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“Livro de cabeceira” encerra a Flip

05-07-2015
A tradicional

A tradicional “Livro de cabeceira” trouxe oito autores ao palco da Flip, para leitura de trechos favoritos de cada (foto de Walter Craveiro)

Tradicional encerramento da Flip, a mesa “Livro de cabeceira” é o momento em que diferentes convidados da programação principal se juntam para ler trechos de suas obras favoritas. De Guimarães Rosa a Samuel Beckett, de Flaubert a Virginia Woolf… Respondendo à pergunta “que livro levariam para uma ilha deserta para ler e reler pelo resto da vida?”, oito autores participaram do encontro, num intercâmbio de sotaques e repertórios.

Ayelet Waldman leu um trecho do ensaio: “Um Teto Todo Seu”, de Virginia Woolf, lembrando que levou dezoito anos trabalhando em cafés e bibliotecas antes de ter um quarto só seu para escrever — recomendação primordial de Woolf para escritoras. Colm Tóibín escolheu “Os Mortos”, uma das histórias do livro Dublinenses, de James Joyce. “Se eu for para uma ilha deserta, vou esperar o domingo para ler essa história. Ao longo da semana, lerei as outras.” O queniano Ngũgĩ wa Thiong’o falou de sua primeira experiência “em Paraty, no Brasil, na América do Sul”, mencionou uma “proximidade intelectual com o Brasil que passa por Jorge Amado e Paulo Freire”, leu um trecho de No castelo da minha pele, de George Lamming.

Diego Vecchio escolheu um excerto de Bouvard e Pécuchet, livro que Flaubert deixou inacabado, “um texto em que a literatura se permite rir um pouco da ciência”. Carlos Augusto Calil evocou o homenageado Mário de Andrade com “O poeta come amendoim”, de 1924, e Matilde Campilho trouxe à mesa um trecho de Textos para Nada, de Samuel Beckett, que “parece alguém a segredar textos pela noite”, nas palavras da poeta portuguesa.

Marcelino Freire prestou uma homenagem à idealizadora da Flip, Liz Calder, e a Tânia Rosing, da Jornada Literária de Passo Fundo, definidas por ele como “guerreiras”, e leu o poema “Súplica”, da moçambicana Noémia de Sousa. Richard Flanagan recitou em inglês “A Terceira Margem do Rio”, conto de Guimarães Rosa. Tão forte quanto os trechos lidos em voz alta foi o vídeo enviado pelo jornalista italiano Roberto Saviano lamentando sua ausência na Flip e traçando um panorama da dimensão do narcotráfico pelo Brasil e pelo mundo. O vídeo está disponível em nosso canal no youtube (clique aqui para assistir).

Ao final da mesa, como parte da programação da Flip, um cortejo do Palmeira Imperial Maracatu saiu por Paraty — fazendo a festa se diluir pela cidade. Foi uma bela homenagem a Mário de Andrade, que se dedicou em suas pesquisas a manifestações artísticas populares.

Um retrato nítido de Mário

05-07-2015
José Miguel Wisnik lançou um olhar generoso e vigoroso na obra de Mário (foto de Walter Craveiro)

José Miguel Wisnik lançou um olhar generoso e vigoroso à vida e à obra de Mário (foto de Walter Craveiro)

O clamor de José Miguel Wisnik para que educação e cultura sejam de todos, por um projeto capaz de fazer o Brasil renascer de si mesmo, “em vez de fazer de tudo para jogar a juventude pobre, negra e mestiça no esgoto das prisões”, comoveu o público presente hoje na “Conferência de encerramento: Mário de corpo inteiro”.

Emocionado, o ensaísta, músico e professor de literatura brasileira foi aplaudido de pé, por minutos. Logo após criticar o projeto para a redução da maioridade penal no Brasil, Wisnik cantou “Garoa do meu São Paulo”, poema de Mário de Andrade que integra a obra Pauliceia desvairada (“O negro vem vindo, é branco / só bem perto fica negro / passa e torna a ficar branco”).

Antes de dar um tom político à conferência, Wisnik havia discorrido por um pouco mais de uma hora sobre as dualidades e ambivalências de Mário, autor homenageado deste ano. Mencionou a relevância das imagens em movimento do modernista e o impacto de ouvir a voz dele — um áudio recuperado recentemente com Mário cantando foi disponibilizado na Tenda. “A escuta tem o impacto da pessoa viva. A respiração, o ritmo, uma espécie de holograma como nunca fotos ou textos podem mostrar”, disse ele, complementando que “a voz é o momento em que a palavra se torna música”.

Ao comentar a dicção muito correta de Mário, com todos os erres e esses, Wisnik destacou uma das dualidades contidas naquele que todo o tempo pesquisou e recorreu ao “brasileiro falado, e não ao português escrito” em suas obras e que, ao mesmo tempo, era extremamente formal na maneira de falar. “A dualidade neste homem é fundamental. Num jogo agônico, está sempre às voltas com as contradições dele mesmo, que se estampam nas contradições do Brasil”, concluiu.

Wisnik discorreu um pouco sobre a vida do modernista porque, segundo ele, no caso de Mário, há um entrelaçamento muito forte entre ela e sua produção. A começar pela constituição familiar do autor, “tipicamente brasileira e anômala” — segundo ele, sociedade escravista e mestiça que se mostra a partir da combinação de classes. “O avô de Mário, Leite Moraes, culto membro da elite, casou-se com a filha da lavadeira que havia engravidado. Uma situação clássica da vida brasileira”, disse Wisnik.

O romance de detetive sob suspeita

05-07-2015
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Em “De frente para o crime”, Sophie Hannah e Leonardo Padura conversaram sobre as muitas camadas ficcionais do romance de detetive (foto de Walter Craveiro)

Levar consciência social aos personagens e se preocupar com a forma da prosa foram os recursos apontados hoje pelo cubano Leonardo Padura como uma maneira de os romances policiais se livrarem do estigma de obra menor. Autor do recente O homem que amava os cachorros, em que reconta a história do assassino do líder soviético Liev Trótski, Padura participou da mesa “De frente para o crime” com a inglesa Sophie Hannah.

“Boa parte da culpa de o romance policial ser considerado um gênero menor é dos escritores que os escrevem como algo menor. Não sei se a minha escrita é boa e grande, mas eu assumi o desafio de que seja”, disse ele, mencionando mestres do gênero que influenciaram sua obra, entre eles o brasileiro Rubem Fonseca e o espanhol Manuel Vázquez Montalbán.

Padura — que reescreve suas histórias várias vezes para que “tudo funcione literariamente da melhor maneira possível” — afirmou que gosta de começar a escrever sem saber de antemão quem será o assassino de sua obra. “De alguma forma, é como se eu mesmo estivesse lendo pela primeira vez o romance que estou escrevendo”, disse.

Escolhida para dar seguimento à série de Hercule Poirot, detetive criado por Agatha Christie, Sophie Hannah comentou a surpresa que lhe causou o desafiante convite da família de Christie. “Tem sido maravilhoso. O único problema é que a Agatha tinha uma casa maravilhosa, onde passava férias, e na qual vou às vezes. E eu não tiro da cabeça a ideia de que os herdeiros deveriam me dar aquela casa”, divertiu-se, arrancando risos da plateia.

Sophie comentou a criação da dupla de detetives que aparece em seus livros, Simon e Charlie, e sobre o encantamento que este tipo de personagem exerce sobre ela. “O que eles têm em comum é o fato de serem brilhantes. E passam o livro inteiro se gabando sobre como são interessantes e como você, leitor, é completamente imbecil”, disse. Criticou o apelo recente para que os romances policiais sejam realistas. “Agora todo mundo decidiu que detetives superinteligentes são menos importantes. Estão mais preocupados com o realismo, a análise de digitais e os dados tecnológicos.”

Os caminhos da música brasileira

05-07-2015
Hermínio Bello de Carvalho e José Ramos Tinhorão se reuniram para discutir música brasileira (foto de Walter Craveiro)

Hermínio Bello de Carvalho e José Ramos Tinhorão se reuniram para discutir música brasileira (foto de Walter Craveiro)

Criada para investigar a maneira como as pesquisas de Mário de Andrade influenciaram o curso da música popular brasileira, a mesa “Música, doce música” abriu nesta manhã o último dia de conversas da Flip. Uma intensa discussão sobre a bossa nova e a relevância ou não de Tom Jobim dominou o encontro entre o pesquisador musical José Ramos Tinhorão e o compositor e escritor Hermínio Bello de Carvalho.

Tinhorão afirmou que o estilo musical brasileiro, aclamado e reconhecido dentro e fora do país, não passa de “imitação”. “Tenho pena do Tom Jobim. Como pessoa ele era excelente, mas tinha um equívoco fundamental. Achava que compunha música brasileira”, disse ele.

O pesquisador musical mencionou ainda que uma música de Judy Garland, “Mister monotony” (1948), reproduziria a mesma melodia de “Samba de uma nota só”, de Tom Jobim — posterior à canção da norte-americana. “A bossa nova é ritmo de goteira”, completou.

Convidado pelo mediador, o jornalista Luiz Fernando Vianna, a fazer uma réplica às falas de Tinhorão, Hermínio Bello de Carvalho partiu em defesa de Tom, “um dos músicos mais modernos da música popular brasileira”, e do estilo em si. “Eu não acho nada disso que o Tinhorão falou. A bossa nova foi uma invenção pessoal do João Gilberto. A bossa nova é samba, sim. É brasileiro, sim.”

Muito aplaudido, Hermínio disse que, embora bem fundamentadas, as falas de Tinhorão borram a “figura do Tom com tintas negras e sangrentas”. “Acho injusto, porque o Tom é um grande compositor, muito reverenciado. Nem vou dizer por mim, mas por um grande parceiro meu, Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha. Você não tem de revisar nada, a esta altura da vida, mas tem de reconhecer que exagera [no tom das críticas].”

Na tréplica, Tinhorão disse que Hermínio reunia “os argumentos dos modernosos”, e prosseguiu: “Então não é bossa nova. A bossa nova hoje é uma bossa velha. A única novidade da bossa nova é a batida de violão do João Gilberto”.

Palavra cantada e escrita

05-07-2015
Karina Buhr e Arnaldo Antunes trazem música e poesia à Flip (foto de Walter Craveiro)

Karina Buhr e Arnaldo Antunes trazem música e poesia à Flip (foto de Walter Craveiro)

A mesa foi sobre poesia mas desaguou em música, como não poderia deixar de ser. O encontro entre os poetas e músicos Arnaldo Antunes e Karina Buhr fechou o sábado na Tenda dos Autores em grande estilo, preenchendo com ritmos e estilos – construtivista de um, extravasado do outro – o palco da Flip.

Arnaldo falou de seu último livro Agora aqui ninguém precisa de si – já no título um poema. Ausência, vazio e introspecção atravessam boa parte do volume. Ao lado de Arnaldo, Karina Buhr cantou poemas de seu livro Desperdiçando Rima, e falou sobre a dificuldade em dissociar o que vem à mente como música e o que vem como verso.

“Fiquei feliz de ver que a mesa aqui é cadeira”, disse a cantora, compositora, poeta e desenhista pernambucana, levando a plateia ao riso. “Toda rotina – escola, universidade, escola, prêmio –, tudo isso a gente inventou e segue todo dia senão a gente endoida.” Descontraindo o debate, tocou pandeiro, falou de feminismo, e inclusive leu trecho de texto do autor homenageado da Flip, Mário de Andrade, sobre ameaças à cultura popular. “Parece que foi escrito hoje.”

Num dos momentos mais tocantes da noite, Arnaldo cantou “Socorro” (poema de Alice Ruiz), sendo acompanhado em coro pela plateia. “A gente vive num mundo que ao mesmo tempo incentiva a onipotência e oprime muito pela quantidade de compromissos e obrigações”, disse, lembrando que a poesia funciona justamente como um drible ao cotidiano.  Voltando de um período sabático que incluiu uma temporada na Índia, o poeta e compositor destacou o equilíbrio:  “Os ocidentais privilegiam mais o que e os orientais privilegiam mais o como. A gente tem que saber juntar os dois”.

Jornalismo de guerrilha

05-07-2015
Ioan Grillo e Diego Osorno dissecam a metodologia dos cartéis mexicanos (Walter Craveiro)

Ioan Grillo e Diego Osorno dissecam a metodologia dos cartéis mexicanos (foto de Walter Craveiro)

Investigar a questão do narcotráfico para além do noticiário policialesco é a missão que une os jornalistas Diego Enrique Osorno e o Ioan Grillo. Trabalhando especialmente com a conjuntura mexicana, os dois procuraram apresentar o tema dentro de uma perspectiva ampla, envolvendo política, economia, saúde, sistema judiciário e uma rede complexa que costura principalmente Europa, Estados Unidos e América Latina.

“Não há romantismo, o poderoso chefão não existe mais. Hoje é capitalismo puro. A máfia é uma empresa mergulhada nas dinâmicas onde opera”, resumiu Osorno. “No México, existem seis ou sete cartéis de drogas e todos têm na cúpula chefes de Estado, sem exceção. O narcotráfico não enfrenta o Estado, o narcotráfico tenta trabalhar junto com o Estado”, completou.

Grillo citou a violência envolvendo milhares de pessoas executadas, desaparecidas, torturadas, detidas, mas se diz esperançoso com as dimensões que as experiências e discussões envolvendo a descriminalização das drogas vêm ganhando em diferentes partes do mundo. “Vivemos uma era histórica. O debate transformou-se massivamente. Para a maior parte dos políticos, era impossível até mesmo falar em legalização há quatro ou cinco anos.”

Os dois foram convidados de última hora para ocupar o horário que estava destinado ao jornalista Roberto Saviano. O italiano não recebeu autorização dos responsáveis por sua segurança para viajar e por isso cancelou sua vinda. Antes do início da mesa, foi exibido o trecho de um vídeo enviado pelo próprio Saviano (assista aqui) à organização da Flip, lamentando sua ausência.

A matemática como elemento de magia

04-07-2015
Em conversa mediada por Bernardo Esteves,  Artur Ávila e Edward Frenkel defenderam o encanto da matemática numa troca divertida (foto de Walter Craveiro)

Em conversa mediada por Bernardo Esteves, Artur Ávila e Edward Frenkel defenderam o encanto da matemática numa troca divertida (foto de Walter Craveiro)

Reunidos sob o título “Os homens que calculavam”, dois matemáticos premiados – o brasileiro Artur Ávila e o russo Edward Frenkel  – encontraram-se na Tenda dos Autores dispostos a vencer a resistência do público em torno da disciplina a que se dedicam. A conversa começou com uma crítica contundente ao tipo de matemática que se aprende na escola.

 “É como se na aula de arte você não aprendesse sobre História ou os grandes mestres da pintura, mas sim a pintar paredes, e saísse de lá achando que arte é isso”, comparou Frenkel. “Quantos de vocês se dão conta de que toda a matemática que estudamos na escola tem mais de dois mil anos? Imaginem a mesma situação nas aulas de ciência, de História, de literatura. Imaginem que estivéssemos lendo só Homero. Muitas coisas aconteceram desde a geometria euclidiana.”

Vencedor da Medalha Fields – equivalente ao Nobel da Matemática –, Ávila contou do dia a dia de seu trabalho, lembrando que boas ideias surgem nas circunstâncias mais variadas. “Às vezes o lugar onde você menos trabalha é o escritório. Eu saio para caminhar, muitas vezes na praia. Às vezes deitado na cama, quase dormindo, é possível ativar certas conexões, pensar em coisas que você havia deixado para trás”, relatou o pesquisador, que aos 26 anos solucionou um problema conhecido como “Conjectura dos dez martinis”.

Temas como aplicabilidade das pesquisas e conexão entre a matemática e outros campos do conhecimento surgiram durante a mesa. Em mais de uma circunstância, Frenkel – autor de Amor e matemática – frisou o papel da inspiração, da criatividade e do insight no ofício do matemático. “No mundo de hoje, a gente gosta de racionalizar tudo, calcular, controlar, planejar tudo. Isso só nos torna mais ansiosos. A sabedoria é abrir mão do controle e seguir o ritmo das coisas. A descoberta matemática tem um elemento de mistério, de magia”, concluiu o pesquisador, reforçando que “a vida é muito mais que qualquer algorítmico, qualquer fórmula”.

Quadrinhos e os limites do humor

04-07-2015
O exercício do quadrinista e os limites da prática com Plantu, Riad Sattouf e Rafa Campos (foto de Walter Craveiro)

O exercício do quadrinista e seus limites éticos com Plantu, Riad Sattouf e Rafa Campos (foto de Walter Craveiro)

Cartuns e histórias em quadrinhos deveriam respeitar crenças e ideologias? Até que ponto vai o politicamente correto e os limites do humor? Reunidos no palco da Tenda dos Autores, os cartunistas franceses Plantu e Riad Sattouf e o brasileiro Rafa Campos mostraram seus desenhos e conversaram sobre as dores e delícias do ofício, mediados pelo também cartunista Claudius.

O atentado recente à redação do Charlie Hebdo foi o pano de fundo para diferentes momentos do debate. Presidente da ONG of Cartooning for Peace, Plantu frisou a importância de os cartunistas continuarem se opondo ao poder político e religioso, sem menosprezar as diferentes crenças das pessoas e os direitos humanos. “Temos que pensar sobre a responsabilidade dos nossos desenhos. Tentamos fazer pontes para falar com pessoas que não compreendem necessariamente nossas imagens.”

Autor das tiras de O Árabe do Futuro, Riad contou experiências da infância na Líbia de Muammar al-Gaddafi e do componente familiar e autobiográfico presente em suas histórias. Riad colaborava para o Charlie Hebdo por e-mail e ficou paralisado ao saber dos atentados via Twitter.

Criador da personagem “Deus Essa Gostosa”, Campos defendeu um humor que não agrada a todos, sem se importar com a crítica: “Deus costuma ser branco, velho, casto, autoritário e eu quis fazer um deus que eu achasse legal: mulher, jovem, negra. Gosta muito de pinga, gosta muito de sexo, mais relax”, disse, fazendo questão de frisar que “o Brasil é o Terceiro Reich do índio brasileiro, o Taleban da mulher brasileira, a Ku Klux Klan do negro brasileiro”. Perguntado se o cartum poderia ser considerado a oitava arte, não oscilou: “É bem melhor do que arte, as pessoas valorizam demais essa palavra”.

Relatos de viagem em pauta

04-07-2015
Beatriz Sarlo e Alexandra Lucas Coelho abriram seus diários de viagem na Flip (foto de Walter Craveiro)

Beatriz Sarlo e Alexandra Lucas Coelho abriram seus diários de viagem na Flip (foto de Walter Craveiro)

Nos anos 1960, a crítica literária Beatriz Sarlo deixou a Argentina disposta a conhecer Brasília, capital do país que “era a meca estética do modernismo”. “Só queria ver Brasília. Não olhei o Rio, nada. Estar em Brasília aos vinte anos de idade me marcou. Eu me transformei em modernista, uma doença da qual nunca fiquei curada”, disse. Ela e a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho participaram hoje da mesa “Turistas aprendizes” — alusão à obra de Mário de Andrade O turista aprendiz.

Se existe preparação para uma viagem, Beatriz acredita que ela já tenha sido feita pelos viajantes que nos antecederam, os imigrantes que boa parte dos latino-americanos carrega no DNA familiar. “Fomos preparados pelas viagens de outros. Somos produtos delas”, disse a crítica literária, que leu trechos de seu último livro, Viagens: da Amazônia às Malvinas, no qual rememora as experiências dos anos 1960.

Autora de uma série de diários de viagem, entre eles Vai, Brasil, Alexandra Lucas Coelho contou como, por meio de um “convívio íntimo com autores e músicos brasileiros”, o Brasil se envolveu com sua própria formação cultural. Na sequência, falou da sua necessidade de “dar a volta ao mundo para chegar ao Brasil”, quando o tema se voltou para relações colonialistas. “Descobri antes o colonialismo dos outros — francês, inglês, otomano e espanhol — até vir para cá lidar com o resultado de dominação de quinhentos anos do lugar de onde venho.”

Questionada pela mediadora Paula Scarpin sobre o momento político atual dos governos latino-americanos, Sarlo afirmou que o tema da esquerda latino-americana é recorrente em sua vida. “Lula parecia estar cumprindo este sonho da esquerda latino-americana. E agregava esta dimensão a qual nós, latinos, somos muito ligados, e que talvez seja o nosso problema, a do carisma”, disse. “O que me dói ao ver a corrupção brasileira é que isso arruinou uma possibilidade extraordinária. Mas ao menos aqui os envolvidos estão sendo julgados. Grande diferença entre a corrupção argentina e a brasileira. Isto me dá esperança.”

Dupla Imoral encerra o dia na Flip

04-07-2015
Literatura erótica e pornográfica em discussão na mesa que fechou segundo dia de Flip (foto de Walter Craveiro)

Literatura erótica e pornográfica em discussão na mesa que fechou segundo dia de Flip (foto de Walter Craveiro)

“A gente sabe que os autores, depois de mortos, já não escrevem tão bem”, gracejou Reinaldo Moraes sobre um texto “psicografado” por ele a partir de Brás Cubas — personagem machadiano –, lido pelo escritor no palco da Flip. E foi assim, em tom jocoso, o encontro sobre como “as famílias são feitas”, conforme definiu Daniel Benevides, mediador da mesa “Os Imoraes”, para apresentar atividade da Flip sobre taras literárias e eróticas. Ao lado de Moraes, estava a professora e autora de ensaios sobre erotismo na literatura Eliane Robert Moraes.

Escrito especialmente para a Flip, o texto “psicografado” pelo autor de Pornopopéia foi resultado de “uma grande coceira” que sentiu. “Fiquei pensando onde os caras trepavam, porque não tinha motel. A certa altura, Machado faz um circunlóquio ao dizer que Virgília — casada com um político — era um pouco religiosa, mas rezava em um oratório em seu quarto. Como um cara poderia saber como era na alcova conjugal da amante? Ele ficou dois anos frequentando a casa dela, apesar de não haver um traço sobre isso no livro.”

Reação, aliás, investigada pelos dois participantes, que falaram também sobre a provável etimologia de termos pornográficos, como “pica”. “A gente ri daquilo que tem dificuldade de falar e que mexe com os nossos subterrâneos”, definiu Eliane, que leu trechos de várias obras de erotismo literário, de Sade a Dalton Trevisan.

Organizadora do recém-publicado Antologia da poesia erótica brasileira, resultado de dez anos de pesquisa, a professora diz ter se lançado ao desafio incitada, em grande parte, pela obra de Hilda Hilst e também por uma constatação de Mário de Andrade: a pornografia no Brasil era desorganizada. “Cheguei a mais ou menos 300 poetas e 1.500 poemas. Mesmo assim, fica uma sensação de ser um trabalho inacabado.”

Entre os trechos lidos por Eliane estava um da obra Cheirinho de amor, compilação de crônicas eróticas escritas por Reinaldo. Nesse pedaço do texto, o autor faz uma analogia entre o peixe seco e o “cheiro de buceta saudável, o cheirinho do amor”, nas palavras dele. “Fui adquirindo várias experiências olfativas e fui entendendo onde estava a sacanagem do meu pai”, disse, entre gargalhadas e aplausos, ao contar que era encarregado de comprar lombo de bacalhau em feriado religioso.


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