e as fontes energéticas limpas. A gente perdeu a opção de ficar sonhando com cidades ideais como os arquitetos modernistas”.

“Poeta-arquiteto”, na definição do mediador João Bandeira, Eucanaã Ferraz recorreu a Oswald de Andrade, o “grande companheiro de viagem” de Mário de Andrade, autor homenageado nesta edição da Flip, para tratar da maneira como poetas retrataram e ainda retratam a experiência urbana e o efeito dela na civilização. Declamou Bonde, poema no qual Oswald demonstra a desconfiança e o desconforto em relação à cidade. Mencionou ainda Drummond, que em Explicação expressa a inquietação e a relação de amor e ódio de quem vive na cidade (“no elevador penso na roça, na roça penso no elevador”).

O autor homenageado voltou à fala do poeta convidado, que lembrou o poema Rua de São Bento, de Mário de Andrade. Segundo Ferraz, há ali a metáfora do canto da sereia, da cidade que, à semelhança da sereia, canta e seduz com uma promessa de amor que pode se traduzir em desgraça e morte. “Sabe que o canto da cidade é extraordinário e cheio de possibilidade, mas lhe ameaça com uma espécie de dissolução mortal”, disse Ferraz.

Novos olhares sobre Mário na abertura

02-07-2015
O ator Pascoal da Conceição fez uma performance surpresa na sessão de abertura da Flip

O ator Pascoal da Conceição fez uma performance surpresa na sessão de abertura da Flip (foto de Walter Craveiro)

Uma performance inesperada e a fala de três convidados inauguraram com entusiasmo a 13ª edição da Flip na Tenda dos Autores, durante a sessão de abertura. O encontro entre a crítica argentina Beatriz Sarlo, a autora e professora de literatura brasileira da USP Eliane Robert Moraes e o pesquisador Eduardo Jardim lançou novas perspectivas sobre a vida e obra de Mário de Andrade, autor homenageado em 2015.

Após apresentação de Mauro Munhoz, diretor geral da programação principal, e Paulo Werneck, curador da Flip e da FlipMais, Beatriz Sarlo iniciou sua fala. A escritora procurou mapear as semelhanças e diferenças entre a geração de modernistas da década de 1920 no Brasil e na Argentina, analisando especialmente os livros “Macunaíma”, de Mário de Andrade, e “Don Segundo Sombra”, de Ricardo Güiraldes. Segundo Sarlo, os dois grupos estavam lidando com a questão da identidade nacional, “a pátria como uma entidade que ainda não tinha terminado de se definir naquele momento”. As diferenças, entretanto, eram marcantes: “Mário faz coisas que não teriam passado pela cabeça de um argentino, a começar pelas investigações de etnografia musical. O tango podia ser uma música a escutar, mas nunca interessou como objeto de pesquisa a esses homens de Buenos Aires da década de 1920”, afirmou.

Eliane Robert Moraes dedicou-se a dissecar a erótica de Mário, “tão inesperada quanto intensa”, lembrando que o erotismo era um componente importante do material etnográfico recolhido junto ao Bumba-meu-boi e outras tradições da cultura popular. Mário, no entanto, criaria uma relação própria e especial com a questão: “Macunaíma está o tempo todo jogando com o proibido, com o que se fala, com o que não se fala, com o que se pode falar, com o que não se pode falar. O livro resolve essa tensão de maneira genial: o que deve ser calado acaba sendo vencido pela artimanha da palavra”, sentenciou. Por fim, mencionou a questão da homossexualidade de Mário, e destacou a importância de não se reduzir sua obra à “questão gay”.

Autor de “Eu Sou Trezentos”, primeira biografia de Mário de Andrade, Eduardo Jardim trouxe à tenda a multiplicidade do autor, frisando sua atuação como agitador e gestor cultural – ajudando a formular o modernismo nos anos 1920 – mas também a colocá-lo em perspectiva crítica na década de 1940. O biógrafo mencionou ainda as dualidades com as quais o escritor lidou ao longo da vida: o erudito e o popular, o nacional e o universal, para citar algumas. “Todo o vigor da obra de Mário de Andrade resulta de ele nunca ter escapado dessas tensões […] Ele conviveu com elas”, arrematou.

A mesa — intitulada “As margens de Mário” — terminou com uma intervenção surpresa do ator Pascoal da Conceição, que, vestido como Mário de Andrade, leu um trecho do autor homenageado e manifestou publicamente sua admiração pelo trabalho de pesquisa de Jardim, sendo saudado pelo público e pelo curador. E a Flip está apenas começando.


%d blogueiros gostam disto: