Benoit na #Flip2015 | Fino humor britânico

04-07-2015

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Por meio de um teatro político e de grande força ficcional, David Hare se tornou um dos grandes nomes dos palcos ingleses. Na #Flip2015, conversou sobre as crenças e a estética que o norteia. (Ilustração de Alexandre Benoit)

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A matemática como elemento de magia

04-07-2015
Em conversa mediada por Bernardo Esteves,  Artur Ávila e Edward Frenkel defenderam o encanto da matemática numa troca divertida (foto de Walter Craveiro)

Em conversa mediada por Bernardo Esteves, Artur Ávila e Edward Frenkel defenderam o encanto da matemática numa troca divertida (foto de Walter Craveiro)

Reunidos sob o título “Os homens que calculavam”, dois matemáticos premiados – o brasileiro Artur Ávila e o russo Edward Frenkel  – encontraram-se na Tenda dos Autores dispostos a vencer a resistência do público em torno da disciplina a que se dedicam. A conversa começou com uma crítica contundente ao tipo de matemática que se aprende na escola.

 “É como se na aula de arte você não aprendesse sobre História ou os grandes mestres da pintura, mas sim a pintar paredes, e saísse de lá achando que arte é isso”, comparou Frenkel. “Quantos de vocês se dão conta de que toda a matemática que estudamos na escola tem mais de dois mil anos? Imaginem a mesma situação nas aulas de ciência, de História, de literatura. Imaginem que estivéssemos lendo só Homero. Muitas coisas aconteceram desde a geometria euclidiana.”

Vencedor da Medalha Fields – equivalente ao Nobel da Matemática –, Ávila contou do dia a dia de seu trabalho, lembrando que boas ideias surgem nas circunstâncias mais variadas. “Às vezes o lugar onde você menos trabalha é o escritório. Eu saio para caminhar, muitas vezes na praia. Às vezes deitado na cama, quase dormindo, é possível ativar certas conexões, pensar em coisas que você havia deixado para trás”, relatou o pesquisador, que aos 26 anos solucionou um problema conhecido como “Conjectura dos dez martinis”.

Temas como aplicabilidade das pesquisas e conexão entre a matemática e outros campos do conhecimento surgiram durante a mesa. Em mais de uma circunstância, Frenkel – autor de Amor e matemática – frisou o papel da inspiração, da criatividade e do insight no ofício do matemático. “No mundo de hoje, a gente gosta de racionalizar tudo, calcular, controlar, planejar tudo. Isso só nos torna mais ansiosos. A sabedoria é abrir mão do controle e seguir o ritmo das coisas. A descoberta matemática tem um elemento de mistério, de magia”, concluiu o pesquisador, reforçando que “a vida é muito mais que qualquer algorítmico, qualquer fórmula”.

Benoit na #Flip2015 | Paraty é uma festa

04-07-2015

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A cidade de Paraty fica ainda mais festiva e enfeitada durante a Flip. Caminhar pelas ruas históricas é parte desta jornada literária. (Ilustração de Alexandre Benoit)

Quadrinhos e os limites do humor

04-07-2015
O exercício do quadrinista e os limites da prática com Plantu, Riad Sattouf e Rafa Campos (foto de Walter Craveiro)

O exercício do quadrinista e seus limites éticos com Plantu, Riad Sattouf e Rafa Campos (foto de Walter Craveiro)

Cartuns e histórias em quadrinhos deveriam respeitar crenças e ideologias? Até que ponto vai o politicamente correto e os limites do humor? Reunidos no palco da Tenda dos Autores, os cartunistas franceses Plantu e Riad Sattouf e o brasileiro Rafa Campos mostraram seus desenhos e conversaram sobre as dores e delícias do ofício, mediados pelo também cartunista Claudius.

O atentado recente à redação do Charlie Hebdo foi o pano de fundo para diferentes momentos do debate. Presidente da ONG of Cartooning for Peace, Plantu frisou a importância de os cartunistas continuarem se opondo ao poder político e religioso, sem menosprezar as diferentes crenças das pessoas e os direitos humanos. “Temos que pensar sobre a responsabilidade dos nossos desenhos. Tentamos fazer pontes para falar com pessoas que não compreendem necessariamente nossas imagens.”

Autor das tiras de O Árabe do Futuro, Riad contou experiências da infância na Líbia de Muammar al-Gaddafi e do componente familiar e autobiográfico presente em suas histórias. Riad colaborava para o Charlie Hebdo por e-mail e ficou paralisado ao saber dos atentados via Twitter.

Criador da personagem “Deus Essa Gostosa”, Campos defendeu um humor que não agrada a todos, sem se importar com a crítica: “Deus costuma ser branco, velho, casto, autoritário e eu quis fazer um deus que eu achasse legal: mulher, jovem, negra. Gosta muito de pinga, gosta muito de sexo, mais relax”, disse, fazendo questão de frisar que “o Brasil é o Terceiro Reich do índio brasileiro, o Taleban da mulher brasileira, a Ku Klux Klan do negro brasileiro”. Perguntado se o cartum poderia ser considerado a oitava arte, não oscilou: “É bem melhor do que arte, as pessoas valorizam demais essa palavra”.

Benoit na #Flip2015 |Palavras e desejos

04-07-2015

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Erotismo e pornografia literária na mesa “Os Imoraes”, com Elaine Robert Moraes e Reinaldo Moraes, sob mediação de Daniel Benevides. (Ilustração de Alexandre Benoit)

Teatro britânico no palco da Flip

04-07-2015
Dos palcos da Inglaterra para os palcos da Flip, David Hare contextualizou seu teatro político e mostrou sua força ficcional (foto de Walter Craveiro)

O britânico David Hare contextualizou seu teatro político e mostrou sua força ficcional (foto de Walter Craveiro)

A herança de Margaret Thatcher na política britânica, a TV americana na produção ficcional e as particularidades de se fazer dramaturgia na Inglaterra foram alguns dos eixos da mesa “Encontro com David Hare”, temperada com o sagaz british humour.

Um dos maiores nomes do teatro do Reino Unido, David Hare — responsável pelo roteiro cinematográfico de “As Horas” e “ O Leitor” —  apontou a necessidade de ser ter “inimigos à altura” e contou das recepções, boas e ruins, que suas peças tiveram em noite de estreia.

“Eu sou muito polêmico. Digo que seria ótimo que o teatro no Reino Unido amadurecesse, que pudéssemos escrever não sobre as mães, nossos casamentos e nossos amantes, mas sim sobre a Revolução Chinesa, sobre privatização das ferrovias , sobre o Terceiro Mundo… Isso arejaria, mas as pessoas acham que estou tentando impor um certo tipo de teatro.”

Autor de peças feitas “com espírito de documentarista”, Hare frequenta reuniões de estratégia política e investiga temas como o processo diplomático antes da invasão do Iraque. “As pessoas desabafam com um dramaturgo como nunca fariam com um jornalista. Eu nunca vou citar as fontes, indicar os nomes ou nada parecido. É quase como ser um padre recebendo uma confissão.”

Falando ainda de política, citou o fracasso do modelo neoliberal após a crise financeira de 2007-2008, mas afirmou que “os políticos continuam tentando impor esse mesmo modelo”, mencionando a atual crise na Grécia.

Relatos de viagem em pauta

04-07-2015
Beatriz Sarlo e Alexandra Lucas Coelho abriram seus diários de viagem na Flip (foto de Walter Craveiro)

Beatriz Sarlo e Alexandra Lucas Coelho abriram seus diários de viagem na Flip (foto de Walter Craveiro)

Nos anos 1960, a crítica literária Beatriz Sarlo deixou a Argentina disposta a conhecer Brasília, capital do país que “era a meca estética do modernismo”. “Só queria ver Brasília. Não olhei o Rio, nada. Estar em Brasília aos vinte anos de idade me marcou. Eu me transformei em modernista, uma doença da qual nunca fiquei curada”, disse. Ela e a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho participaram hoje da mesa “Turistas aprendizes” — alusão à obra de Mário de Andrade O turista aprendiz.

Se existe preparação para uma viagem, Beatriz acredita que ela já tenha sido feita pelos viajantes que nos antecederam, os imigrantes que boa parte dos latino-americanos carrega no DNA familiar. “Fomos preparados pelas viagens de outros. Somos produtos delas”, disse a crítica literária, que leu trechos de seu último livro, Viagens: da Amazônia às Malvinas, no qual rememora as experiências dos anos 1960.

Autora de uma série de diários de viagem, entre eles Vai, Brasil, Alexandra Lucas Coelho contou como, por meio de um “convívio íntimo com autores e músicos brasileiros”, o Brasil se envolveu com sua própria formação cultural. Na sequência, falou da sua necessidade de “dar a volta ao mundo para chegar ao Brasil”, quando o tema se voltou para relações colonialistas. “Descobri antes o colonialismo dos outros — francês, inglês, otomano e espanhol — até vir para cá lidar com o resultado de dominação de quinhentos anos do lugar de onde venho.”

Questionada pela mediadora Paula Scarpin sobre o momento político atual dos governos latino-americanos, Sarlo afirmou que o tema da esquerda latino-americana é recorrente em sua vida. “Lula parecia estar cumprindo este sonho da esquerda latino-americana. E agregava esta dimensão a qual nós, latinos, somos muito ligados, e que talvez seja o nosso problema, a do carisma”, disse. “O que me dói ao ver a corrupção brasileira é que isso arruinou uma possibilidade extraordinária. Mas ao menos aqui os envolvidos estão sendo julgados. Grande diferença entre a corrupção argentina e a brasileira. Isto me dá esperança.”

FlipMais | Poesia e teatro marcam segundo dia

04-07-2015
O ator Otávio Fantinanto, da Cia do Relativo, em cena do espetáculo

O ator Otávio Fantinanto, da Cia do Relativo, em cena do espetáculo “O descotidiano”, parte da programação da FlipMais (foto de André Conti)

Com uma programação que percorreu teatro, poesia, audiovisual e educação, a sexta-feira da FlipMais movimentou os ânimos do público no auditório da Casa da Cultura.

No primeiro debate do dia, três mulheres engajadas em práticas de mediação de leitura e suas políticas reuniram-se para uma conversa sobre formação de educadores e incentivo ao exercício de ler. “Meu filho era um grande leitor e a escola quase estragou isso. O professor deveria ser muito mais um curador, dar um leque de opções de escolha em gêneros distintos, em vez de definir uma obra que deve se lida por todo um conjunto de alunos que têm uma multiplicidade de experiências e de culturas distintas”, defendeu a especialista em políticas de comunicação, arte e cultura Marta Porto, que esteve ao lado da educadora Rona Haning e da psicóloga Vera Schroeder.

Em episódio da série “Poesia em Movimento”, o poeta Eucanaã Ferraz conversou com Adriana Calcanhoto sobre João Cabral de Melo Neto: “Eu gosto muito dessa poesia que tem uma arquitetura mais densa e sobretudo mais tensa”. Destacou a obra de Drummond — que “cria certas estruturas e, quando você já se habitou com a estrutura, ele o surpreende” — e relembrou os telefonemas que Waly Salomão lhe dava às sete da manhã. “Não só lia o poema como pedia opinião.” Depois da exibição do episódio, Eucanaã continuou as reflexões em debate mediado pelo editor Flavio Moura.

Um pintor de São Paulo começa a fazer desenhos que revelam o futuro – este foi o argumento que serviu como ponto de partida de “A vida começa…”, série dirigida por Tatiana Lohmann e exibida dentro do projeto “Noites de Cinema”.

A noite terminou com o ator Otávio Fantinato aplaudido de pé sob os gritos de “bravo!”. Conjugando técnicas de dança e circo, especialmente malabarismo, o espetáculo “O Descotidiano“ deixou crianças e adultos atônitos com a mistura de lirismo e humor. Após a apresentação, os integrantes da Cia do Relativo ainda conversaram com o público sobre processo de criação. “Eu quis trazer alguns dilemas pessoais: cada cena, cada número tem a representação de um dilema pessoal meu, uma questão que eu quero trabalhar. Eu costumo dizer que o espetáculo é meu analista”, contou Fantinato.

Benoit na #Flip2015 | Linha do tempo

04-07-2015

IMG_1690Na mesa “Brasil: uma aula”, Heloisa M. Starling e Lilia M. Schwarcz dissecaram o país e as origens da desigualdade social brasileira. (Ilustração de Alexandre Benoit)

Dupla Imoral encerra o dia na Flip

04-07-2015
Literatura erótica e pornográfica em discussão na mesa que fechou segundo dia de Flip (foto de Walter Craveiro)

Literatura erótica e pornográfica em discussão na mesa que fechou segundo dia de Flip (foto de Walter Craveiro)

“A gente sabe que os autores, depois de mortos, já não escrevem tão bem”, gracejou Reinaldo Moraes sobre um texto “psicografado” por ele a partir de Brás Cubas — personagem machadiano –, lido pelo escritor no palco da Flip. E foi assim, em tom jocoso, o encontro sobre como “as famílias são feitas”, conforme definiu Daniel Benevides, mediador da mesa “Os Imoraes”, para apresentar atividade da Flip sobre taras literárias e eróticas. Ao lado de Moraes, estava a professora e autora de ensaios sobre erotismo na literatura Eliane Robert Moraes.

Escrito especialmente para a Flip, o texto “psicografado” pelo autor de Pornopopéia foi resultado de “uma grande coceira” que sentiu. “Fiquei pensando onde os caras trepavam, porque não tinha motel. A certa altura, Machado faz um circunlóquio ao dizer que Virgília — casada com um político — era um pouco religiosa, mas rezava em um oratório em seu quarto. Como um cara poderia saber como era na alcova conjugal da amante? Ele ficou dois anos frequentando a casa dela, apesar de não haver um traço sobre isso no livro.”

Reação, aliás, investigada pelos dois participantes, que falaram também sobre a provável etimologia de termos pornográficos, como “pica”. “A gente ri daquilo que tem dificuldade de falar e que mexe com os nossos subterrâneos”, definiu Eliane, que leu trechos de várias obras de erotismo literário, de Sade a Dalton Trevisan.

Organizadora do recém-publicado Antologia da poesia erótica brasileira, resultado de dez anos de pesquisa, a professora diz ter se lançado ao desafio incitada, em grande parte, pela obra de Hilda Hilst e também por uma constatação de Mário de Andrade: a pornografia no Brasil era desorganizada. “Cheguei a mais ou menos 300 poetas e 1.500 poemas. Mesmo assim, fica uma sensação de ser um trabalho inacabado.”

Entre os trechos lidos por Eliane estava um da obra Cheirinho de amor, compilação de crônicas eróticas escritas por Reinaldo. Nesse pedaço do texto, o autor faz uma analogia entre o peixe seco e o “cheiro de buceta saudável, o cheirinho do amor”, nas palavras dele. “Fui adquirindo várias experiências olfativas e fui entendendo onde estava a sacanagem do meu pai”, disse, entre gargalhadas e aplausos, ao contar que era encarregado de comprar lombo de bacalhau em feriado religioso.


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